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Versos e Prosas em Forma de Natal

by João Miguel Fernandes Jorge
Publisher: Relógio D'Água, November of 2010 ‧
12,50€
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«O Menino dormia na sala de dupla varanda — que passava de uma a outra face da casa, já o disse aqui mais de uma vez. Um Menino de formas esplêndidas. Dormia um sono profundo. É um Cupido adormecido, reclinado sobre o lado direito. Uma perna flectida um pouco acima do joelho, oculta e desoculta, sob o ritmo da respiração, o nascente sexo. Está deitado sobre o ouro e a prata. Perfeito no seu ser a um tempo formoso e especioso. Tem, sobre o fio de oiro entrelaçado no de prata, a atracção de Eros, espécie de força fundante. Ainda tão infante, estou em crer que, sob a luz coalhada da sua cama de ouro e prata, não seja ainda um deus e somente a fertilidade nascente e sedutora de um daimon.
No momento em que passámos à sala, nestes dias do fim do ano, chamada do presépio, as figuras todas se moviam e saudavam, como se fossem peças de um realejo. No ar da sala ficaram os cheiros de resinas queimadas ao nascer do sol; da mirra, quando o sol chegou a meio do céu; e de um estranho perfume composto de alfazema e alho — sim, de alho, que é perfume indispensável, vindo dos fundos da cozinha —, no declínio do sol. Tudo em louvor do Menino. Mas depressa se apaziguaram, guardadas pela maior imobilidade, pois deram pela nossa entrada.»

Versos e Prosas em Forma de Natal

by João Miguel Fernandes Jorge

Property Description
ISBN: 9789896411985
Publisher: Relógio D'Água
Release Date: November of 2010
Language: Portuguese
Dimensions: 151 x 231 x 8 mm
Cover: Softcover
Pages: 120
Format: Book
Categories: Books in Portuguese > Fiction > Poetry
EAN: 9789896411985

ABOUT THE AUTHOR

João Miguel Fernandes Jorge

1943, Bombarral. Poeta, prosador e crítico artístico, licenciado em Filosofia, desenvolveu também a atividade docente. Estreia-se na poesia com o volume Sob Sobre Voz, onde joga, de forma inquietante, com a não referencialidade de uma palavra que se situa na contiguidade com o indizível. Ou seja, nas palavras de Joaquim Manuel Magalhães, a perturbação gerada na leitura da sua poesia decorre da nossa formação ocidental, pela qual se torna "difícil de abdicar de um real para o qual as palavras não apontem" ("alguns descobriram que dizer barco não é arrastar à palavra um barco ou dizer aos outros que um barco está ali, mas revelar um local onde um barco não está, onde a memória dele se tornou uma música de fonemas em que desaparece o barco e o homem descobre a solidão que é dizer barco sem um barco ser. Este trabalho silencioso de captação da ausência percorre a obra de João Miguel Fernandes Jorge." (cf. MAGALHÃES, Joaquim Manuel - Os Dois Crepúsculos, Lisboa, A Regra do Jogo, 1981, pp. 224-225), ou, nas palavras do próprio autor: "O que me faz escrever este poema/não são as coisas: terra céu astros./A saber: estendo a mão: e/o mundo reconhece-a encontra a/memória onde repousa e se transforma./... Não sonho palavra sonho barco." ("Para outro texto", in Vinte e Nove Poemas, Lisboa, 1978). Confirmadas nos volumes que integram a sua Obra Poética, estas linhas de leitura remetem, segundo Fernando Guimarães, para um processo de "microrrealismo", pelo qual a "linguagem tende a testemunhar a evidência do conhecimento", ao mesmo tempo que as imagens ou metáforas se constituem como "núcleos de natureza conceptual": "João Miguel Fernandes Jorge parece fazer apelo à possibilidade de a linguagem se afastar de dois caminhos, o da metáfora e o da imagem, em que a poesia moderna tanto se fixou desde os finais do séc. XIX, privilegiando, antes, os caracteres apagadamente distintivos dos "sinais" ou, se se quiser, dos signos (...)", o poema fragmentando-se "através de múltiplas reminiscências, de uma linguagem desfocada, de uma disponibilidade subjetiva nem sempre previsível, de uma visão fluida da realidade e da natureza, de uma dispersão de significados às vezes percorridos por referências culturais ou de índole meramente circunstancial que, apesar de um descritivismo a que não raro se mantém fiel, se tornam dificilmente reconhecíveis. (...) A linguagem torna-se dispersiva, residual, e a consciência de que ela é inquestionável ou opaca a um possível significado" (GUIMARÃES, Fernando - A Poesia Portuguesa Contemporânea e o Fim da Modernidade, Lisboa, Caminho, 1989, pp. 113-114). A publicação de Crónica, em 1977, inaugura na sua bibliografia uma outra estratégia discursiva, que parte da colagem de textos e motivos históricos com acontecimentos reais e míticos e com conteúdos subjetivos.

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