Lavores de Ana
SYNOPSIS
E, contudo, sabemos que autora e narradora não coincidem, que o delírio amoroso esbarra em famílias conservadoras ou na falta de dinheiro, que as festas pagãs não bastam para calar sermões de padres ou comentários de vizinhas. E sabemos que a liberdade, para as mulheres, tem o tempo contado. Não sabemos, no entanto, quem é Ana.
Auspiciosa estreia de Ana Cláudia Santos na ficção longa, Lavores de Ana equilibra-se magistralmente entre o clássico instantâneo e a condição volátil de um sonho inventado.
EXCERPTS
«Foi, até certa idade, a minha história: uma juventude fértil em paixões, sem Deus e sem pecado; a sensação de ser fêmea sempre presente; uma necessidade involuntária de seduzir; a volúpia de me ver sempre através de olhos diferentes. E o que hoje penso é que uma mulher pode fazer amor com quantos homens queira, contanto que não o faça por falta de amor-próprio.»
BLOG WOOKACONTECE
Ana Cláudia Santos de A a W
De A a W é uma rubrica do Wookacontece, na qual desafiamos um convidado a percorrer as letras do abecedário dizendo para cada uma delas o que bem entender. O resultado é sempre uma incógnita. Desta vez, a nossa convidada é Ana Cláudia Santos, nascida em Lisboa em 1984, e que viveu em Beja, Nápoles e Pisa. Doutorou-se em Teoria da Literatura e espcializou-se na obra do grande pensador Giambattista Vico. Ensinou português na Universidade de Pisa e é uma tradutora premiada que trouxe ao público nacional obras de autores como Carlo Levi ou Alba de Céspedes.
Depois de se destacar com contos publicados em revistas como a Granta em Língua Portuguesa, e da publicação de A Morsa — Contos de Inocência e de Violência (2022), a autora lança-se agora num romance que promete marcar a literatura contemporânea. Em Lavores de Ana, a autora desenha uma tapeçaria literária onde as palavras são linhas que bordam memórias e tensões, numa prosa que desafia, emociona e surpreende.
Entre Nápoles e Lisboa, Ana move-se com a leveza de quem reivindica o corpo e a inquietação de quem se alimenta do passado. Moderna nos gestos, anacrónica nos pensamentos, a liberdade parece-lhe ao mesmo tempo alcançável e fugidia. Paixões efervescentes, passeios de motoreta sob o sol mediterrânico e a presença nostálgica do Vesúvio marcam esta narrativa que celebra a viagem, a feminilidade e a ilusão de uma liberdade sem freios. Mas esta é uma liberdade frágil, em que o delírio amoroso esbarra na moral familiar e na falta de dinheiro. No fim, resta a pergunta: quem é, afinal, Ana?
Descubra-a nas palavras de Ana Cláudia Santos, que percorre habilmente o nosso abecedário:
De A a W
Ana Cláudia Santos
A – Ana. Nome da protagonista de Lavores de Ana (e também o meu nome e o da minha mãe).
B – Bairro. Em Nápoles ou em Lisboa, as vidas nos bairros comunicam com a vida que se desenrola dentro de quatro paredes.
C – Casa. Um sítio de que nos queremos libertar ou aonde queremos chegar.
D – Divertimento. Uma composição musical para poucos instrumentos, de tom ligeiro. Um livro breve também pode ser um divertimento.
E – Educação. Mais precisamente, educação sentimental.
F – Femmina. Do latim femina, esta palavra italiana pode significar «mulher», «rapariga» ou «fêmea». Acrescentando-se-lhe o adjectivo mala, «má», temos malafemmina, que quer dizer «prostituta».
G – Gesto. O gesticular próprio da língua italiana e os gestos das mãos que se dedicam aos lavores.
H – Homem. Há três homens no livro, e aquele do qual menos se sabe não é o menos importante.
I – Italiano. A língua mais bela, a seguir ao português.
J – Juventude. Época de descoberta, de liberdade, de enamoramentos.
K – Kimbo. Conhecida marca napolitana de café delicioso.
L – Lavor. Actividade manual ou intelectual. No plural, trabalhos de agulha, muitas vezes associados às mulheres.
M – Mezzogiorno. O Sul de Itália.
N – Nápoles. «A cidade mais misteriosa da Europa», nas palavras de Curzio Malaparte.
O – Ouvido. Título de um dos capítulos do livro. Como soam certas palavras, portuguesas ou estrangeiras, aos nossos ouvidos?
P – Parténope. Antigo nome de Nápoles, cidade que nasceu mitologicamente com a morte de uma sereia alada.
Q – Quadro. «Um pequeno quadro bordado em fundo negro onde Ana apanha cerejas», é a descrição que serve de epígrafe ao livro.
R – Regresso. Voltar a lugares onde se foi feliz e, ao mesmo tempo, onde se sofreu.
S – Sensação. De euforia ou de violência, de alegria ou de reconhecimento, mas também de melancolia, proliferam neste livro as sensações.
T – Tradutora. Ofício ou profissão da protagonista (e da autora) do livro.
U – União. Palavra usada uma única vez no livro e que remete para o final.
V – Vesúvio. O «gigante da montanha», vulcão a sudeste de Nápoles.
W – Warhol. Nas paredes de vários cafés, restaurantes, lojas e hotéis de Nápoles, multiplicam-se reproduções da obra Vesuvius de Andy Warhol.
Mini-entrevista a Ana Cláudia Santos
Ana Claúdia Santos (Lisboa, 1984) é doutorada em Teoria da Literatura pela Universidade de Lisboa. Trabalhou na Imprensa da Universidade de Lisboa e ensinou português na Universidade de Pisa. Traduziu, entre outros, Italo Svevo e Natalia Ginzburg. Em 2022, publicou A Morsa – Contos de Inocência e de Violência.
Lavores de Ana é a sua primeira narrativa longa e conta a história de Ana, uma mulher entre duas cidades, Nápoles e Lisboa. Um livro que retrata o fim da juventude e o começo da idade adulta e que reflete, entre viagens e diferentes tempos, sobre a condição de ser mulher e de ser livre.
Citação:
«Gosto de ler sobre tudo; escrevo sobre o que posso, consigo, desejo e me inquieta.»
Ana Cláudia Santos
Como surgiu a ideia para este livro?
Quis escrever um conto sobre uma mulher que fica fechada numa varanda, em Nápoles, numa casa que não é dela. Enviei cerca de 13 páginas à minha editora, e ela incitou-me a imaginar uma continuação para a história. Desenvolvi-a e escrevi-a ao longo de um ano e meio; tive muito tempo para pensar na estrutura do livro.
Tem uma rotina de escrita?
Não. Se estiver a trabalhar num texto e puder fazê-lo, escrevo a qualquer hora. No entanto, o meu período preferido para escrever é o início da manhã. Sou um animal matutino.
Como lida com um bloqueio criativo?
Nunca tive aquilo que se entende geralmente por bloqueio criativo. Até agora, quando quis escrever, fi-lo. Talvez seja interessante explorar o que significa «querer escrever». Esse, para mim, é o melhor estado possível.
Qual é a pior e a melhor parte de ser escritora?
A melhor é escrever, trabalhar com a linguagem e a fantasia; a pior é a cabeça nunca ter descanso.
Há algum tema sobre o qual não goste de ler ou escrever?
Gosto de ler sobre tudo; escrevo sobre o que posso, consigo, desejo e me inquieta.
Se pudesse partilhar um jantar com qualquer autor (vivo ou morto), quem escolheria?
A escritora italiana Natalia Ginzburg (1916-1991). Mas não teria de ser um jantar: já me contentaria com um diálogo epistolar. Quando admiramos e amamos um escritor, podemos sentir-nos tentados a querer comunicar com ele. De alguma forma, quando a traduzi, senti que estava a fazê-lo.
Qual o livro que já devia ter lido e ainda não leu?
A Bíblia.
Qual o livro que mais a marcou até hoje?
Houve muitos, mas gostava de destacar Laços de família, de Clarice Lispector.
Qual foi o último livro que ofereceu?
Ofereci ao meu pai O Cárcere, de Cesare Pavese.
DETAILS
| Property | Description |
|---|---|
| ISBN: | 9789895833368 |
| Publisher: | Companhia das Letras |
| Release Date: | March of 2025 |
| Language: | Portuguese |
| Dimensions: | 147 x 235 x 10 mm |
| Cover: | Softcover |
| Pages: | 128 |
| Format: | Book |
| Categories: |
Books in Portuguese
>
Fiction
>
Romance
|
| EAN: | 9789895833368 |
REVIEWS
Experiência
Vito P.
Livro lindíssimo, gostei muitíssimo! Há frases que te agarram pelas costas e te fazem deitar docemente em um canteiro de flores refrescado por uma brisa leve, até o coração chorar interminávelmente. É, de verdade, uma viagem extraordinária, recomendo muito :) (desculpem o meu mau português)
Lavores de Ana
João S.
Uma grata surpresa. De uma delicadeza e verdade que impressiona. Muitas reflexões pertinentes e necessárias. A sensação que tive a cada página é que era um daqueles livros que, sem saber, tinha urgência de ler e isso é um tremendo elogio à sua qualidade. Ana Cláudia Santos vem para gravar o seu nome também como escritora. Só por este livro não tenho a menor dúvida do seu talento para tal. Recomendo!
Belo e envolvente
Andreia Machado
Este livro só peca por ser tão pequeno! Leria mais páginas sobre a Ana e sobre Nápoles sem esforço algum! A escrita é bela, poética e envolvente. As descrições de Nápoles e todas as referências literárias são sublimes e transportam-nos diretamente para lá. A comparação com a cultura popular portuguesa implícita é também muito interessante e, no fundo, a história de Ana (que muitas vezes senti como vivências da própria autora) é uma crítica social ao impacto das tradições tão profundamente enraizadas na sociedade e na alma das pessoas. No caso particular da nossa protagonista, trata-se de como a sociedade a vê e da pressão que lhe coloca em relação à vida adulta, ao casamento e à maternidade. A nossa protagonista é uma mulher que ousa ser jovem até querer ser adulta, e sobre o que isso pode implicar na vida de uma mulher que, como sabemos, tem uma “validade” curta em relação à fertilidade. Ana reflete, e leva o leitor a refletir, sobre a necessidade de ser mãe como opção ou desejo pessoal, versus imposição da sociedade. Não és mais nem menos do que outro ser humano se não segues o padrão. Este livro convida-te a aceitares-te tal como és, com todas as tuas vivências, que te trouxeram até ao momento em que estás, e a tentares olhar para a tua realidade sem a visão enviesada da sociedade, mas com os teus próprios olhos e o teu coração. “Tomo nota com a mente: ouvir, ver, sentir, compreender, não temer a incompreensão, não temer ser vista. A vida é tão breve, o amor é tão raro, e nós tivemos tanta sorte.” Gostei muito, mesmo, e espero poder ler mais livros da autora.
Ver, ouvir, sentir, não temer…
Ler, um prazer adquirido
Breve, belo, delicado. Um romance que é um viagem por Nápoles, aumentando o imaginário do leitor, numa cidade que é como uma personagem secundária, tal o apreço, o que leva Ana a regressar dez anos depois e a associar certas zonas pelos seus afetos numa liberdade sentimental enquanto jovem mulher. O regresso a Lisboa determina um balanço numa vida vivida em que, o tempo geracional de origens humildes deu um salto da servidão para a liberdade de escolha. Um amadurecimento que, tarda a constituir família. Despretensioso faz interessantes paralelos sobre um equilíbrio conquistado. O final é inesperado mas banal se… não fosse difícil. “Eu não era essa mulher, e essa não era a minha história” mas é de tantas. Tomei nota. Ver, ouvir, sentir, não temer a incompreensão, não temer ser vista, não temer ser viva.
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