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Know My Name

The Survivor Of The Stanford Sexual Assault Case Tells Her Story

by Chanel Miller
language: english
Publisher: PENGUIN BOOKS LTD, September of 2020 ‧
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Chanel Miller: a história de como a literatura venceu o sistema

Este é o Meu Nome nasceu da superação de um momento tenebroso, na vida de uma pessoa extraordinária: Chanel Miller – escritora, ilustradora, sobrevivente. Quando, por volta da meia-noite do dia 17 de janeiro de 2015, foi agredida sexualmente enquanto estava inconsciente no chão, atrás de um caixote do lixo, não imaginava o impacto avassalador que esse acontecimento iria ter na sua vida. Tinha 22 anos, era uma recém-licenciada que trabalhava no seu primeiro emprego, e vivia com os pais em Palo Alto, Califórnia. O ataque que sofreu, em pleno campus da Universidade de Stanford, poderia ter tido consequências mais graves se dois estudantes suecos não tivessem interrompido e imobilizado o agressor – Brock Turner, um estudante de 19 anos. Às primeiras horas da manhã, Chanel estava num hospital a ser submetida a exames por médicos da polícia, e Turner estava detido – embora saísse no dia seguinte, após pagar uma fiança de 150 mil dólares.

Após o ataque, a vida de Chanel dividiu-se em duas. Para a maioria dos seus amigos e familiares, continuava a ser Chanel, embora numa versão mais pálida da mulher que conheciam. No sistema jurídico, ela era agora Emily Doe, o pseudónimo da «vítima de agressão sexual de Brock Turner». Com o seu mundo a desabar, Chanel decidiu reclamar a sua vida e enfrentar um processo em tribunal, que lhe levou mais de um ano e meio da sua vida, durante o qual foi minuciosamente perscrutada com interrogatórios que pareciam destinados a julgá-la, em vez de se centrarem no perpetrador – cujas proezas enquanto nadador de competição foram usadas como atenuantes do crime que cometera.   A “DECLARAÇÃO DE IMPACTO” QUE MUDOU TUDO Mas neste julgamento houve algo inédito. Para fundamentar a decisão do juiz, a procuradoria-geral pediu a Chanel que escrevesse uma “declaração de impacto”, um documento em que expressasse o que pensou e sentiu durante o processo do tribunal. Para Chanel, esta foi uma oportunidade de ouro para se fazer ouvir, na primeira pessoa. Afinal, tinha-se licenciado em literatura, o que correspondeu basicamente, como declarou ao programa 60 Minutes, «a 4 anos a falar sobre os seus sentimentos e a ler sobre os sentimentos de outras pessoas». Além disso, nas suas veias corre o talento para a escrita (herdado da mãe escritora) e uma sensibilidade incomum para analisar sentimentos (legado do pai, psicoterapeuta), aliados à força que obtém de uma família realmente unida. Numa só noite, compilou as notas que foi tirando durante o julgamento numa narrativa na primeira pessoa, dirigida, diretamente ao seu atacante, na audição para a sentença deste.
Ao longo de 12 páginas, Miller contou, com uma precisão espantosa, a experiência de ser sexualmente agredida por um homem por quem o sistema legal tinha mais simpatia do que por ela, a sua vítima. Momento a momento, somos transportados para os pensamentos, diálogos e pessoas com que interagiu desde o crime. Reproduzimos, no final deste artigo, um excerto da declaração, para que perceba a força arrasadora das palavras de Milller

Turner foi considerado culpado por agressão sexual com intenção de violação, em junho de 2016, mas a sua pena foi apenas de 6 meses – ou 90 dias, com bom comportamento, porque uma pena mais longa poderia ter um «impacto severo nele». Como?!... O mundo de Chanel desabou. A justiça falhara-lhe. Então, decidiu autorizar o site BuzzFeed a divulgar a sua declaração, e o impacto foi estrondoso: o texto tornou-se viral e chegou, em alguns dias, a mais de 18 milhões de pessoas. Depois, foi lido em telejornais, no Congresso dos EUA e por pessoas nas redes sociais por todo o mundo. No dia seguinte à publicação, Chanel começou a receber cartas de vítimas que sentiram coragem para partilharem, pela primeira vez, as suas próprias experiências de agressão.
O que aconteceu a seguir foi ainda mais surpreendente. O testemunho de Miller inspirou alterações na lei da Califórnia, tornando obrigatória a prisão efetiva de pessoas condenadas de atacar uma pessoa inconsciente ou intoxicada, expandindo a definição de violação. E o juiz responsável pelo processo foi afastado do caso, uma medida muito rara. O poder da literatura tinha vencido o sistema. Capa do Audiolivro Know My Name, na edição em inglês A declaração de Chanel foi a semente de um livro brilhante, uma obra que transcende o livro de memórias e se afirma como literatura …. Três anos depois do seu testemunho viral, Chanel decidiu revelar o seu verdadeiro nome, e escreveu um livro de memórias com um título no imperativo (no original em inglês): Know My Name, traduzido para Este é o Meu Nome, na edição portuguesa. Nele, revela a sua profunda autoconsciência e capacidade de transportar o leitor para o seu mundo interior, articulando-o com as suas experiências externas. O livro de memórias detalha não só a agressão, mas também as difíceis consequências: o processo judicial invasivo, o escrutínio público e o custo emocional de navegar num sistema judicial que é frequentemente indiferente ao trauma dos sobreviventes. Não se centra nas mulheres como vítimas, mas sim no papel da vítima humana, seja de que género ou classe for. Coragem, sobrevivência e busca incessante de justiça foram os ímpetos que moveram Chanel Miller durante a sua recuperação, cuja complexidade quis descrever de forma realista. O livro venceu o National Book Critics Circle Award, entre outros, e tornou-se de imediato um bestseller do New York Times. Impressiona, e é ao mesmo tempo fortalecedor, ouvir também a versão em audiolivro desta obra, lido pela própria autora.

Como tínhamos dito no início deste artigo, Chanel é também ilustradora e conta que, enquanto escrevia Este é o Meu Nome, estava constantemente a desenhar como forma de deixar a sua mente respirar, de se lembrar que a vida é divertida e imaginativa. «Quando a sociedade nutre em vez de culpar, escrevem-se livros, faz-se arte e o mundo fica um pouco melhor por isso», disse. Esta é a animação que criou, como forma de apoio e luz de esperança dirigida a todas as vítimas:

I Am With You, de Chanel Miller EXCERTO DA “DECLARAÇÃO DE IMPACTO DE VÍTIMA”, DE CHANEL MILLER

«Não me conheces, mas estiveste dentro de mim, e é por isso que estamos aqui hoje.

A 17 de janeiro de 2015, passei uma noite tranquila de sábado em casa. O meu pai fez o jantar e eu sentei-me à mesa com a minha irmã mais nova, que estava de visita nesse fim de semana. Eu trabalhava a tempo inteiro e estava quase hora de me ir deitar. Tencionava ficar em casa sozinha, a ver televisão e a ler, enquanto ela ia a uma festa com as amigas. Depois, decidi que era a minha única noite com ela, não tinha nada melhor para fazer, por isso, porque não (…). Fiz caras palermas, baixei a guarda e bebi álcool demasiado depressa, sem ter em conta que a minha tolerância tinha diminuído significativamente desde a universidade.
A coisa seguinte de que me lembro é de estar numa maca, num corredor. Tinha sangue seco e ligaduras nas costas das mãos e no cotovelo. Pensei que talvez tivesse caído e estivesse num gabinete administrativo do campus. Estava muito calma e perguntava-me onde estaria a minha irmã. Um agente explicou-me que eu tinha sido agredida. Continuei calma, com a certeza de que ele estava a falar com a pessoa errada. Não conhecia ninguém naquela festa. Quando finalmente me deixaram ir à casa de banho, baixei as calças do hospital que me tinham dado, ia baixar as cuecas e não senti nada. Ainda me lembro da sensação das minhas mãos a tocarem na minha pele e a não agarrarem nada. Olhei para baixo e não havia nada. (…) Ainda não tenho palavras para aquela sensação. Para continuar a respirar, pensei que talvez os polícias tivessem usado uma tesoura para as cortar para servirem de prova.
Depois, senti agulhas de pinheiro a arranharem-me a nuca e comecei a arrancá-las do meu cabelo. Pensei que talvez as agulhas de pinheiro tivessem caído de uma árvore na minha cabeça. O meu cérebro estava as minhas entranhas a não colapsarem. Porque as minhas entranhas diziam: ajudem-me. (…) Pediram-me para assinar papéis que diziam «Vítima de violação» e pensei que tinha acontecido mesmo alguma coisa. Confiscaram-me a roupa e fiquei nua enquanto as enfermeiras apontavam com uma régua para várias escoriações do meu corpo e as fotografavam.
Após algumas horas disto, deixaram-me tomar um duche. Fiquei ali a examinar o meu corpo sob a corrente de água e decidi: não quero mais o meu corpo. Estava aterrorizada com ele, não sabia o que tinha estado nele, se tinha sido contaminado, quem lhe tinha tocado. Queria despir o meu corpo como se fosse um casaco e deixá-lo no hospital com tudo o resto.
Nessa manhã, tudo o que me disseram foi que tinha sido encontrada atrás de um contentor do lixo, potencialmente penetrada por um estranho, e que devia voltar a fazer o teste do VIH porque os resultados nem sempre aparecem imediatamente. Mas, por agora, devia ir para casa e voltar à minha vida normal. Imagina voltar ao mundo apenas com essa informação. Deram-me abraços enormes e eu saí do hospital para o parque de estacionamento com a camisola e as calças de fato de treino novas que me deram, pois só me tinham deixado ficar com o colar e os sapatos.
Um dia, estava no trabalho, a ver as notícias no meu telemóvel, e deparei-me com um artigo. Nele, li e soube, pela primeira vez, que tinha sido encontrada inconsciente, com o cabelo despenteado, um longo colar enrolado no pescoço, o sutiã arrancado do vestido, o vestido arrancado dos ombros e puxado acima da cintura, que estava nua até às botas, com as pernas abertas e que tinha sido penetrada por um objeto estranho por alguém que não reconheci. Foi assim que soube o que me tinha acontecido, sentado na minha secretária a ler as notícias no trabalho. Soube o que me tinha acontecido ao mesmo tempo que toda a gente no mundo soube o que me tinha acontecido. (…) Quando li sobre mim desta forma, disse: "Não posso ser eu, não posso ser eu". Não conseguia digerir nem aceitar nenhuma destas informações. Não conseguia imaginar a minha família a ter de ler isto na Internet. Continuei a ler. No parágrafo seguinte, li algo que nunca perdoarei; li que, segundo ele, eu tinha gostado. Eu tinha gostado. Mais uma vez, não tenho palavras para estes sentimentos.»

Know My Name

The Survivor Of The Stanford Sexual Assault Case Tells Her Story

by Chanel Miller

Property Description
ISBN: 9780241428290
Publisher: PENGUIN BOOKS LTD
Release Date: September of 2020
Language: English
Dimensions: 130 x 203 x 23 mm
Cover: Softcover
Pages: 384
Format: Book
Categories: Books in English > Fiction > Memories and Testimonies
Books in English > Others
EAN: 9780241428290

Leitura essencial

Margarida Paiva

Foi o primeiro livro de não ficção que li e não desapontou. Fiquei incrédula com as atitudes e dizeres de várias pessoas que cruzaram a vida de Chanel, de uma maneira ou de outra, indireta ou indiretamente, devido a um pequeno deslize de um ´´rapaz com um futuro tão promissor´´. Fiquei também espantada com a força e graciosidade com que ela conseguiu lidar com esta situação bizarra que se prolongou ridiculamente, pois eu, só de ler as suas palavras fiquei bastante frustrada e zangada. Não é um tema fácil, mas recomendo.

Favorito

Marta

Este foi sem dúvida um dos livros que mais me marcou nos últimos tempos. A escrita é incrível e a história, apesar de triste e dolorosa, é sem dúvida importante de ser contada. Ao longo deste livro, Chanel Miller conta-nos a sua história de vida tendo como ponto de partida o dia em que foi abusada sexualmente. O livro é um relato muito completo de como funciona o sistema judicial americano e explica porque é que muitas das pessoas que sofrem abusos optam por não ir a tribunal. A resiliência desta mulher é sem dúvida admirável e a forma como através deste livro ela consegue expressar tão bem todos os seus sentimentos ao longo desta longa batalha é simplesmente incrível. É sem dúvida uma leitura essencial.

ABOUT THE AUTHOR

Chanel Miller

Chanel Miller é escritora e artista, formada em Literatura pela Universidade da Califórnia. O seu livro de memórias, Este é o Meu Nome, foi bestseller do The New York Times e vencedor do National Book Critics Circle Award, do Dayton Literary Peace Prize, do Ridenhour Book Prize e do California Book Award. Foi também considerado o melhor livro do ano pela Time, The Washington Post, Chicago Tribune, NPR, People, entre outros. A autora foi distinguida como uma das Forbes 30 Under 30 e como uma das cem personalidades em ascensão da lista da revista Times.

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