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Dicionário de Proust

by João Pedro Vala
Book eBook
Publisher: Quetzal Editores, April of 2025 ‧
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«Esta leitura de Marcel Proust parte do pressuposto de que, apesar de a sua obra se debruçar sobre uma vasta gama de tópicos (aristocracia, homossexualidade, judaísmo, guerra, sadomasoquismo, tempo, etc.), não precisamos nem devemos analisar cada um deles de uma perspectiva diferente, mas antes encará-los como variações de um único tema: Marcel Proust. Assim, embora cada capítulo possa ser lido isoladamente, a leitura integral do livro (seja por que ordem for) oferece uma perspectiva ao mesmo tempo unificada e caleidoscópica da vida e obra do — é bom esclarecer isto ainda antes de passarem a porta — meu escritor favorito.

(…) Um livro que pudesse interessar a todas estas pessoas, permitindo a quem leu aprofundar a sua leitura e a quem nunca leu desejar fazê-lo e ficar com uma ideia mais ou menos clara da importância de Proust para a literatura e, mais importante, para o deciframento do enigma que é estarmos vivos.»
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«A universalidade encontra-se quando mergulhamos a fundo na interioridade de alguém»

Em vésperas da rentrée literária deste ano, as palavras de João Pedro Vala, vencedor da 1ª edição do Prémio WOOK Novos Autores com Campo Pequeno, têm um sabor especialmente fresco.
Nesta primavera, Vala lançou o Dicionário de Proust – «uma perspectiva ao mesmo tempo unificada e caleidoscópica da vida e obra deste vulto literário que é, também, o seu autor favorito. Com ele, aprendeu que «a universalidade se encontra quando mergulhamos a fundo na interioridade de alguém», e é isso que procura ao escrever.
Além dos grandes clássicos, entre as suas influências mais improváveis estão a maneira, «cómica e violenta», como a sua avó conta histórias e a forma como as pessoas conversam em cafés. Ao explorar a universalidade da literatura e a influência das suas próprias vivências, reflete, a partir de si próprio, sobre a sociedade atual e sobre como gosta de ser surpreendido pelas suas personagens porque, de facto, estas desobedecem-lhe. Para Vala, a literatura é uma forma de fugirmos da vida e, talvez por isso, use o humor «sempre como carro-vassoura, limpando a tragédia».
Esta é a transcrição da entrevista ao autor anteriormente publicada em vídeo aqui.

O que despertou em ti, aos 23 anos, a vontade de escrever?
Comecei a escrever mais por um fascínio pela literatura e por estar à procura de um sítio que fosse meu. Não era uma pulsão por criar, queria pertencer a esse mundo, de alguma forma. Estudar os grandes clássicos inibiu-te, de alguma forma, de te lançares na escrita?
Comecei a estudar literatura pelos grandes – Dante, Homero, Shakespeare e Proust, o meu autor favorito –, percebi que era muito difícil ser escritor, e esse sonho foi adormecendo. Mas quando me apercebi de que a ideia de termos de ser os melhores para fazermos o que nos dá gozo é um pouco absurda, tudo se tornou muito mais fácil. «A universalidade encontra-se quando mergulhamos a fundo na interioridade de alguém.» O que te fascina em Proust?
A devoção inegociável pela coisa que ele mais ama, que é a literatura, o compromisso de uma vida inteira com esse com esse animal misterioso, e a capacidade de, com uma elegância extraordinária, escrever frases que captam na perfeição quem eu sou, e isso é bizarro. Dou por mim, muitas vezes, a repeti-lo nos meus livros. É algo um pouco irritante (riso).

Sentes que encontraste a tua voz literária com o teu primeiro romance, Grande Turismo?
Não sei se tenho uma voz, acho que tenho muitas, neste exercício de encontrar uma voz verdadeira. As pessoas às vezes falam da literatura como um exercício de sinceridade e eu não acho que seja isso. Acho que tem a ver com uma verdade que é completamente insincera. A tua escrita incorpora a comédia de costumes?
Quando estou a escrever nunca tento criticar os outros ou fazer uma comédia de costumes no sentido de mostrar a vaidade humana. Todos os defeitos que eu encontro nas personagens do meu livro são defeitos que estão dentro de mim, e, portanto, podem [até] ser tentativas de ridicularizar os outros, mas só porque eu faço parte dos outros com quem gozo.
Quais são os escritores que mais te inspiram?
Quando falo do Proust há imensas coisas que se aplicam aos meus romances, mas tento abstrair-se disso. O Philip Roth e a Flannery O’Connor são uma influência muito clara na minha escrita. O Simão Lucas Pires, que é um grande amigo meu, foi-me influenciando não na parte da escrita, mas em tudo o resto.

Consegues assinalar três influências improváveis que moldaram a tua escrita?
As três influências mais improváveis serão: a maneira, cómica e e violenta, como a minha avó conta histórias, que eu tento reproduzir muitas vezes; a forma como as pessoas conversam em cafés – eu tenho-me imposto a obrigação de chegar 20 minutos antes aos sítios e ficar sentado só a ouvi-las a falar; e os posts no Facebook de pessoas indignadas e a falar de futebol (e eu incluo-me nessas pessoas), pela forma como parece haver uma divisão entre “burros” e “génios”, em que os “génios” normalmente somos nós e os “burros” todas as outras pessoas. Isso é muito interessante do ponto de vista literário.

& Receber o Prémio WOOK trouxe-te um sentimento de validação enquanto autor?
Eu fico contente por ter ganho o prémio, mas fico mais contente pela forma como falaram do livro, porque achei bonito o que disseram. Não considero que haja uma validação, porque a literatura é um sítio para derrotados, e eu acho que sou uma pessoa derrotada; não há nenhum nível de validação que venha de fora que vá satisfazer-me. Agarramo-nos muito às coisas boas que dizem de nós para nos sentirmos validados, ou ignoramos as críticas, ou o contrário. Eu escrevo porque gosto de escrever, e enquanto isso acontecer está tudo bem. «Em literatura, não há uma fórmula, um modelo, ninguém em quem nos possamos amparar, estamos sozinhos.» Qual foi a ideia inicial que te levou a escrever Campo Pequeno?
Muitas vezes o mais importante na literatura é descobrir a maneira como nos posicionamos em relação a uma história. O Grande Turismo era a história na primeira pessoa de alguém que se vê de fora, e eu quis fazer o contrário: contar uma história na terceira pessoa, mas como se a visse por dentro, como se aquelas personagens fossem simultaneamente diferentes de mim, tivessem outros nomes, mas fossem eu. A ideia de um casal que vai ter um filho parecia-me em certo sentido semelhante e diferente de escrever um livro. Depois, como uma intuição, quis saber mais sobre eles, fui-lhes fazendo perguntas, eles não me respondiam, e lá apareceu uma história.

O enredo destes livros nasceu de uma estrutura com o início e o fim já delineados?
Comecei a construir o início da história com um casal que descobre que vai ter um filho, a pensar sobre o que isso implica, a sentir-se completamente desamparado e, de repente, percebi como é que acabava. Em literatura, não há uma fórmula, um modelo, ninguém em quem nos possamos amparar, estamos sozinhos. A escrita é um exercício que está constantemente a ensinar-nos a nós próprios a desenvolvê-lo. Eu queria perceber como é que, sabendo o início e o fim, construía uma narrativa longa, qual a maneira lógica de chegar até àquele desfecho tão estranho a partir de um início tão trivial, e foi esse o esforço. Planeavas juntar tantas personagens à história?
Sou muito racional, exceto quando escrevo. Penso muito na história quando não estou a escrever, mas gosto de ser surpreendido e a ideia que começou a surgir foi: há duas personagens, a Laura e o Heitor, que estão a olhar para este ponto específico, e a certa altura começamos a ouvir as histórias do Heitor e este refere outra personagem; depois, quando esta conta a história, o centro é outro ponto ao lado, então vamos desviar atenção para lá. E, deste modo, foram aparecendo muitas personagens.

Em Campo Pequeno, é o criador que se transforma em personagem, ou são estas que se tornam reais para ele?
Nós estamos sempre presos na nossa perspetiva e há pessoas que acham que vivemos numa espécie de matrix, o que tem um fundo da realidade. Não há nenhuma maneira concreta de sabermos se existe outra coisa que não nós mesmos. As personagens, nesse sentido, ganham uma vida tão grande como nós. Por outro lado, por vezes também nos sentimos irreais, e não sei se eu estou dentro ou fora do livro, assim como as personagens… Essa confusão pode ser enlouquecedora.

A tua literatura reflete a realidade que conheces?
As histórias partem sempre da minha vida, embora eu tente retirar quase todos os elementos que sejam biográficos. Certas coisas que me inspiraram são transformadas de tal maneira que já ninguém as reconheceria. Há este lado de sátira, mas é uma sátira da Vida com maiúscula, de acharmos que sabemos coisas e a vida insistir subtilmente em negá-las, não nos retirando a convicção de que estamos certos.

Deixas que as tuas personagens te surpreendam?
Quando as personagens desobedecem aos narradores, as histórias são muito mais credíveis. Aliás, uma das personagens deste livro chama-se Tomé e a história do Tomé da Bíblia é precisamente alguém que insiste em tocar na carne de uma outra figura para ver se ela é mesmo real. Eu quero que as minhas personagens façam sempre isso, que digam «tudo bem, escritor, estás a dizer-me que eu tenho de ir por aí, mas deixa-me tocar nas chagas», para dar uma certa realidade, porque de facto elas desobedecem, embora eu tente ter um plano para elas. A literatura é uma reprodução do que acontece lá fora, que é querermos que a vida nos obedeça, e ela desobedece-nos. Tentamos que seja uma cura de uma doença, mas é um sintoma de uma loucura.

É difícil conseguir um equilíbrio entre humor, ironia e tragédia?
É difícil eu sentir-me satisfeito em geral, mas o humor vem sempre como carro-vassoura da tragédia no meu livro, tentando banalizá-la, mas aumentando o desconforto. É um sinal de que estou a precisar de me rir para não chorar. São equilíbrios sempre ténues.

O vazio existencial sentido por várias personagens de Campo Pequeno é um retrato dos nossos dias?
Pode ser, mas incomodam-me escritores que dizem querer ser a voz de uma geração, ou que captam algum tempo específico. Tudo o que a literatura faz é apontar para coisas que estão cá desde sempre. Não acho que o telefone, o Instagram ou o que quer que seja, tenham vindo a mudar algo no que somos. Talvez capte o nosso tempo, mas em coisas que já existiam antes, e se captam o nosso tempo e se descrevem bem um uma certa sociedade é só porque eu sou fruto dessa sociedade e estou a tentar descrever-me a mim mesmo. Proust refere que a universalidade se encontra quando mergulhamos a fundo na interioridade de alguém. Se existe alguma universalidade no livro é completamente involuntária e surge só de um mergulho em profundidade e não de um salto em altura.

Por que dizes no livro que gostas mais da Mafalda do que de outras personagens?
A Mafalda tem uma maneira de estar na vida que é radicalmente diferente da minha, pois é está constantemente a sentir coisas e eu gostava de sentir. Gosto muito dela porque todas as personagens do livro são mais ou menos reproduções de mim próprio, de coisas que vejo em mim de que gosto ou não e a Mafalda, não, é o outro por excelência. Ela fura esse muro que existe entre mim e o que não consigo compreender, e é para mim o que o Gabriel e o cão do pai da Laura (o Francisco) são para este: seres muito diferentes, mas que aos quais ele se afeiçoa precisamente por isso, e que o deixam comovido, contra a sua vontade.

A forma como o Francisco vai deixando as pessoas entrarem no seu mundo reflete a evolução da sociedade portuguesa?
Completamente, acabo por retratar a sociedade porque sou fruto dessas contradições. O título do livro, Campo Pequeno, vem desta ideia de haver um centro na cidade onde as pessoas vão assistir a uma tourada, ou protestar contra touradas, fazem as compras de Natal, assistem a um concerto de uma banda famosa, … É este polo onde tantas tensões e maneiras diferentes de viver a cidade se cruzam. O Francisco é fruto dessa dessas contradições todas, de se agarrar muito a uma ideia que tem dele próprio, mas que depois é constantemente furada pelo amor aos outros, e ainda bem.

Como conseguiste entrar na cabeça do bebé Tomé?
Quando estava a escrever o livro, e fascinava-me olhar para o meu sobrinho bebé e imaginar como ele estaria a ver o mundo. O exercício da literatura é olhar para pessoas e corpos estranhos e pensar como seria estar “dentro” deles, e isso está-se a perder. Parece-me que nós, enquanto sociedade, achamos que se uma pessoa se comportou de determinada forma, não merece ter subjetividade, nem ser entendida, mas antes repudiada.

Sabias qual era a personagem que iria entrar em catarse no final do romance?
É como um sismo e as réplicas: há uma grande explosão e depois tudo à volta começa a explodir aos poucos. Eu sabia que ia haver esse momento final, mas não sabia era que ia acontecer daquela forma.

Dicionário de Proust

by João Pedro Vala

Property Description
ISBN: 9789895820580
Publisher: Quetzal Editores
Release Date: April of 2025
Language: Portuguese
Dimensions: 150 x 238 x 19 mm
Cover: Softcover
Pages: 280
Format: Book
Categories: Books in Portuguese > Fiction > Essays
EAN: 9789895820580
Recommended Minimum Age: Not applicable

ABOUT THE AUTHOR

João Pedro Vala

João Pedro Vala nasceu em Lisboa, em 1990. É licenciado em Gestão e doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade de Lisboa, com uma tese sobre Marcel Proust na Universidade de Chicago. Grande Turismo (2022), finalista do Prémio Fundação Eça de Queirós, é o seu romance de estreia, a que se seguiu Campo Pequeno. Foi o primeiro distinguido, em 2025, com o Prémio Wook, por esse último romance. Em 2026, tornou-se o primeiro autor português a vencer o Prémio PEN/O. Henry, nos Estados Unidos da América. O conto «Inês» é o primeiro capítulo do livro Grande Turismo e foi lançado como conto em inglês na revista The Common, em 2025.

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