Deus o Abençoe, Dr. Kevorkian

by Kurt Vonnegut
Publisher: Narrativa, November of 2022 ‧
A ideia de vida após a morte abandonou a mente de Kurt Vonnegut. Em Deus o Abençoe, Dr. Kevorkian, o autor transita entre a vida e a vida após a morte como se a diferença entre os dois conceitos fosse mínima. Em trinta entrevistas estranhas, Vonnegut viaja pelo «túnel azul até aos portões adornados com pérolas» encarnado como repórter para uma rádio estatal, e conduz entrevistas com: Salvatore Biagini, um construtor civil reformado que morre de ataque cardíaco enquanto salvava o seu schnauzer dos dentes de um pit bull; John Brown, 140 anos após a sua morte por enforcamento; William Shakespeare, que é sarcástico para com Vonnegut da forma errada; e o socialista e líder dos trabalhistas Eugene Victor Debs, um dos heróis de Vonnegut, entre muitos outros, tais como Mary Shelley, Isaac Newton, Adolf Hitler e Isaac Asimov.

O que começou como uma série de interlúdios de noventa segundos de rádio para a WNYC, a estação de rádio pública de Nova Iorque, evoluiu para esta colecção provocadora de reflexões sobre para quem e para que vivemos, e o quanto isso é importante no fim da vida.
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Os livros mais roubados

Lembro-me de, em adolescente, contestar a segurança de uma biblioteca. No meu entender, era demasiado fácil entrar lá na calada da noite e roubar livros. A amiga com quem falava olhou-me como se me faltasse um parafuso: “Quem raio é que haveria de querer roubar livros?” Ora, pelos vistos não sou a única a quem o crime passa pela cabeça. Eis os livros mais roubados das livrarias em todo o mundo.

Pela estrada fora, de Jack Kerouac É pegar nele e dizer, como o meu avô dizia, “Pernas, para que te quero?” E então correr pela estrada fora, tal como o autor. Quem rouba o livro terá muito em comum com Kerouac. Afinal, também ele estava longe de ser bem-comportadinho. Lembro-me de o ler na biblioteca de Vizela, ainda em adolescente. Mesmo sem ser Kerouac no mau comportamento, fui-o porque o li, e lá segui com ele a ver os Estados Unidos com as texturas, os cheiros, as temperaturas e tudo o mais que o papel com palavras dá. O movimento era rápido, e a minha leitura também. Posso ter ficado sentada a ler, mas também andei pelas estradas com um novo amigo no bolso. Quem se meter a lê-lo tem de saber ao que vai: ao cerne do coração da geração beat, um grupo de norte-americanos que fizeram o seu caminho entre o fim da década de 1950 e o início da década de 1960. Dela fazem ainda parte Ginsberg e Burroughs, que com Kerouac compõem o trio mais proeminente. Marcava-os a procura de experiências hedonistas aliada a um certo enquadramento filosófico, e era isso que levavam para a escrita. Pela estrada fora é o livro mais lido deste grupo, dando ao leitor uma intimidade tal com as personagens que até parece que se viaja com elas também. Não há propriamente um enredo a direito, antes Dean Moriaty a encaminhar Sal, alter-ego de Kerouac, pelas estradas dos Estados Unidos. Lá vão eles de tronco nu no carro, lá vai o leitor a sentir também o vento. Também a prosa e a vida vão tendo aqueles laivos de coisa que acontece quase sem querer. QUERO LER! »









Em busca do carneiro selvagem, de Murakami Murakami já vendeu tanto que meia dúzia de furtos não lhe vão fazer diferença. O mesmo não se poderá dizer dos desgraçados dos livreiros que veem os livros fugir sem que lhes entre nada na caixa. Aqui, temos o universo do costume em Murakami, em larga escala fantástico, o que não será fantástico para quem não gosta do fantástico. Perdoem-se as repetições. No livro, há um rapaz que, aos 29 anos, vê a vida a dar um mortal para trás. A vida tranquila passou a ser outra coisa, e ele aflige-se com o pedido de divórcio da mulher. Ora, o mortal para trás vira-se para a frente, a vida continua, e ele lá dá por si a ter um caso com uma rapariga de orelhas fascinantes. Quem nunca se apaixonou por umas orelhas que atire a primeira pedra. Não é à toa que tanta gente acha graça ao Dumbo. Ora, o apaixonado, que fica totalmente maluco com aquelas orelhas (são mais de cem páginas de obsessão!), vê-se envolvido na ação que dá o mote ao livro: alguém quer que ele encontre um carneiro, e ainda por cima sobrenatural, capaz de entrar nas pessoas e de as comandar. A mim é que não apanhavam nessa, mas quem lê lá segue a ver no que é que aquilo dá... QUERO LER! » Mulheres, de Charles Bukowski Se o anterior não era santo nenhum, que dizer deste? Mulheres é um relato semiautobiográfico, e ali estão as noites de Bukowski, metido no seu vício de tabaco, de álcool, de mulheres, tudo em catadupa como se fossem uma só coisa, tudo uma mescla a entorpecer-lhe a cabeça. Bukowski é cru, e provavelmente não levaria a mal ser roubado seja por quem for. E, se levasse, paciência. Há muito mais, pelo mundo fora, quem leve a mal as coisas que Bukowski escreveu e fez, tão longe estava de, sei lá, respeitar as desgraçadas que lhe passavam pelo caminho. O livro, ainda assim, lê-se numa fúria, num ritmo viciado, viciante. QUERO LER! » Deus o Abençoe, Dr. Kevorkian, de Kurt Vonnegut Vale a pena cometer um crime para ler Kurt Vonnegut. Neste livro, parece que viver e viver depois da morte são quase a mesma coisa – parece que tem um pé na cova e outro no jardim que cerca os túmulos. Vonnegut faz trinta entrevistas bizarras a um leque de personagens fascinantes, em parte por estarem mortas. Ora, esse leque inclui de tudo: um homem que lhe fala 140 anos após ter perdido a cabeça (literalmente, na forca); outro chamado Shakespeare, que os leitores talvez conheçam, e que teve a desfaçatez de ser sarcástico com Kurt; Mary Shelley, que inventou o monstro de Frankenstein; Isaac Newton, que desvendou as verdades do mundo e talvez tenha algo a dizer sobre elas; Hitler, que não fez nada de bom e até falou demais enquanto era vivo; e por aí fora. É ler para ver as possibilidades que a morte tira e a literatura dá. E o território é literário: a morte termina tudo, mas a criatividade continua. Assim, Vonnegut fez de um ponto final uma vírgula indiferente num inesquecível exercício, através do qual conseguiu fazer o que toda a gente quer: dar uma palavrinha aos mortos. QUERO LER! »

Deus o Abençoe, Dr. Kevorkian

by Kurt Vonnegut

Property Description
ISBN: 9789898933416
Publisher: Narrativa
Release Date: November of 2022
Language: Portuguese, Português
Dimensions: 129 x 203 x 8 mm
Cover: Softcover
Pages: 100
Format: Book
Categories: Books in Portuguese > Fiction > Story
EAN: 9789898933416

ABOUT THE AUTHOR

Kurt Vonnegut

Kurt Vonnegut (1922-2007) nasceu em Indianápolis, nos Estados Unidos, descendendo de emigrantes alemães que chegaram ao país no século XIX.
Por influência do pai, estudou Bioquímica na Universidade de Cornell, embora tivesse mais interesse nas Humanidades. Alistou-se no Exército em 1943.
Pouco depois do suicídio da mãe, foi enviado para a Europa, combatendo na Batalha das Ardenas.
O seu esquadrão acabou por ser dizimado pelas forças alemãs. Como prisioneiro de guerra, seguiu para Dresden, na Alemanha, onde viveu num matadouro e trabalhou numa fábrica alimentar.
Em 1952 publicou Player piano, o seu romance de estreia.
A crítica sentiu-se desconcertada, desde o começo, perante um escritor que não encaixava nos géneros mais canónicos nem nos estilos mais em voga.

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