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Consentimento

by Vanessa Springora
Book eBook
Publisher: Alfaguara Portugal, September of 2020 ‧
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Paris, meados da década de 80: a jovem V. procura nas páginas dos livros algo que preencha o vazio de afecto deixado pelo divórcio dos pais. Com treze anos, num jantar, conhece G., escritor, figura da elite intelectual parisiense, semblante de monge budista e «olhos de um azul sobrenatural». Desconhece a reputação sulfurosa de que o escritor de cinquenta anos goza e desde o primeiro olhar é conquistada pelo magnetismo daquele homem, pelos olhares que lhe dedica. Depois de um meticuloso cortejo de algumas semanas, V.entrega-se a G. de corpo e alma.

O idílio amoroso chega ao fim quando V. percebe, com uma terrível desilusão, que G. coleciona relações com adolescentes e que faz das sucessivas conquistas a matéria-prima da sua obra literária. Debaixo da aparência melíflua de homem de letras esconde-se um perigoso predador, enfeitiçado pela juventude das suas vítimas, encoberto por uma sociedade complacente.

Mais de trinta anos volvidos sobre os factos, Vanessa Springora narra, de forma lúcida e fulgurante, esta história de amor e perversão. Uma história individual - a sua história com o escritor Gabriel Matzneff - que espelha tantas outras e que expõe as derivas de uma época deslumbrada pelo talento e pela celebridade. Corajoso e comovente, este romance autobiográfico incendiou o meio literário francês e reacendeu o debate sobre o consentimento um pouco por todo o mundo.

«Depois de três décadas de arrependimentos, adicções, bloqueios, depressões, Vanessa Springora, hoje editora, decide escrever Consentimento, testemunho sóbrio mas directo que se propõe “apanhar o caçador na sua própria armadilha, prendê-lo num livro”.»
Pedro Mexia, Expresso

«Um testemunho lúcido e arrepiante, [...] um livro corajoso e poderoso.»
Léonard Billot, Les Inrockuptibles

«Uma escrita simples, precisa e sábia, uma linguagem clássica, luminosa e precisa. Elegante e implacável. [...] Um livro maior.»
Marie-Dominique Lelièvre, Le Nouveau Magazine Littéraire

«Um livro que é como um farol, que não para de lançar a sua deslumbrante luz.»
Télérama

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Corpos que escrevem

Escrever sobre o corpo é entrar num território movediço. O corpo é linguagem antes da linguagem: dor, desejo, vergonha, memória, tudo isto pulsa como uma gramática anterior às palavras. A literatura que se escreve a partir do corpo, e, sobretudo, do corpo que foi violentado, atravessado, transformado, não é apenas uma literatura do testemunho. É literatura que resiste, que reinventa a forma, que desconstrói o olhar. O corpo torna-se texto e testemunho: veículo de denúncia, de desejo e de transformação. Aqui estão quatro livros que pensam o corpo como campo de batalha e reinvenção.
Cada um à sua maneira (entre o fantástico e o autobiográfico, entre o manifesto e o romance intimista) evidencia como a escrita pode dar voz ao corpo e reclamar narrativas para aquilo que antes era calado ou marginalizado. O Corpo Dela e Outras Partes, de Carmen Maria Machado Carmen Maria Machado, na coletânea O Corpo Dela e Outras Partes, faz do corpo feminino o eixo de uma prosa que é ao mesmo tempo sombria, erótica e estranhamente luminosa. Ao longo de oito contos, a autora expõe tiranias sobre o corpo da mulher como fio condutor de histórias macabras e metafóricas. Sob uma escrita afiada, Machado mistura elementos de horror, fantasia e cultura pop para dissecar as pressões e violências sofridas pelas mulheres. Não por acaso, os seus cenários vão de vírus apocalípticos a reality shows sobrenaturais, refletindo cenários inusitados onde o fantástico amplia verdades cruas sobre género e poder.
Neste livro de contos, o corpo feminino é centro e enigma. Carmen Maria Machado escreve com um estilo que mistura horror gótico, realismo mágico, crítica social e erotismo, sempre com uma tensão latente entre o visível e o que se quer ocultar. O corpo aparece como arquivo: dos abusos, dos desejos, das expectativas sociais, mas também como máquina de invenção. Há um conto em que uma mulher começa a perder partes do corpo, uma a uma. Há outro em que uma epidemia se espalha pelo toque. A violência é tantas vezes estrutural que se torna quase invisível. Machado devolve-lhe contorno, linguagem, ritmo. Em vez de personagens, temos corpos cortados, desaparecidos, desejantes, mutantes, que nos devolvem uma realidade filtrada pelo absurdo. O corpo, em Machado, é sempre excesso: de linguagem, de medo, de desejo.
Um dos contos mais emblemáticos, O Ponto do Marido, reinventa uma fábula urbana para abordar a autonomia corporal e a violência de género. Nele, a protagonista usa permanentemente uma fita verde atada ao pescoço e adverte: ninguém deve tocá-la, nem mesmo o marido. Essa pequena proibição desencadeia a obsessão e a ira masculinas: «Porque é que queres esconder isso de mim?», confronta o marido, ao que ela responde: «Não estou a esconder nada. Só que não é teu». A fita torna-se símbolo do limite inviolável do eu, um lembrete de que nem mesmo dentro do casamento o corpo deixa de ser território próprio. O desfecho trágico do conto, com a violação desse limite que leva a consequências funestas, evidencia de forma visceral o custo da dominação masculina sobre o corpo feminino.
Esta é uma literatura de contornos góticos e feministas, que transforma dores íntimas em alegorias universais. COMPRO NA WOOK! » Consentimento, de Vanessa Springora Num gesto de reposição simbólica, Vanessa Springora escreve contra a narrativa que outros escreveram sobre o seu corpo. Aos 14 anos, foi manipulada e abusada por um escritor consagrado, protegido por uma cultura literária que romantizava a pedofilia sob o pretexto da liberdade artística. Este livro não é apenas um testemunho, é uma reconfiguração da linguagem: de vítima silenciosa a autora da própria história. A escrita de Consentimento é seca, precisa, dolorosamente lúcida. A grande violência, aqui, é também narrativa: quem conta a história controla o corpo do outro. Springora recusa esse controlo. Escreve. Reivindica. Desfaz a gramática do abuso.
Aqui, o corpo é o lugar da violação e da disputa narrativa. O livro de Springora é mais do que uma autobiografia: é um gesto político. Ela recupera, com precisão e contenção, a história da sua relação, ou melhor, do abuso, com um escritor francês influente, quando ainda era menor. A força deste livro está em mostrar como a violência não é apenas física, mas simbólica, linguística, social. O predador escreve antes da vítima, define os termos, conquista a empatia pública. Springora escreve para desfazer essa lógica: devolve o corpo à sua própria história. E com isso, abre espaço para outras vozes silenciadas. COMPRO NA WOOK! » De Quatro, de Miranda Jully No romance De Quatro, Miranda July faz da meia-idade feminina o palco de uma narrativa corajosa sobre desejo, transformação e cuidado. Com graça e ausência de pudor, July insere a menopausa, e a fase turbulenta que a antecede, a perimenopausa, como questão central, mostrando que este período pode ser uma experiência eroticamente rica. A protagonista, uma mulher de 45 anos, vê-se à beira de uma metamorfose identitária: quem é ela, agora que o seu corpo começa a mudar e os papéis de mulher e mãe já não a definem por completo?
Decidida a reivindicar liberdade, ela elabora um plano audacioso de atravessar os Estados Unidos de carro, sozinha: um gesto de independência para provar (a si e ao marido) que ainda conduz a própria vida.
Curiosamente, esta jornada física descarrila logo ao início: a poucos quilómetros de casa, ela estaciona num motel modesto e fica ali durante dias, performando uma fuga simbólica sem realmente se distanciar de casa. Esta escolha inusitada – redecorar luxuosamente um quarto qualquer, tão perto da rotina com que ela tentava romper – já sinaliza que a verdadeira viagem será interior. De Quatro reinventa, desta forma, o velho “romance de formação”: em vez de uma jovem a descobrir o mundo, acompanhamos uma mulher madura a redescobrir em quem ainda se pode tornar. E a reinvenção não segue caminhos óbvios. Pelo contrário, a maternidade permanece uma âncora terna, e o próprio casamento é tratado com nuance (afinal, como ela admite, «o divórcio... é uma ideia tão conservadora quanto o casamento»). Assim, longe de simplificações, July explora a tensão entre desejo individual e laços afetivos, entre a vontade de mudança e o conforto (ou prisão) das estruturas familiares.
O corpo em transição é o grande protagonista do romance. July aborda a perimenopausa com franqueza e humor. A protagonista sente no corpo os solavancos hormonais: ondas de calor, flutuações de humor, a ameaça da libido em declínio. Até que um encontro fortuito adiciona combustível ao seu renascimento: ela conhece um homem mais jovem, um dançarino amador, e uma atração fulminante irrompe entre dois. Curiosamente, por imposição dele (também casado), eles estabelecem limites estritos: nada de beijos ou sexo convencional, apenas abraços e toques. Esta contenção parece intensificar, em vez de diminuir, a chama que nela desperta. A narradora experimenta «o prazer furioso de desejar um corpo real e específico» pela primeira vez em muito tempo. Ela teme, por um lado, que este seja o seu “último suspiro” de volúpia antes que a menopausa chegue de vez e apague o seu fogo. Por outro lado, justamente quando se permite sentir esse desejo (mesmo sem o consumar totalmente), ela tem acesso a uma nova vitalidade. De Quatro trata o estímulo sexual como combustível, capaz de catalisar transformações. O corpo, antes fonte de insegurança e envelhecimento, revela-se também fonte de conhecimento e poder criativo.
As memórias intercaladas do livro ampliam o romance para além da experiência individual: revelam como a sociedade historicamente empurrou mulheres maduras para o silêncio ou desesperança, por incapacidade de imaginá-las desejantes e plenas. De Quatro recusa essa invisibilidade: pelo contrário, faz da menopausa um tema literário incontornável e prova que há vida após os 45. Com linguagem ágil, sarcástica e ternamente estranha (marca registada de July), o romance normaliza os tabus do corpo maduro ao mesmo tempo que desafia o leitor com situações inusitadas.
O livro celebra a liberdade feminina de se reinventar mesmo quando o mundo espera resignação; celebra a sexualidade que persiste (e até floresce) na perimenopausa; e aborda com honestidade o cuidado, de si e dos outros, necessário para atravessar as metamorfoses da meia-idade. COMPRO NA WOOK! » Eu Sou O Monstro Que Vos Fala, de Paul B. Preciado Este texto, inicialmente concebido como conferência para o colégio de psicanálise fundado por Lacan, é uma verdadeira performance filosófico-política. Faz sentido, por isso, propor a leitura no formato audiolivro – que pode ouvir em espanhol, na língua original em que o texto foi escrito.
Preciado recusa o lugar de paciente e assume o microfone como “monstro” pós-foucaultiano, trans, queer, dissidente. O corpo, para Preciado, é território de construção política, biotecnológica, farmacológica. Mas também é linguagem que explode as normas, que ridiculariza as autoridades, que inventa novos modos de estar. A escrita aqui é um grito lúcido, entre a filosofia e o manifesto, o testemunho e a ironia. «Sou o vosso futuro», escreve. «E estou a falar convosco».
Assume a voz do “monstro”, aquele que escapa às categorias do saber, para falar da transição de género, da medicalização dos corpos, das tecnologias de poder que moldam a identidade. Ao reivindicar a posição de “monstruoso igual”, Preciado desmonta a autoridade daqueles que rotulam e convida a uma nova epistemologia do corpo: uma em que a transição, a fluidez e o híbrido deixem de ser temidos como anomalia e passem a ser entendidos como parte legítima e luminosa da experiência humana. COMPRO NA WOOK! »

Consentimento

by Vanessa Springora

Property Description
ISBN: 9789897840494
Publisher: Alfaguara Portugal
Release Date: September of 2020
Language: Portuguese
Dimensions: 150 x 235 x 12 mm
Cover: Softcover
Pages: 184
Format: Book
Categories: Books in Portuguese > Fiction > Romance
EAN: 9789897840494

Leitura Poderosa!

AR

Esta obra autobiográfica, extremamente bem escrita, é um pequeno "murro no estômago" sobre a temática do abuso, manipulação e consentimento. Um livro forte, real e com uma mensagem poderosa, uma leitura "obrigatória".

Um pequeno grande livro

Carla M.

Um livro que pode ser considerado uma biografia, com um relato cru do que se passa, não só, mas também, no meio do brilho e da fama. Uma história de vida e de amor, passada na França dos anos 80, onde temos predadores, vítimas, famílias desestruturadas e marcas que ficam para a vida toda. Um livro pequeno e muito bem escrito.

(Des)consentimento

AllbyMyShelves

Vanessa Spingora relata de uma forma simples, mas absolutamente dilacerante, a experiência de abuso que viveu nas mãos de um conceituado escritor francês, expondo ainda uma mãe negligente, um pai ausente, mas sobretudo uma elite que tinha perfeita consciência de estar perante um pedófilo (que orgulhosamente expunha na sua escrita os seus crimes, "embelezando-os")e que escolhe demitir-se da sua obrigação de travá-lo, optando antes por o laurear com toda a honra e prestígio. Com uma abordagem tremendamente crua mas revestida de uma imensa coragem e honestidade, Vanessa Spingora confia ao seu leitor a evolução e declínio desta relação abusiva, mas também todo um processo de autoanálise da sua vida cuja plenitude, em resultado de uma juventude vilipendiada, está brutalmente comprometida. Um livro que se lê num instante, mas que dificilmente abandona o pensamento de quem o lê. Só posso recomendar.

Intrigante e desconfortável

Fernanda

De leitura fácil, apenas pela forma como a história (verídica) é contada. Foi dificil ler este livro, na medida em que muitas vezes me coloquei no lugar da autora. Senti muita revolta e emocionei me bastante. Recomendo!

Intenso e perturbador

Rui

Há já algum tempo que não "devorava" assim um livro. A escrita é aparentemente fácil, mas, na verdade uma excelente prosa, não fosse o tema, seria bonita. O livro capta a nossa atenção como uma teia que nos prende, ao mesmo tempo que nos incomoda profundamente, emociona e causa revolta. Espero que VS escreva muitos mais livros, a consegui-lo, com um nível semelhante a este.

Um livro que deixa marcas.

Cláudia Moreira

É um livro muito bem escrito, com uma linguagem muito franca, sem subterfúgios, sem espaço para outras intenções que não a que a autora pretende passar. É cruel ler que há 40 anos a pedofilia era um crime de segunda linha onde a própria família olhava para o lado e aceitava. O sofrimento e a raiva da autora são sentidos por quem a lê. É um livro que pode ensinar quem tem e quem vem a ter filhos daquela idade e todos os perigos que a adolescência pode trazer.

Muito bom

Ana

É um livro profundo. Trata um tema difícil. Mas está bem escrito. Adorei a escrita da autora e fiquei com vontade de ler mais livros dela. É uma leitura que recomendo

Relato imperdível!

Ana_TudoSobLinhas

Um livro de não ficção que visa o debate e a demonstrarmos a nossa opinião pessoal sobre esta temática. Este é um relato da própria autora que teima em demonstrar o seu "Consentimento" em tenra idade. Mas será que a pedofilia tem de ter a "aprovação" da criança/adolescente em questão? Uma leitura que não podem perder!

Cru e direto

luciabooksnstuff

É um relato contado em primeira pessoa que nos prende desde o início. Não é apto para toda a gente, mas é importante que esta obra chegue ao maior número de pessoas possível.

Doloroso

Sónia

Vale muito pela escrita e tradução muito bem conseguidas. O conteúdo em si é muito doloroso, principalmente pelos efeitos nefastos que G. causou a Vanessa e pela impassividade daquela mãe! Em 1985 não havia comissão de menores em França??

Um livro urgente

O Aroma dos Livros

Com 13, 14, 15 anos é fácil ceder a uma tentação imersa em atenção, palavras bonitas e atos encantadores, ainda para mais em circunstâncias duras de um passado solitário. Claramente que nós, adultos, temos o dever de denunciar este tipo de relações e fazer ver as estas vítimas que o amor não é assim. Que o amor não acontece entre uma criança de 13 anos e um homem de 50 anos. Que com 13 anos a descoberta do sexo, do órgão sexual e atos preliminares é feita com alguém da nossa idade e não com um homem de 50 anos. Devemos dizer-lhes que se isso acontece algo está muito errado. O meu coração está pequeno e revoltado por ler uma realidade tão dura. Um livro com uma escrita simples, contudo sofisticada, e com uma tradução esplêndida de Tânia Ganho, este testemunho de 5 estrelas é urgente para colmatar as lacunas que persistem na mente humana. Mas que lacunas? As lacunas das mentes retrógradas, sujas e nauseabundas. Afinal, o que é o consentimento?

ABOUT THE AUTHOR

Vanessa Springora

Vanessa Springora (Paris, 1972) é editora, escritora e cineasta. Fez Mestrado em Literatura Moderna na Universidade de Sorbonne e licenciou-se em Cinema no Institut National Audiovisuel em Paris. antes de começar a trabalhar como assistente editorial na chancela literária Juillard, que dirige desde 2019.
Consentimento é o seu primeiro romance, com direitos vendidos para mais de 20 países. Venceu o Grande Prémio das Leitoras da revista Elle e o Prémio Jean-Jacques Rousseau de literatura autobiográfica, além de ter sido um fenómeno editorial e social, pela comoção que causou na sociedade francesa.

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