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Água Viva

by Clarice Lispector
Book eBook
Publisher: Companhia das Letras, January of 2025 ‧
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«Na minha noite idolatro o sentido secreto do mundo. Boca e língua. E um cavalo solto de uma força livre. Guardo-lhe o casco em amoroso fetichismo. Na minha funda noite sopra um louco vento que me traz fiapos de gritos. Estou sentindo o martírio de uma inoportuna sensualidade. De madrugada acordo cheia de frutos. Quem virá colher os frutos de minha vida?»

Revisitação de pontos centrais no universo literário de Clarice Lispector, Água viva é pura incandescência da inventividade e da linguagem. Uma enigmática voz feminina - toda audácia, delírio e sedução - conduz a narrativa. Esta mulher, cujo nome não sabemos, deseja mudar de ofício e tornar-se escritora. Ela é um eu que reivindica a ocupação de um espaço e de um tempo, que se dirige a um tu misterioso e que propõe o ousado alinhamento de humanos e bichos, natureza e linguagem, rumo ao centro da vida, que Clarice perseguiu em todas as suas obras.

Contestando limites e sem cedências à convenção, este livro inaugura um espaço partilhado entre quem escreve e quem lê: nesta mulher, na sua inquietação ou na sua letargia, nas suas fraturas ou nas suas pulsões, reconhecemos uma humanidade em estado bruto. O tom fragmentário é contrariado por uma cadência de demandas e reflexões tão profundamente individuais como peremptoriamente universais. Um livro desconcertante, que oferece uma hipótese de fusão entre escrita e leitura, forma e tema, corpo e pensamento: radicalmente inovador, ao suspender as fórmulas de representação romanesca, e irresistivelmente transgressor, na exposição das costuras da ficção e da voz lírica.

Água viva é um triunfo de Clarice Lispector, que aqui ensaia uma nova escrita de si e do mundo.

«Água viva é a fala tardia e nocturna, por vezes quase sonâmbula […] de uma pintora que deseja mudar de meio de expressão e procura assim dar conta, nesta noite ‘mais longa do que a vida’, do seu nascimento enquanto escritora […]. Mais do que assistir a este parto, é dado ao leitor participar nele e na descoberta do (i)mundo, com o susto de quem vê o informe tomar forma.»
Joana Matos Frias

«Em Água viva, espécie de longa missiva a um destinatário desconhecido, Clarice Lispector deixa o pensamento deambular sem freio, evocando a força do momento, a escrita, a pintura, ou a sua própria solidão. O resultado é um livro de singular vigor.»
Le Monde

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Água viva

A água é origem e ameaça, bálsamo e corte. Flui por dentro das casas e das frases, como se o texto fosse um estuário onde desaguam memórias e perdas. Há mares que dão família e mares que a desfazem, há chuvas que abrem clarões na terra, maresias que gravam no corpo a coragem de resistir, correntes que puxam a escrita para um território sem margens. Em cada um destes livros, a água organiza a memória e a experiência: ora é genealogia (o mar como origem e segredo), ora é limite e provação (o mar que raspa o supérfluo e deixa o essencial), ora é política (o regime dos ciclones, dos terramotos, das migrações), ora é pura forma (a prosa que corre, sem margens fixas). Os filhos do Mar Alto, de Virginia Tangvald O livro de estreia de Virginia Tangvald, publicado em Portugal em 2025, tem a energia híbrida do romance-investigação, da memória e do relato marítimo. A autora nascida no mar alto, a bordo de um veleiro construído pelo seu pai, o navegador Peter Tangvald , regressa a um passado atravessado por viagens, barcos e mortes em água aberta. O pai, figura lendária e controversa, teve sete casamentos; duas mulheres morreram em circunstâncias trágicas; ele próprio morreria em naufrágio, em 1991, perto de Bonaire.
A autora transforma a biografia fragmentada da família: veleiros, desaparecimentos, mitologias de liberdade e risco, numa investigação íntima sobre herança e desejo de ancoragem.
Tangvald trata o oceano como um depósito de indícios: histórias, cartas, recortes, rumores, em que se tenta reconhecer a própria origem. A busca mapeia, com honestidade, a ambivalência do fascínio marítimo: liberdade e risco, ascese e narcisismo, desprendimento e irresponsabilidade. É por isso que o livro abriga um duplo movimento: ancorar uma identidade (dar nome ao que nos fez) e desancorar-se do mito (dizer não à repetição do dano).
Há uma tensão ética que percorre a narrativa: entre a aventura e o dano, entre a sedução do oceano e a sua economia de perdas. A própria escrita, que convoca um cânone marítimo (de Defoe a Melville e Baricco), recusa o conforto do romance de formação: prefere a prosa que deixa entrar o rumor das fontes e a poeira salina das versões.
Os Filhos do Mar Alto encena aquilo a que Steve Mentz chama “modernidade de naufrágio”: uma perceção histórica e íntima construída no intervalo entre catástrofes e aterragens precárias. O mar, aqui é uma tecnologia de vida e de escrita: um modo de organizar o sentido quando a terra firme escasseia. COMPRO NA WOOK! » Náufragos, de Sophie Elmhirst Uma baleia, uma jangada, uma história de amor: diz o subtítulo da edição portuguesa. Elmhirst reconta a verdadeira história de Maurice e Maralyn Bailey, o casal britânico que, depois do seu veleiro Auralyn ter sido abalroado por uma baleia, derivou quase quatro meses no Pacífico até ser resgatado por um pesqueiro sul-coreano. Em vez do épico de bravura, a autora insiste no laboratório íntimo: os rituais miúdos (cozinhar, registar, remediar), a divisão do trabalho, o compasso entre esperança e exaustão, a maneira como duas pessoas inventam um tempo habitável onde só há vastidão.
O livro é menos um épico marítimo do que um retrato de dois corpos na mesma maré: o amor como uma técnica de sobrevivência, o mar como personagem sem rosto que testa cada gesto. Há baleias, silêncio, fome e um calendário inventado; sobretudo, há a prova de que a água despoja até sobrar o essencial.
Náufragos trabalha o intervalo entre documento e leitura, memória e figura, o que foi e o que a narração faz disso.
A autora desloca a aventura para a esfera do cuidado e do casal, que testa as fronteiras entre autonomia e interdependência. A coragem não é heroísmo performativo, mas manutenção atenta: costurar remos, racionar água, inventar calendário, cuidar do outro. O oceano, longe de ser apenas antagonista, torna-se parceiro hostil de uma coreografia: cada gota contada, cada gesto repetido. COMPRO NA WOOK! » À Espera da Subida das Águas, de Maryse Condé Este romance acompanha Babakar Traoré; médico solitário, maliano, a viver em Guadalupe; na sequência de um parto funesto que lhe deixa uma recém-nascida nos braços. A água (chuva, mar, ciclones) desenha a cartografia do livro: Guadalupe, Haiti, África Ocidental. No Haiti, o enredo cruza o país com o duplo regime do desastre natural: o furacão Hugo (1989) e o terramoto de 2010, e o desastre político, num tecido de violência, corrupção e desamparo.
O gesto de Condé é nítido: em vez de um destino biológico, propõe uma comunidade eletiva: uma família fundada na responsabilidade, não no sangue. O romance fratura a imagem turística das Caraíbas e pensa o arquipélago como forma: ilhas dispersas, travessias, pertenças múltiplas. A prosa, enxuta e incisiva, trabalha o que poderíamos chamar uma antiepopeia da amizade e do cuidado: homens e mulheres que, em vez de pátrias, encontram alianças. Num plano mais histórico, o livro conversa com o pós-colonial: migração, heranças autoritárias, racismo, a inércia das metrópoles.
Ler Condé hoje também é gesto de luto e de reconhecimento. A escritora guadalupense morreu em abril de 2024, aos 90 anos. À Espera da Subida das Águas concentra muito da sua ética: uma literatura que recusa o exotismo e investiga, sem alívio, as políticas do sofrimento e da esperança, num mundo de marés desiguais. COMPRO NA WOOK! » Água Viva, de Clarice Lispector Se nos livros anteriores a água é sobretudo exterior – mar, tempestade, enchente –, em Clarice é forma. Água viva desarma a sintaxe do romance: não há capítulos, nem enredo convencional; o texto corre num contínuo, um agora insistente dito por uma narradora-pintora que tenta “pintar com palavras” o instante que foge. A crítica chamou-lhe, com razão, “romance sem romance”. A voz dirige-se a um “tu” indeterminado, que pode ser amante, leitor, Deus, corpo.
Água viva é, desde a génese, um livro sem alicerces fixos.
Em termos poéticos, trata-se de um experimento de perceção. A linguagem avança por unidades respiratórias (parágrafos como pinceladas), por tato, por ouvido: escuta-se a frase. Não há tese, há ritmo. Há um constante diálogo com a intermedialidade (pintura/música) e com uma ontologia aquática do corpo. COMPRO NA WOOK! »

Água Viva

by Clarice Lispector

Property Description
ISBN: 9789895833320
Publisher: Companhia das Letras
Release Date: January of 2025
Language: Portuguese
Dimensions: 147 x 232 x 10 mm
Cover: Softcover
Pages: 112
Format: Book
Categories: Books in Portuguese > Fiction > Romance
EAN: 9789895833320

Obra-prima

Água Viva

Uma das melhores obras literárias escritas em português. Um tour de force de imaginação poética, uma pintura de palavras, uma viagem sensorial. Um livro que nunca se lê uma vez: lê-se tantas quantas a vontade de descobrir todos os seus reflexos luminosos nos exige. Um livro para ler, sublinhar, reler, abraçar. Maravilhoso.

Água Viva.

Martim Campos

Decerto, todos nós conhecemos aquela sensação... Angústia. Tentamos agarrar-nos ao ápice das nossas vidas e falhamos completamente. Ao vivermos tentamos compreender o que nos está a decorrer, todas as funções metabólicas. Porém só a morte as decifra. Transpondo isto para este maravilhoso livro, posso dizer que a personagem principal-pintora- tenta captar todo o instante. O instante já, que já não é este, nem este. Claro que, isto transmite uma certa sombria dúvida, sofrimento inócuo, que se transforma em maligno. Sendo multifacetada, a coita desta personagem revolve a angústia existencial e a perda.Perda esta amorosa. Sendo este livro uma carta, um fluxo de consciência. Revolvendo ainda mais a psíque da nossa pintora, vemos várias contradições, por exemplo o uso da conjução de palavras "tema atemático". Contudo, para além destas contradições vemos uma pessoa em puro estado de solidão, sem ninguem, tendo a sua pessoa amada perdido. Vemos alguém a flutuar em uma linha ténue entre o sano e o psicótico, uma desenfreada carta de amor com um pungente odor a desespero e a morte. Quem já sentiu a morte descreve este livro como lá estar. Estamos mal e mal vivos. Porquanto, e eu espero que seja para sempre, esta foi a obra que mais me marcou, que mais me moldou como eu sou hoje. Se pudesse dava-lhe todas as estrelas desta galáxia e outras.

Belíssima edição de uma obra dissonante

C. Moreira

Uma edição lindíssima, com muita atenção ao detalhe, de um livro marcante. Embora não seja uma obra para todos os gostos, Água Viva tem tanto se deslumbrante como de desconcertante. Numa viagem analítica e sensorial somos levados a conhecer o mundo interno de uma pintora que quer ser escritora. É um livro repleto de frases intensas e marcantes, muito interessante para quem gosta de refletir.

Um mergulho poético na existência

Sara

Água Viva é uma experiência literária única, onde Clarice Lispector transcende a narrativa tradicional e nos conduz por um fluxo de pensamentos, sensações e epifanias sobre o tempo, a arte e a própria existência. A escrita é quase hipnótica, repleta de frases que parecem tocar algo essencial e inominável dentro de nós. Mais do que uma história, este livro é um convite à contemplação, um mergulho profundo na subjetividade humana. Intenso, abstrato e profundamente sensorial, Água Viva não se explica – sente-se.

Não desilude

SLG

Este livro é a prova viva da genialidade duma autora que nos deixou obras que nos fazem refletir sobre os mais variados temas.

Fabuloso

Susana Fernandes

Comprei em pré-venda e a edição está lindissima. Cuidada e requintada. Li o livro em dois dias. Ler Clarice não é intelectualmente racional mas sente-se - é uma viagem, uma montanha russa de emoções, imagens e ideias que não saem da nossa cabeça mas Clarice escreve por nós como se tivesse acesso ao nosso inconsciente . Este livro é um diálogo interno colocado em papel onde a autora discorre sobre variados assuntos, impressões, momentos. Este livro é uma viagem por si mesmo. Recomendo a quem quer ficar submerso no mundo de Clarice. Já o quero ler de novo de tão bom que foi a minha experiência de leitura. Levarei este livro para a vida.

ABOUT THE AUTHOR

Clarice Lispector

A 10 de dezembro de 1920, nasce Clarice Lispector, que viria a tornar-se figura maior da literatura do século XX. Recebe, ao nascer numa aldeia da Ucrânia, o nome «Haia», que em hebraico significa «vida». No contexto de guerra civil e das perseguições à comunidade judaica — os pogroms —, a família decide emigrar: em 1922, Clarice Lispector aporta no Nordeste do Brasil, acompanhada pelos pais e as duas irmãs. Mudam de nome, começam uma nova vida.
Em 1939, Clarice Lispector vai estudar Direito no Rio de Janeiro. No ano seguinte, começa a trabalhar como jornalista e publica, numa revista, o primeiro conto. Não mais para de escrever. Perto do coração selvagem, o romance de estreia, sai em 1943, ano em que a escritora se casa com um diplomata brasileiro, seu colega de faculdade. Dez anos mais tarde, este romance sai em França, com capa de Henri Matisse, inaugurando um percurso internacional fulgurante.
A partir de 1944, Clarice Lispector vive em Nápoles, Berna, Torquay e Washington, acompanhando o marido na carreira diplomática. Regressa ao Brasil em 1959, após o divórcio. Morre em 1977, no Rio de Janeiro.
Escritos ao longo de quase quatro décadas, de Clarice Lispector estão publicados no Brasil cerca de vinte livros de ficção (entre romance e conto), vários volumes de crónicas, correspondência e artigos, e cinco livros para a infância. Autora de uma obra de incomparável relevância – publicada em Portugal, a partir de 2025, pela Companhia das Letras – e acolhida nas mais prestigiadas editoras de todo o mundo, Clarice Lispector é um ícone da literatura.

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