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A Sonata de Kreutzer

by Lev Tolstói
Publisher: Relógio D'Água, October of 2007 ‧
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Literatura e ciúme: a paixão que inventa histórias

O ciúme é uma das paixões mais literárias porque raramente se contenta com o real. Ao contrário da dor, que se impõe, da alegria, que se expande, ou da saudade, que contempla uma ausência, o ciúme interpreta. Lê sinais, exagera pausas, transforma gestos banais em provas, faz da memória um tribunal e do olhar uma forma de vigilância. O ciumento sofre porque quer saber, possuir, decifrar, confirmar. A sua angústia nasce precisamente do intervalo entre aquilo que vê e aquilo que imagina. Por isso, o ciúme é uma máquina narrativa. Cria histórias onde talvez existam apenas lacunas. Produz suspeitas, monólogos, confissões, fantasmas. O ciúme é uma forma perversa de leitura. Lê-se o corpo do outro, o passado do outro, a vida secreta do outro. E quanto mais se lê, menos se sabe. A literatura, que também vive de ambiguidades, encontra nele um território privilegiado. O ciúme permite mostrar a sombra do amor e a degradação em posse; bem como o modo como a intimidade pode tornar-se violência.
Em Dom Casmurro, de Machado de Assis, A Sonata a Kreutzer, de Tolstói, Dias de Abandono, de Elena Ferrante, e Ciúme – A outra vida de Catherine M. , de Catherine Millet, esta paixão assume formas muito distintas. Em Machado, o ciúme é uma construção retórica, uma dúvida que se escreve a si mesma até parecer verdade. Em Tolstói, é uma febre moral e sexual, ligada à violência do casamento e à obsessão masculina pela pureza. Em Ferrante, é uma experiência de desagregação íntima e doméstica. Em Millet, surge como paradoxo moderno. A mulher que conheceu a liberdade sexual vê-se, inesperadamente, capturada pela tirania imaginária da exclusividade.
Em todos estes livros há um ponto comum. O ciúme nunca fala apenas do outro. Fala, sobretudo, daquele que o sente. Revela a sua insegurança, a sua vaidade, a sua dependência, a sua fome de controlo. O ciúme é uma paixão voltada para fora, mas que desmascara brutalmente o interior. Dom Casmurro, de Machado de Assis Poucos romances fizeram do ciúme uma forma tão refinada de ambiguidade como Dom Casmurro. À primeira vista, Bentinho narra a história de um amor traído: o romance com Capitu, a amizade com Escobar, o nascimento de Ezequiel, a suspeita de adultério. Mas Machado de Assis oferece-nos uma tragédia da interpretação.
Bentinho é o narrador, o juiz, a vítima e o acusador. A sua versão dos acontecimentos pretende reconstruir o passado, mas fá-lo sempre a partir de uma ferida narcísica. Ele quer convencer-nos, mas quanto mais tenta convencer, mais se denuncia. O seu discurso é elegante, irónico, culto, sedutor; mas é também sinuoso, interessado, contaminado pela necessidade de transformar a suspeita em destino. O ciúme, em Dom Casmurro, aparece como uma arquitetura. Bentinho constrói a culpa de Capitu como quem constrói uma casa, ou, mais precisamente, como quem reconstrói a antiga casa de Matacavalos para nela aprisionar os fantasmas da juventude. A célebre opacidade de Capitu é central para esse mecanismo. Os seus “olhos de ressaca” tornaram-se um dos maiores enigmas da literatura em língua portuguesa precisamente porque nunca sabemos se são sinal de dissimulação ou apenas invenção poética de um homem incapaz de suportar a autonomia da mulher que ama. Capitu é inteligente, viva, estratégica, socialmente mais hábil do que Bentinho. Talvez por isso mesmo se torne, para ele, intolerável. O ciúme de Bentinho nasce da impossibilidade de possuir inteiramente a consciência de Capitu.
Machado trabalha uma dimensão profundamente moderna do ciúme: a sua relação com a narrativa. Bentinho apresenta impressões, coincidências, semelhanças físicas, cenas reinterpretadas à luz de uma obsessão posterior. O ciumento, como o mau leitor, confunde indício com evidência. A semelhança entre Ezequiel e Escobar torna-se, para Bentinho, a confirmação final; mas para o leitor permanece como problema. O romance pergunta: “Capitu traiu?” Mas pergunta também: “O que faz uma mente ciumenta quando decide organizar o mundo em torno de uma suspeita?”
Machado não absolve nem condena Capitu de modo explícito. Em vez disso, coloca-nos dentro da retórica do ciúme e obriga-nos a experimentar o seu poder persuasivo. O leitor é seduzido e manipulado por Bentinho, tal como Bentinho foi manipulado pela própria imaginação. O ciúme torna-se, assim, uma forma de autoria. Bentinho escreve para dominar aquilo que nunca conseguiu compreender.
Dom Casmurro é a história de um homem que precisa que a mulher seja culpada. O ciúme, em Machado, é uma paixão que fabrica uma verdade à medida da sua dor. COMPRO NA WOOK! » A Sonata de Kreutzer, de Tolstói Se em Machado o ciúme é ambíguo, insinuante e retórico, em Tolstói surge como uma força brutal, quase apocalíptica. A Sonata de Kreutzer é uma narrativa de confissão, marcada por uma intensidade febril. Pozdnyshev, o narrador, conta a história do seu casamento, do seu tormento sexual, da suspeita em relação à mulher e do crime que nasce dessa suspeita. O ciúme é fúria metafísica.
Tolstói associa o ciúme a uma visão profundamente problemática do desejo. O casamento, longe de aparecer como espaço de harmonia, surge como campo de conflito entre corpo e ressentimento. Pozdnyshev vê a sexualidade como degradação e como armadilha. O seu discurso é atravessado por uma tensão moral extrema: ele condena o desejo, mas está dominado por ele; acusa a mulher, mas revela a sua própria obsessão; denuncia a sociedade, mas transforma essa denúncia numa justificação da violência. A música desempenha um papel decisivo. A sonata de Beethoven, tocada pela mulher de Pozdnyshev com outro homem, torna-se para ele a encenação intolerável de uma intimidade que o exclui. O ciúme nasce, nesse momento, de algo que não é propriamente físico, mas simbólico. A música cria uma comunhão invisível, uma espécie de erotismo espiritual que Pozdnyshev não consegue suportar. O que o destrói é ver a mulher partilhar com outro uma intensidade que escapa ao seu domínio.
Nesse sentido, Tolstói mostra com enorme acuidade uma das raízes mais obscuras do ciúme: a humilhação de não ser o centro absoluto da vida do outro. O ciumento não teme apenas perder o amor; teme descobrir que nunca o possuiu inteiramente. A liberdade interior da pessoa amada aparece-lhe como afronta.
Mas A Sonata de Kreutzer é também uma obra atravessada pelas contradições ideológicas do próprio Tolstói. A crítica à hipocrisia do casamento burguês convive com uma visão severa, muitas vezes misógina, da sexualidade feminina. A mulher de Pozdnyshev quase não tem voz própria; existe sobretudo como objeto da narrativa dele, como superfície onde se projetam medo, desejo e culpa. Essa ausência é perturbadora, mas literariamente significativa. O ciúme masculino apaga a mulher real para substituí-la por uma figura imaginária, culpada antes mesmo de qualquer prova.
Ao contrário de Bentinho, que escreve para nos convencer lentamente, Pozdnyshev fala como alguém já consumido pelo excesso. A sua confissão procura contágio. Ele quer que o ouvinte compreenda a lógica interna do seu horror. Mas o leitor percebe que essa lógica é precisamente o problema. O ciúme, em Tolstói, revela-se como uma paixão que moraliza a posse: em nome da virtude, legitima a destruição.
Se Dom Casmurro transforma o ciúme numa dúvida interminável, A Sonata de Kreutzer mostra o momento em que a dúvida se torna violência. O resultado é um dos retratos mais perturbadores da literatura sobre a ligação entre desejo reprimido, orgulho masculino e aniquilação do outro. COMPRO NA WOOK! » Crónicas do Mal de Amor, de Elena Ferrante Em Dias de Abandono, incluído em Crónicas do Mal de Amor, Elena Ferrante desloca o ciúme para um território visceralmente feminino, doméstico e corporal. Olga é abandonada pelo marido e, a partir desse acontecimento aparentemente comum (um homem que parte, uma mulher deixada para trás), Ferrante constrói uma das mais intensas narrativas contemporâneas sobre a desagregação psíquica provocada pela perda amorosa.
O ciúme neste livro é uma experiência de substituição. A outra mulher existe como ameaça concreta, mas também como fantasma que corrói a identidade da abandonada. Olga sofre porque a sua vida anterior, organizada em torno do casamento, da maternidade e da estabilidade doméstica, se revela subitamente frágil, talvez ilusória. O abandono reescreve o passado: aquilo que parecia amor passa a parecer engano; aquilo que parecia rotina passa a parecer servidão; aquilo que parecia identidade passa a parecer papel imposto. Ferrante é implacável na forma como descreve essa queda. O ciúme aparece como humilhação, raiva, sujidade, exaustão, descontrolo. O corpo de Olga torna-se campo de batalha. A casa, longe de ser refúgio, transforma-se em espaço claustrofóbico, quase infernal. Os filhos, o cão, os objetos quotidianos, o calor, a fechadura, os ruídos: tudo participa na decomposição da ordem. O mundo exterior encolhe, a mente expande-se em espirais de dor.
Uma das forças de Ferrante está em recusar a imagem nobre da mulher abandonada. Olga é cruel, obscena, desorientada, por vezes injusta, por vezes assustadora. Ferrante concede-lhe uma humanidade integral, sem a purificar. O ciúme torna-se, assim, também uma crise de linguagem e de civilidade. Olga perde as palavras certas, perde a compostura social, perde a versão de si mesma que aprendera a apresentar ao mundo.
Ao contrário de Machado e Tolstói, que nos dão narradores masculinos obcecados pela posse da mulher, Ferrante mostra o que acontece quando a mulher é confrontada com a sua própria substituibilidade dentro de uma ordem afetiva e social que a tornou dependente. O ciúme de Olga tem uma dimensão existencial: “Quem sou eu, se já não sou aquela que era amada?” Esta pergunta atravessa o livro.
No entanto, Dias de Abandono é também uma narrativa de sobrevivência. Ferrante mostra que a mulher abandonada precisa de atravessar uma espécie de inferno íntimo para recuperar uma relação menos ilusória consigo mesma. O ciúme, neste processo, é devastador, mas também revelador. Mostra a violência das dependências afetivas, a fragilidade das identidades conjugais, a brutalidade com que uma vida aparentemente estável pode ruir. COMPRO NA WOOK! » Ciúme – A Outra Vida de Catherine M., de Catherine Millet Com Catherine Millet, entramos num território diferente: o ciúme como paradoxo intelectual e erótico. Depois de se ter tornado conhecida por uma escrita franca sobre a liberdade sexual, Millet confronta-se, em Ciúme – A Outra Vida de Catherine M., com uma paixão que parece contradizer a imagem de si mesma. Como pode uma mulher que viveu o desejo fora dos moldes tradicionais da exclusividade ser devastada pelo ciúme? Como pode alguém que separou sexo, amor e posse descobrir-se prisioneira da fantasia de uma traição?
É precisamente essa contradição que torna o livro tão fascinante. Millet trata o ciúme como investigação. O livro é uma anatomia da imaginação ciumenta, uma tentativa de observar com lucidez uma paixão que, por definição, perturba a lucidez. A autora interroga os seus próprios fantasmas, a sua relação com o companheiro, a sua necessidade de saber, a sua inclinação para construir cenas mentais a partir de fragmentos. Aqui, mais do que a traição em si, importa a vida imaginada do outro. O subtítulo: “a outra vida de Catherine M.”, é particularmente expressivo: o ciúme cria uma existência paralela. Há a vida real e há a vida fantasmática, aquela em que a pessoa amada se move longe do nosso olhar, habitada por desejos, lembranças, cumplicidades e corpos que nos excluem. O ciúme inventa uma segunda vida para o outro, mas também uma segunda vida para quem sofre: uma vida subterrânea, feita de vigilância, comparação, pesquisa, cenas repetidas.
Millet aproxima-se do ciúme com uma precisão quase ensaística. A sua escrita procura compreender. Isso distingue o livro de muitas narrativas passionais. O sofrimento está presente, mas é submetido a uma inteligência analítica que não o diminui, antes o torna mais perturbador. Porque, em Millet, o ciúme resiste a tudo. Sobrevive à teoria, à experiência e até àquilo que julgávamos saber sobre nós próprios.
O livro revela uma verdade incómoda: que a liberdade erótica não elimina necessariamente o desejo de singularidade afetiva. Uma pessoa pode aceitar a multiplicidade dos corpos e, ainda assim, sofrer com a ideia de não ocupar um lugar único no imaginário do outro. O ciúme, nesse sentido, pode surgir mesmo onde as regras foram flexibilizadas, mesmo onde a sexualidade parece emancipada. Talvez porque o ciúme não diga respeito apenas ao sexo; mas também diga respeito ao lugar que acreditamos ter na memória, no desejo e na narrativa íntima de alguém.
Em Catherine Millet, o ciúme torna-se uma experiência de despossessão simbólica. “Quem és quando não estás comigo? Que parte de ti me escapa? Que imagens guardas que não me incluem?” É este o ciúme mais moderno e talvez o mais inquietante: o que sofre perante a impossibilidade de conhecer plenamente o outro. COMPRO NA WOOK! » Estes quatro livros mostram que o ciúme é uma forma de relação com a verdade, com o corpo, com a linguagem e com o poder. O ciumento quer saber, mas o seu desejo de saber está contaminado pelo medo. Quer amar, mas muitas vezes confunde amor com posse. Quer preservar a intimidade, mas acaba por destruí-la através da suspeita. Quer encontrar provas, mas frequentemente fabrica-as.
A diferença entre estas obras está no modo como cada uma encena a paixão ciumenta. Machado faz dela uma arte da ambiguidade; Tolstói, uma tragédia da possessividade; Ferrante, uma descida ao inferno da perda; Millet, uma investigação sobre os paradoxos do desejo contemporâneo. Mas todas parecem dizer-nos que o ciúme é uma paixão profundamente narrativa, que obriga quem o sente a contar histórias: sobre o outro, sobre si mesmo, sobre o passado, sobre aquilo que talvez tenha acontecido e sobre aquilo que se teme que aconteça.

A Sonata de Kreutzer

by Lev Tolstói

Property Description
ISBN: 9789727089611
Publisher: Relógio D'Água
Release Date: October of 2007
Language: Portuguese
Dimensions: 153 x 234 x 8 mm
Cover: Softcover
Pages: 120
Format: Book
Categories: Books in Portuguese > Fiction > Romance
EAN: 9789727089611

Sonata

JV

Um livro sobre a paixão e crimes que daí resultam, numa narrativa dramática que agarra o leitor até ao fim da história.

Clássico e Obrigatório

Tiago

Não é por acaso que "A Sonata de Kreutzer", a par de "A Morte de Ivan Iliitch", é considerada uma das maiores obras primas de Tolstoi . Escrita simples mas elegante, de fácil compreensão e uma tradução exímia, "A Sonata de Kreutzer" é um romance que se foca sobretudo no casamento e nas relações entre homens e mulheres. Um romance à frente do seu tempo que merece leitura obrigatória, sem dúvida alguma.

ABOUT THE AUTHOR

Lev Tolstói

Lev Tolstoi (1828-1910) nasceu na Rússia, no seio de uma família nobre. Órfão desde cedo, optou por seguir a carreira militar, servindo-se mais tarde das suas experiências no campo de batalha para representar a guerra de forma realista nos seus romances.

Em 1856, abandona o exército e viaja pela Europa para estudar Pedagogia. De regresso à Rússia, dedica-se à escrita, publicando mais tarde em fascículos Guerra e Paz (1865-69) e Anna Karénina (1875-77), ainda hoje considerados dois dos melhores romances de sempre.

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