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A Paixão Segundo G.H.

by Clarice Lispector
Book eBook
Publisher: Companhia das Letras, January of 2025 ‧
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«Vida e morte foram minhas, e eu fui monstruosa. […] Durante as horas de perdição tive a coragem de não compor nem organizar. E sobretudo a de não prever. Até então eu não tivera a coragem de me deixar guiar pelo que não conheço e em direção ao que não conheço […]. Minhas previsões me fechavam o mundo.»

Conhecemo-la pelas enigmáticas iniciais - o nome, nunca chegaremos a descobrir. G.H., independente e segura das suas escolhas, é uma escultora bem relacionada nos círculos do Rio de Janeiro. Numa manhã igual a outras, o seu mundo vai expandir-se depois de se pulverizar. Primeiro, a sua empregada despede-se; em seguida, G.H. decide limpar o quarto que ela habitava: um espaço vazio e imaculado. É aí que acontece um encontro epifânico com uma barata que rasteja de dentro de um armário. Perante a visão do inseto, G.H. submerge num questionamento existencial agudo, rasga fronteiras, põe em causa o seu lugar no universo e, num sentido mais extremo, a sua própria humanidade.

Tendo como núcleo uma experiência-limite e como clímax um episódio chocante, A paixão segundo G.H. é o teatro anatómico da condição humana: disseca pulsões primordiais (desejo, medo, transgressão), ao mesmo tempo que convida o leitor à travessia de um mundo oculto. Depois da descida ao inferno, e por entre as ruínas daquilo em que antes acreditava, irrompe, afinal, o gesto humano mais elementar: o combate pela vida.

Um dos mais célebres romances de Clarice Lispector, A paixão segundo G.H. é um prodígio da imaginação e do engenho literário. Uma história tão inquietante quanto luminosa.

«Um texto maior da literatura do século XX. […] A maior parte das vezes, o que acontece com Clarice é que ela nos dá encontros de vida. A grande fulminação é o impulso vital que as suas palavras contêm. Lendo-a, aproximamo-nos do seu mundo denso e verdadeiro. É por isso que, em espelho, nos estamos sempre a rever nos seus textos.»
Carlos Mendes de Sousa

«Clarice Lispector é enigmática, mística, contraditória e filosófica. Mesmo que comece em território familiar […], rapidamente se desvia para um reino em que os sons se tornam discordantes e a paisagem se faz indiscernível, assumindo tonalidades imprevistas.»
The New York Times

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Coração selvagem

O que significa encontrar o selvagem, seja ele um urso, um gato, uma barata ou uma ideia? Estes encontros literários não são apenas físicos, mas também filosóficos, emocionais e até espirituais. Os encontros entre humanos e animais na literatura revelam muito mais do que simples interações entre espécies. Eles levam-nos a questionar a nossa identidade, a nossa superioridade presumida e os nossos instintos mais básicos. Seja na brutalidade de um ataque de urso, na complexidade emocional de cuidar de gatos, na crise existencial diante de uma barata ou na filosofia de vida dos felinos, cada um destes livros convida-nos a repensar a nossa relação com o mundo animal e, por consequência, connosco mesmos. A literatura mostra-nos que os animais não são apenas companheiros ou obstáculos. Nestes quatro livros, o contacto entre humanos e animais assume formas muito diferentes. Em Acreditar nas Feras, há um embate físico e espiritual com o selvagem. Em Todos os Meus Gatos, há um amor que se torna fardo. Em A Paixão Segundo G.H., um colapso existencial que revela o que há além da linguagem. Em Filosofia Felina, uma aprendizagem serena.
Os protagonistas destes livros são confrontados com o mundo animal de maneira simbólica ou real, resultando em experiências transformadoras. Vamos do filosófico ao visceral, do amoroso ao assustador.
O encontro final é o nosso, como leitores. Ler também é um ato de domesticar o selvagem – ao tentarmos compreender, organizar e nomear aquilo que nos escapa.
A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector Este é um dos encontros mais radicais entre humano e animal na literatura. A protagonista, G.H., é uma mulher de classe alta que, ao limpar o quarto da empregada, se depara com uma barata. O que poderia ser um momento trivial desencadeia uma verdadeira experiência mística. G.H., ao matar o bicho, passa por um episódio existencial avassalador. O animal, aqui, é um catalisador para uma profunda crise de identidade, levando a personagem a um estado de dissolução do ego e de confronto com o que há de mais primitivo nela. O encontro é um encontro com o avesso, com o inominável, com o grotesco e o sublime. Todo o livro é, à semelhança da própria barata, sem contorno. A Paixão Segundo G.H. coloca-nos diante do terror do desconhecido e da repulsa pelo que não conseguimos compreender. O livro questiona a separação entre humano e não-humano e sugere que, ao tentar eliminar o que nos incomoda, acabamos por nos deparar com a nossa própria fragilidade. Acompanhamos um colapso de identidade e uma revelação sobre a matéria bruta da vida, ao mesmo tempo que várias perguntas aparecem. O que significa existir? O que há por trás das palavras, dos conceitos, da cultura? Somos confrontados também nós, como leitores, com a barata, somos obrigados a lidar com ela, ao mesmo tempo que GH, numa epifania agonizante.
Clarice Lispector fala do sentimento de lugar, de pertencer de caber. Fala do ódio, do amor, do desejo de matar. Dessa experiência minúscula gigante.
Ao contrário dos outros livros desta lista, A Paixão Segundo G.H. não trata os animais como companheiros ou seres protegidos, mas como representantes do indizível. A barata é o que está fora da ordem humana, o que não pode ser domesticado ou racionalizado. O romance é sobre o confronto com o que existe além da linguagem. COMPRO NA WOOK! » Acreditar nas Feras, de Nastassja Martin Em Acreditar nas Feras, a antropóloga francesa Nastassja Martin narra uma experiência real e transformadora: o seu encontro direto com um urso selvagem nas montanhas da Sibéria. Em 2015, Martin foi atacada por um urso que quase lhe tirou a vida – e que a desfigurou gravemente, mas que, por razões que apresenta como quase míticas, a poupou da morte.
Neste livro, o embate com o urso é literal e simbólico – uma fusão entre humano e animal que dissolve fronteiras. O encontro é brutal e o momento não se encerra no ataque – pelo contrário, torna-se um ritual de passagem que redefine a autora e a faz repensar os limites entre humanidade e animalidade.
Nos povos habitantes da região onde ocorreu o ataque, há uma crença de que quem sobrevive a um encontro tão próximo com um animal selvagem se torna um miedka – uma criatura que pertence a dois mundos, o humano e o animal. A autora vê-se dividida entre esses dois polos: enquanto a sua face mutilada se reconstrói aos poucos, a sua identidade também se fragmenta e se reconfigura. O urso marcou-a fisicamente e simbolicamente, tornando-se parte dela, que carrega para sempre a marca da fera. Acreditar nas Feras é ao mesmo tempo um estudo antropológico e uma jornada pessoal de metamorfose. Martin mistura memória, reflexão antropológica e poesia para narrar essa transformação. Acompanhamos as estações do ano e a sua recuperação dolorosa no hospital. O livro desafia a visão ocidental tradicional da separação entre Homem e Natureza, sugerindo que essa fronteira é ilusória. O texto, por vezes febril, evoca a selvageria e a espiritualidade, levando o leitor a um estado quase onírico. A obra é uma profunda meditação sobre o que significa ser humano quando se vive à beira da animalidade. COMPRO NA WOOK! » Todos os Meus Gatos, de Bohumil Hrabal Nesta obra autobiográfica, o escritor checo Bohumil Hrabal narra a sua intensa e, por vezes, dolorosa relação com os gatos que vivem na sua casa de campo. Este autor, conhecido pelo humor mordaz e, até, impiedoso, e pela prosa crua, destila neste livro uma ternura inesperada e desesperada. No início, Hrabal descreve a sua conexão profunda com os gatos, o seu comportamento e a forma como eles lhe trazem conforto. No entanto, à medida que o número de gatos cresce, a alegria dá lugar à angústia. Ele vê-se incapaz de cuidar de tantos gatos e precisa de tomar decisões dolorosas para evitar que a situação saia do controlo. Aqui, o amor pelos animais confunde-se com culpa e impotência. À medida que os gatos se multiplicam e que os desafios de cuidar deles aumentam, o tom do livro muda. O livro transforma-se num drama existencial, onde a relação entre homem e animal revela as contradições do cuidado e do abandono.
O que começa como um relato afetuoso da vida ao lado dos gatos transforma-se num estudo sobre os dilemas morais que surgem ao tentar cuidar de animais num mundo imperfeito. Hrabal não idealiza os gatos, nem a sua relação com eles: há momentos de exaltação, mas também de angústia, especialmente quando precisa de tomar decisões difíceis. Todos os Meus Gatos retrata como os seres humanos projetam as suas emoções nos animais e, muitas vezes, se perdem entre afeto e sofrimento, e expõe as contradições do amor pelos animais – capaz das maiores ternuras, mas também de nos colocar frente a frente com a nossa impotência e falibilidade.
Todos os Meus Gatos não é um livro doce. É um relato incómodo sobre as limitações humanas diante da Natureza e da responsabilidade. A relação do autor com os seus gatos oscila entre a devoção e o desespero, mostrando que o amor por um animal pode ser tão intenso e torturante quanto qualquer relação humana.
Há a lenda de que Hrabal morreu ao cair de uma janela, enquanto tentava dar de comer aos pombos. Um último gesto de ternura pelos animais. Como se as verdadeiras feras, para ele, sempre tivessem sido as pessoas. COMPRO NA WOOK! » Filosofia Felina, de John Gray O filósofo britânico John Gray convida-nos a ver os gatos como professores sábios em Filosofia Felina – Os Gatos e o Sentido da Vida. Gray defende que as questões eternas sobre o propósito da vida e a felicidade podem ter respostas tão válidas vindas dos gatos quanto dos pensadores humanos. Fascinado pela maneira despreocupada e autêntica como os gatos vivem, ele propõe neste livro um guia para uma vida mais autêntica e sossegada, inspirado na sabedoria dos gatos. Gray combina reflexões de grandes filósofos com observações do comportamento felino, mostrando como os gatos, alheios às ansiedades e ambições humanas, têm muito a ensinar-nos. O resultado é um ensaio leve e profundo ao mesmo tempo, que encanta amantes de gatos e faz qualquer leitor refletir sobre como levar uma vida menos stressante e mais verdadeira (quem sabe, com um pouco mais de indiferença aristocrática felina em relação aos problemas mundanos). Enquanto os humanos se angustiam com o sentido da existência, os gatos simplesmente vivem – e, segundo Gray, há uma sabedoria nisso. O livro convida-nos a observar os felinos não como meros animais de estimação, mas como seres que têm muito a ensinar sobre liberdade, independência e prazer na simplicidade. Gray analisa pensadores como Schopenhauer e Montaigne para argumentar que talvez devêssemos abandonar as nossas preocupações existenciais e adotar um modo de vida mais próximo ao dos gatos: livres do tormento do passado e do futuro, vivendo apenas o presente. O livro apresenta-se como um pequeno tratado filosófico sobre o que significa viver bem, inspirado pelo comportamento dos gatos. Ao contrário dos outros livros desta lista, que mostram o encontro entre humanos e animais como um choque transformador, Filosofia Felina propõe uma convivência tranquila e harmoniosa. É um ensaio leve, mas cheio de provocações filosóficas. COMPRO NA WOOK! »

A Paixão Segundo G.H.

by Clarice Lispector

Property Description
ISBN: 9789895833306
Publisher: Companhia das Letras
Release Date: January of 2025
Language: Portuguese
Dimensions: 147 x 233 x 18 mm
Cover: Softcover
Pages: 208
Format: Book
Categories: Books in Portuguese > Fiction > Romance
EAN: 9789895833306

Biblia passional

Susana Fernandes

Ler Clarice é uma viagem. Imagino-a sempre a falar comigo. Nem tudo percebo mas sinto tudo e nem tudo é agradavel. Para fas devotos de Clarice e leitores de alma formada. Classico ! Clarice sempre Clarice sempre

Só para leitores de "alma já formada"...

Maria Sobral Velez

Devemos satisfazer o pedido de Clarice Lispector, numa advertência inicial a possíveis leitores... "Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada(...)Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém." É preciso, de facto, antes de mais ter alma para aceder ao mundo interior de G.H. Como entender que uma barata num armário possa desencadear uma dissecção da condição humana?

Genial

Sandra Pereira

A escrita genial de Clarice Lispector que nos leva a explorar um espaço oculto do nosso ser, encontrando-nos a nós mesmos através das palavras e da imaginação de uma escritora ousada e original.

Intenso e introspetivo

IV

O enredo d' "A Paixão Segundo G.H." é simples: uma mulher encontra uma barata no quarto, e isto desencadeia uma profunda reflexão existencial. Não é, por isso, um romance tradicional com uma intriga complexa, mas sim um exercício de ginástica com as palavras, que vai ecoar com leitor de forma íntima, conforme vamos conhecendo também o mais íntimo da G.H.

Notável

João S.

Uma verdadeira obra-prima da literatura brasileira e uma “pedrada no charco” intemporal. O olhar peculiar e único de Clarice Lispector é avassalador, é um mergulho no lugar mais recôndito do ser humano que se pode alcançar. Confessional e introspetivo, é um livro e uma belíssima edição da Companhia das Letras fundamental em qualquer estante. Para ler e reler!

Sempre Lispector

ML

Um monólogo delirante, muitas vezes incompreensível, mas que nos arrebata com uma linguagem poética e um ritmo onírico, com um fundo em que o narrador viaja até à essência das coisas, à solidão, até ao mal, e a beleza é esquecida. A paixão não é o romance, mas a própria vida.

ABOUT THE AUTHOR

Clarice Lispector

A 10 de dezembro de 1920, nasce Clarice Lispector, que viria a tornar-se figura maior da literatura do século XX. Recebe, ao nascer numa aldeia da Ucrânia, o nome «Haia», que em hebraico significa «vida». No contexto de guerra civil e das perseguições à comunidade judaica — os pogroms —, a família decide emigrar: em 1922, Clarice Lispector aporta no Nordeste do Brasil, acompanhada pelos pais e as duas irmãs. Mudam de nome, começam uma nova vida.
Em 1939, Clarice Lispector vai estudar Direito no Rio de Janeiro. No ano seguinte, começa a trabalhar como jornalista e publica, numa revista, o primeiro conto. Não mais para de escrever. Perto do coração selvagem, o romance de estreia, sai em 1943, ano em que a escritora se casa com um diplomata brasileiro, seu colega de faculdade. Dez anos mais tarde, este romance sai em França, com capa de Henri Matisse, inaugurando um percurso internacional fulgurante.
A partir de 1944, Clarice Lispector vive em Nápoles, Berna, Torquay e Washington, acompanhando o marido na carreira diplomática. Regressa ao Brasil em 1959, após o divórcio. Morre em 1977, no Rio de Janeiro.
Escritos ao longo de quase quatro décadas, de Clarice Lispector estão publicados no Brasil cerca de vinte livros de ficção (entre romance e conto), vários volumes de crónicas, correspondência e artigos, e cinco livros para a infância. Autora de uma obra de incomparável relevância – publicada em Portugal, a partir de 2025, pela Companhia das Letras – e acolhida nas mais prestigiadas editoras de todo o mundo, Clarice Lispector é um ícone da literatura.

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