A Noite Sangrenta

Book 1

by José Brandão
Publisher: Publicações Alfa, April of 1990 ‧
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A Noite Sangrenta

by José Brandão

Property Description
ISBN: 9789726260431
Publisher: Publicações Alfa
Release Date: April of 1990
Language: Portuguese
Dimensions: 140 x 190 x 10 mm
Pages: 244
Format: Book
Collection: Testemunhos Contemporâneos
Categories: Books in Portuguese > Fiction > Other Literary Forms
EAN: 0178000131065
Recommended Minimum Age: Not applicable

Prefácio desta obra - Raul Rêgo

José Brandão

PREFÁCIO O meu amigo José Brandão entrou pelos caminhos da história e ainda bem. A história para ele não é uma visão panorâmica da paisagem social, económica e política, mas a narração e a apreciação dos escaninhos da vida pública e da vida de cada um dos cidadãos. Habituado a vivê-la, entrou a investigar a existência de nossos pais e avós. Nesses degraus bem conturbados assenta a nossa existência mofina de antes do 25 de Abril; e depois tivemos de construir inteiramente a sociedade que quisemos democrática e que esperemos não perca o rumo da democracia. Nós somos os herdeiros daqueles homens generosos que quiseram uma República de todos e que confiaram em todos, até nos seus piores inimigos, e acabaram por ser silenciados por eles; e quantos e quantos milhares não morreram no exílio, nos campos de concentração e no mutismo imposto... O 19 de Outubro de 1921 ficou na história com o rótulo de «Noite Sangrenta». É um dos pontos salientes dos dezasseis anos de República, nela correu o sangue de republicanos, a começar pelo homem que fora o personagem nevrálgico, a coluna firme, em torno da qual tinha sido feita a República, onze anos antes. Machado Santos, contra-almirante, encostado a uma esquina no Intendente, é executado como qualquer criminoso apanhado em flagrante delito, em terras bárbaras que não têm lei senão a da violência, a da contagem das espingardas. Selvagem? Sem dúvida o é um grupo de feras à solta, como se os leões tivessem fugido das jaulas do Coliseu e fossem por essa Lisboa fora, estraçalhando quem lhes aparecesse pela frente. Mas eu e o José Brandão vivemos ainda sociedade e ambiente bem mais selvagem, qual é o da violência, o da prisão e morte a arbítrio de quem manda estar consagrado na mesma lei. Os selvagens do 19 de Outubro de 1921 agiram contra a lei e responderiam de pois em tribunal, indo muitos deles para o degredo, a penitenciária. O Abel Olímpio e seus parceiros iriam sentar-se no banco dos réus; mas onde param os assassinos de Delgado e aqueles que, cumprindo a lei, nos iam buscar a casa de madrugada, sem que muitos a ela regressassem? Esses assassinos profissionais, torturadores ensaiados e aprovados, cumpriam a lei e por detrás deles estavam o Presidente da República, o Presidente do Conselho e os Ministros. Não se atire pela borda fora, como documento de somenos, a declaração do major Silva Pais no julgamento de após-25 de Abril de que ele se avistava, pelo menos, todas as semanas com o Presidente do Conselho e de tudo o informava. Terra sem rei nem roque, República de brandos costumes, contando com um nível de educação cívica que não era o nosso, é sem dúvida ambiente cálido e de fundões; mas sociedade em que as mesmas autoridades se tornam os carcereiros da opinião, da consciência e de todos os actos dos homens, é muito pior porque são elas que dão diplomas de assassinos às feras. É o assassínio legalizado. Quantos Dentes de Ouro não foram elogiados e não botaram crachá ao peito? Fazendo futurologia histórica, podemos imaginar o que teria sido o 19 de Outubro ocorrendo não em 1921, mas em 1931. Em primeiro lugar, os jornais, rádio, nada teriam dito, senão o que ao Governo conviesse dizer. Nem se saberia quantos tinham sido os mortos, nem quem os matara, nem quem os mandara matar. O 19 de Outubro não figuraria na história, por falta de documentação, nem a Torre do Tombo dele daria testemunho por não haver qualquer processo… Sociedade livre, a portuguesa de 1921, era uma democracia que tenteava os seus passos. Vítimas várias tinham caído, desde o rei D. Carlos e o príncipe D. Luís Filipe, ao Presidente Sidónio Pais, nos socalcos do caminho e nalguns casos os mesmos criminosos tinham pago com a própria vida a vida que a outros tinham tirado. O atentado político é fenómeno de todas as sociedades, mas mais frequente nas sociedades rígidas, vivendo a sua vida cívica sob a tensão, por falta de comunicabilidade entre cidadãos e autoridades, não emanando estas em geral da vontade e escolha dos cidadãos. Os filhos não se educam à bofetada, nem os políticos podem ter como norma «os safanões a tempo»; em geral, quem os dá é quem mais os merecia. Uma sociedade política, como uma família, exige a confiança de um homem no seu vizinho, como pai e filhos confiam uns nos outros, embora aquele tenha tido por vezes de usar da violência, quantas até para salvar os filhos do precipício. O que são os tribunais, as cadeias, o sistema policial, senão a prevenção contra o crime ou o julgamento do mesmo crime? Mas terra em que o juiz é também carcereiro, em que o político é quem dita a sentença, vive o ambiente primitivo que habitualmente denominamos de selvagem. O 19 de Outubro foi um episódio trágico na vida da República de que os jornais falaram livremente, na altura, e cujos autores responderam em tribunal. Infelizmente, quando a viúva de Carlos da Maia quis insistir na investigação, isso foi-lhe trancado. Porquê? O que temiam os autoritários, acobertados pela censura prévia, das revelações de Abel Olímpio, o Dente de Ouro, natural de Santa Comba da Vilariça, revés da terra onde nascera o padre Maximiliano Lima, que muitas vezes o levava e a outros marinheiros ao jornal monárquico e reaccionário A Voz, dando-lhes dinheiro? Porque não foram mais fundo as investigações, nem à mesma D. Berta Maia foi consentido que continuasse nos esforços para esclarecer por completo a morte de seu marido? Aí está um mistério que se adensa, mas cujos segredos podem levar a todas as hipóteses. Quem teve medo da verdade não foi a República democrática, não. Foram os que tinham conquistado o poder pela violência, à força das armas, contra a democracia, desencadeando a revolução no dia 28 de Maio de 1926, em Braga, enquanto na cidade dos arcebispos decorriam as sessões solenes, as missas, as procissões e peregrinações do Congresso Mariano Nacional. A diferença é como do dia para a noite. Na República democrática houve crimes e os criminosos responderam por seus actos e muitos entraram na penitenciária; na ditadura militar, clerical e capitalista, os criminosos oficiais eram condecorados pelo Presidente da República. Sirva de exemplo o nefando Seixas, condecorado pelo presidente Carmona, que não governou um só dia com liberdade de imprensa, tendo ele próprio feito a apologia de revoltas contra a mesma República. É o seminarista de Viseu, conferencista do CADC e do Congresso Eucarístico Nacional, em Braga, em 1924, várias vezes candidato a deputado católico e uma vez eleito, sem corresponder ao seu mandato por incapacidade de defrontar um homem cara a cara, como igual, no Parlamento e noutra qualquer tribuna e na imprensa, sendo censurado nas Novidades e depois passando ele a exercer a censura sobre todos os jornais portugueses, revoltando-se, em pensamento apenas, contra a censura que lhe era feita, mas com ela vivendo em todo o seu governo, o que foi ele senão o carcereiro de um país inteiro? Foi um chefe da censura e da Polícia. Só isso. Mais do que um nome, a República é um regime, e o regime português desde o dia 23 de Junho de 1926, em que os jornais vão à censura então instalada nos baixos do Teatro de S. Carlos e dirigida pelo capitão Pratas, não foi republicano. Tão monárquico e criminoso como o do tempo do senhor D. Miguel. Mais hipócrita por não deixar que o sangue ou o clamor das vítimas viesse a público. A violência das armas nunca é democrática, sejam elas as G3, sejam as pistolas ou punhais. Só a verdade é democrática e só com ela nos podemos entender, respeitando-nos e prezando-nos uns aos outros, independentemente das ideias de cada um. Os correligionários escolhem-se pelas ideias; mas os amigos escolhem-se pelo carácter. E nesse pluralismo que o homem se enriquece, tanto nas ideias como nos bens materiais. Como podemos nós dizer que alguém é rico ou pobre, senão comparando-o com outros – vizinhos, amigos, adversários? Ao espelho do passado, melhorando-o e emendando-o, deve nos em liberdade construir o presente. RAÚL REGO

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José Brandão

José Brandão was born in Algés, Oeiras, on March 14, 1948.
In 1969 he joined the army, mobilizing for the war in Mozambique, from where he returned at the end of 1971.
He would be arrested by the PIDE in early 1973, accused of belonging to an organization linked to the PCP, the ARA.
Connected to the world of trade unions and politics, in 1979 he adhered to the positions of the UGT and the PS, reaching prominent positions in these organizations.
He currently has no political or union affiliation.
He has a vast number of articles published between 1983 and 1995 in newspapers such as... Express, Daily News and the Lisbon Daily.

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