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As Viúvas De Dom Rufia eBook

de Carlos Campaniço
Livro eBook
Editor: Casa das Letras, maio de 2016 ‧
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Conhecido por Dom Rufia desde moço, Firmino António Pote, criado sem recursos numa vila alentejana, promete a si mesmo tornar-se rico. Negando-se à dureza do trabalho do campo, divide durante anos a sua sobrevivência entre o ócio e alguns negócios frugais. Mas, já nos trinta, munido de assombrosa imaginação, bonito como poucos e gozando de uma enorme capacidade de persuasão, sobretudo entre as mulheres, lobriga várias maneiras de alcançar o seu objectivo, fingindo continuamente ser quem não é. Para isso, porém, é obrigado a viver em vários lugares ao mesmo tempo, dando a Juan de los Fenómenos, um velho chileno em busca de proezas sobre-humanas, a ilusão da ubiquidade.
Quando o corpo sem vida de Dom Rufia é encontrado no meio do campo, a recém-empossada Guarda Republicana não imagina as surpresas que o funeral reserva. O aparecimento de uma estranha carta assinada pelo tio do morto é só o princípio da desconfiança de que ali há mão criminosa.
Depois do muito aplaudido Mal Nascer, finalista do Prémio LeYa em 2013, Carlos Campaniço regressa à ficção com um romance irresistível e cheio de humor, cuja acção decorre no início do século XX, num Alentejo onde pululam personagens fascinantes e inesquecíveis.

As Viúvas De Dom Rufia

de Carlos Campaniço

Propriedade Descrição
ISBN: 9789897414923
Editor: Casa das Letras
Data de Lançamento: maio de 2016
Idioma: Português
Tipo de produto: eBook
Formato e Compatibilidade:
Classificação Temática: eBooks em Português > Literatura > Romance
eBooks em Português > Literatura > Ficção
EAN: 9789897414923
Acessibilidade: Ver características de acessibilidade indicadas pelo editor

O Dom Peripécias! Altamente recomendado!

Ana Isabel Vieira

Este foi o segundo livro que li do autor (depois de Mal Nascer), e sem dúvida o melhor e o mais diferente de outros tantos. Não conseguimos não rir com as peripécias da personagem principal. Ajuda a isto: a escrita clara, os diálogos simples mas diretos e numa linguagem para nós ainda tão viva! Apesar de se passar no Alentejo, parecia que estava a ouvir os meus avós - a maneira de falar das gentes do campo. Não me lembro de, alguma vez, ter lido um livro assim! Foi um prazer e cá em casa já toda a gente o leu!

As Viúvas de Dom Rufia, na esteira dos grandes prosadores

Fernando Martins

O leitor ecléctico, avesso a dogmatismos de escola, sentir-se-á porventura tão atraído e sensibilizado por um romance inovador em tudo - desde a originalidade da história, do estilo e do idiolecto do autor até aos particulares efeitos da sua técnica narrativa - quanto por um romance que, fiel às marcas fundamentais que definiram o género - desde o antigo substrato épico até às construções do romantismo e do realismo, caracterizadas por um intenso trabalho de aprimoramento linguístico - faz aquilo que ainda é lícito esperar de um romance, isto é, que conte uma história e que a conte bem, o que não passa obrigatoriamente pela invenção de um novo paradigma narrativo susceptível de deixar o leitor atónito. Em As Viúvas de Dom Rufia (Casa das Letras, Maio de 2016), Carlos Campaniço conta uma história. E conta-a bem, sem todavia sacrificar o gozo de um enredo recheado de graça e de picante às exigências de uma escrita apostada em sujeitar o leitor àquele permanente esforço de descodificação em que apostaram simbolistas e, mais tarde, cultores do nouveau roman . Este Dom Rufia terá sido, conforme se lê na "Explicação ao Leitor" que encerra o livro, um antepassado do autor. Não o autor real, Carlos Campaniço, mas sim um autor fictício, de nome Firmino Baldassari Figueroa Ríos, que, aliás, se terá limitado "a coser as partes e a trazer a público a incrível história de Dom Rufia", transmitida por um avô. E esta "incrível história" é feita de uma sucessão de histórias ou episódios a que a presença constante do protagonista defunto, mas recorrentemente invocado pelo narrador e reconduzido às suas andanças por terras do Alentejo, confere unidade. É notável a inventiva de que o autor (o real, obviamente) dá provas, mesmo que algum antepassado lhe tenha legado um acervo de memórias (presume-se que em bruto) equivalente àquele de que o autor fictício se diz legatário. Porém, a unidade do romance deve-se também, e substancialmente, à destreza de uma escrita marcadamente perifrástica e engenhosa, por vezes a lembrar o enfeite artificioso próprio do barroco, mas sempre sustentadamente trabalhada, com preterição frequente da abstracção a favor do recurso à imagem, como se pode testemunhar por construções como as que seguem, entre muitas outras: "Não estivesse o coração atado atrás de uma jaula de ossos, haveria de pular boca fora" (38), "Com o escuro maciço apertando as coisas que moravam do lado de lá da sua luz de candeeiro, não distinguiu [...]" (51), "Entrou no quarto onde se respirava uma penumbra de receio" (117) (espécie de hipálage em que um sintagma preposicional ocupa o lugar do adjectivo - receoso), "a melancolia estava sobre a mesa, qual toalha bordada e de linho bonito" (160), "O padre silenciou-se, e no espaço da sua voz ficou um buraco" (176), "vinham ambos em cima de passos firmes" (184), "Preferiu pensar para onde ia o mundo e quantas colisões se dariam entre aqueles que eram do antigamente e os que vinham com pressa de futuro" (189), Há também, por vezes, formulações de cariz popular: "Embora o novo ourives fosse analfabeto de palavras escritas, não o era daquelas que dizia, nem no à-vontade com que manobrava os seus argumentos" (66), "Miraram-lhe as mãos e não viram anel de compromisso, aquela atadura que afastava os homens desejados das mulheres desejosas" (72), "Fique a saber-se que não houve no mundo tia mais mãe do que Teresina" (87), "Por poucas razões teria este interrompido a sesta, que o pobre tem umas costas muito gastas em dores" (88), "começou a perceber que o dinheiro lhe escasseava no sítio mais importante, no lado de dentro dos bolsos" (103), "Mariana da Avó, que estava de ouvidos entornados sobre a sala de estar" (115), "A mulher era órfã de marido" (180), Só muito raramente (mas, ainda assim, o crítico não resiste a apontar o dedo) a formulação destoa da riqueza de construção que é a regra. É assim que se estranha, por exemplo, um "grito de horror", na página 25, ("Nesse instante Domitila deu um grito de horror (...)") e um "percepcionar", na página 40 ("Logo que percepcionou que aquele era o melhor cavalo para a sua corrida (...)"). Sempre tão hábil na utilização do vocábulo mais gracioso e da construção mais expressiva, Carlos Campaniço poderia certamente ter evitado estas chochas soluções . Ora o que antecede configura um idiolecto próprio do autor, idiolecto esse que o aproxima dos grandes prosadores dos dois últimos séculos, Camilo e Aquilino à cabeça. Não quer isto dizer que Carlos Campaniço escreva como esses mestres da língua, antes que logra, como eles e outros, configurar um código que inunda as margens da "fábula" aristotélica (a "história") e tende a erigir-se como objecto tão importante quanto aquela. Colhido de surpresa, o leitor não desfruta menos da singularidade da intriga do que da expressividade da linguagem, que assim se insinua como entidade responsável pela construção de algo que toma os contornos de um universo ficcional paralelo. Mas não se ficam por aqui as afinidades entre Carlos Campaniço e os grandes cultores da narrativa realista. O capítulo que relata a história do relacionamento entre Firmino e Joaquinita (pp. 99 a 127) e, depois, as peripécias do seu relacionamento com Cremilda, esposa de Abel Romão (pp. 183-210), parecem transportar-nos, não já aos séculos XIX e XX, mas ao século XIV, atenta a sugestão boccacciana das traições das duas mulheres nas barbas dos respectivos maridos. Aliás, a própria estrutura de As Viúvas de Dom Rufia, com a sucessiva e ininterrupta chegada de novas "viúvas" que vão alimentando a diegese, sugere o expediente das histórias que, no Decameron, vão sendo contadas, dia após dia. Por sua vez, se as interpelações e referências várias ao leitor têm paralelo em muita da narrativa produzida desde finais do século XVIII, já o afinar da expressão, acompanhado de comentário sobre a mesma, sugere fortemente a escrita de Saramago: "Passada mais de uma hora, Tomaz Velho era um homem novo, isso pondo aqui a nu todo o exagero da expressão, pois novo não mais viria a ser, se bem que renascido lhe assentava perfeitamente" (141), "Mas como Dom Rufia era fino - se se dissesse finíssimo não era superlativo posto em exagero -, passava os dias em Safara" (248). Refira-se, enfim, que, se há neste romance uma ou outra alfinetada à religião, a denunciar um ateísmo escassamente militante , já a preocupação social, apesar da raridade dos seus afloramentos, ou não fosse As Viúvas de Dom Rufia, antes de mais, o relato das picardias de um mistificador nato e burlador inveterado, é afirmada com acutilância: "Nos campos ceifava-se. Uma multidão de homens e mulheres não fugiam do Sol, amarrados às espigas. Mostravam umas mãos muito escuras, como as patas dos zurzais, uma cara sempre com vontade de água e um olhar aceitando a condenação de terem nascido gente de campo, gente de campo tinha de dar lucro ao patrão, nascera para obedecer a mandos. Quem determinara que nasceriam em grande quantidade, e seriam muito pobres, para fazerem muito rico um homem só?, poderiam ter questionado se houvesse vagar para pensamentos. Mas não, o tempo era todo vertido em trabalho, em espigas e depois em bagos de trigo, em farinha, em pão. A foice na mão, os canudos de cana na outra mão, os gestos repetidos, sem cansaço, sem reclamação, vergando as espinhas, mas não a dignidade" (p. 171). O neo-realismo teve o seu tempo, mas neste tempo, que é o nosso, por que razão teria o romance que se encerrar em torre de marfim, ignorando a sorte dos explorados? Não cedendo ao panfleto, Carlos Campaniço faz questão, no entanto, de colocar o seu rufia em perspectiva, com "uma multidão de homens e mulheres (...) amarrados às espigas (...), vergando as espinhas, mas não a dignidade" como pano de fundo. Se o herói do romance é, na verdade, um anti-herói que "verga" a dignidade para não ser mais um "escravo destes campos", não há ambiguidade quanto ao papel desta multidão, que apenas verga a espinha. Neste contexto, a personagem Homero Dente d'Alho, tio de Firmino (Dom Rufia) é a que revela autêntica consciência política, aliada à integridade do carácter. É dele o seguinte libelo, retirado do capítulo em que resume a vida do sobrinho, a pedido das viúvas e respectivos parentes: "ele nasceu e cresceu nesta família humilde, que não teve hipóteses de lhe dar outra vida. Nunca aceitou tal condição. Jurou não se deixar escravizar pelos donos destes campos, que obrigam um homem a trabalhar de sol a sol para ganhar o que mal dá para pagar um pão" (256). Com As Viúvas de Dom Rufia, Carlos Campaniço afirma-se, sem dúvida e sem favor, como um dos nomes cimeiros da ficção portuguesa contemporânea. É de saudar que o faça não se alheando das circunstâncias da sua terra e do seu tempo. (Este comentário encontra-se aqui: http://tambemdeesquerda.blogs.sapo.pt/as-viuvas-de-dom-rufia-na-esteira-dos-65444

SOBRE O AUTOR

Carlos Campaniço

Carlos Campaniço nasceu na aldeia de Safara, no concelho de Moura. Aí viveu até ingressar na universidade, onde cursou Línguas e Literaturas Modernas. É também mestre em Culturas Árabe e Islâmica e o Mediterrâneo, tendo obra publicada sobre a matéria.
Profissionalmente, é programador artístico.
Publicou vários romances desde 2007, entre eles: Os Demónios de Álvaro Cobra (Vencedor do Prémio Literário Cidade de Almada), Mal Nascer (Finalista do Prémio LeYa e vencedor do Prémio Mais Literatura promovido pela revista Mais Alentejo), As Viúvas de Dom Rufia, Velhos Lobos e agora A Cinco Palmos dos Olhos.

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