Natalia Ginzburg
Passou grande parte da vida em Turim, para onde o pai, professor universitário de Anatomia, foi transferido em 1919. Tanto ele como os irmãos de origem judaica foram presos e acusados devido às suas ideias antifascistas.
Apesar de a sua mãe ser católica, Natalia teve, como toda a família, uma educação laica. Estudou no liceu Alfieri e publicou o seu primeiro livro de contos, I bambini, aos dezassete anos. Cinco anos mais tarde casou com Leone Ginzburg, professor de Literatura Russa. O casal manteve relações de amizade com Cesare Pavese e Carlo Levi, entre outros escritores.
Em 1940, exilaram-se em Pizzoli. Sob o pseudónimo Alessandra Tornimparte, Natalia publicou, em 1942, O Caminho da Cidade, que seria reeditado em 1945 já com autoria assumida.
O marido foi detido e torturado até à morte na Prisão de Regina Coeli em 1944. Nesse mesmo ano, Natalia Ginzburg deslocou-se para Roma, entretanto libertada, e começou a trabalhar na editora Einaudi, aí publicando os seus livros.
Em 1947, surgiu o seu segundo romance, Foi assim, que obteve ex aequo o prémio Due Cicogne — Il Tempo di Milano.
Em 1950, casa com Gabriele Baldini, especialista em Literatura Inglesa, de quem terá dois filhos.
Em 1961, publica As Palavras da Noite, que será adaptado ao cinema. Dois anos depois, sai Léxico Familiar, uma novela autobiográfica. Interpreta o papel de Maria de Betânia em Evangelho segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini.
A partir do final da década de sessenta, publica vários livros, todos eles abordando relações familiares. Natalia Ginzburg foi também autora de várias comédias teatrais e tradutora de Proust, Flaubert e Maupassant.
Foi eleita para o parlamento italiano em 1983.
Morreu a 7 de outubro de 1991.
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ENTRE MERGULHOS
O verão convida a abrandar o ritmo e a recuperar o prazer de ler sem pressa. Entre um mergulho, uma caminhada ou uma tarde à sombra, nem sempre apetece começar uma leitura longa. Estas cinco sugestões provam que um romance breve ou uma coletânea de contos podem oferecer uma experiência literária tão rica quanto qualquer obra de maior fôlego. Livros para começar e, com sorte, terminar antes do próximo mergulho. O Vento que Arrasa, de Selva Almada Bastam quatro personagens e uma avaria no automóvel para que Selva Almada construa, em O Vento que Arrasa, um romance onde quase tudo acontece nas entrelinhas. Um pastor evangélico e a filha ficam retidos numa oficina isolada. É aí que conhecem um mecânico e o jovem que o ajuda. O enredo parece simples, mas cada conversa altera discretamente as relações entre eles, revelando diferentes formas de ver o mundo. Almada escreve com uma economia impressionante. Evita explicações psicológicas e transforma a paisagem numa extensão do conflito entre as personagens. O calor avassalador, entrecortado por tempestades repentinas, não serve apenas de cenário, molda o ritmo e a intensidade narrativa. Ao contrário de romances que dependem de reviravoltas constantes, este vive da expectativa e da tensão acumulada. Há qualquer coisa de teatral na forma como aquelas pessoas permanecem confinadas ao mesmo espaço, obrigadas a confrontar-se sem nunca dizerem tudo o que pensam. O resultado é um livro que continua a ressoar depois de fechado, com ecos de Juan Rulfo na escrita depurada e de Flannery O'Connor na forma como o fervor religioso e a ambiguidade moral são explorados. COMPRO NA WOOK! » Amok, de Stefan Zweig Poucos escritores dominaram tão bem a novela psicológica como Stefan Zweig. Em Amok, um encontro fortuito desencadeia uma obsessão capaz de consumir uma vida inteira. Em pouco mais de oitenta páginas, um médico recorda o momento em que recusou ajudar uma mulher e a forma como essa decisão moldou o seu destino. A narrativa assume a forma de uma longa confissão em que o protagonista procura compreender o impulso que o conduziu à ruína. Sem nos apercebermos, entramos com ele numa espiral psicológica em que culpa, desejo, orgulho e arrependimento se confundem até se tornarem indistinguíveis. O título da novela remete para um estado de descontrolo descrito em algumas culturas do Sudeste Asiático, mas Zweig sugere que qualquer ser humano pode ser arrastado por essa corrida cega. O autor interessa-se menos pelos acontecimentos exteriores do que pela forma como a mente os amplia, recusando julgamentos fáceis sobre as suas personagens e privilegiando as zonas mais ambíguas da condição humana. Se, por um lado, O Vento que Arrasa encontra tensão naquilo que as personagens calam, Amok vive da impossibilidade de conter aquilo que as consome. COMPRO NA WOOK! » Léxico Familiar, de Natalia Ginzburg À primeira vista, Léxico Familiar parece limitar-se ao quotidiano de uma família italiana. A partir de conversas, expressões repetidas e pequenas memórias que, isoladamente, poderiam parecer insignificantes, Natalia Ginzburg constrói um dos retratos familiares mais marcantes do século XX. À medida que acompanhamos esta família, a Itália atravessa o fascismo, a guerra e a reconstrução do pós-guerra, mas Ginzburg nunca transforma esses acontecimentos no centro da narrativa. Opta por observá-los a partir da vida doméstica, mostrando como a História se infiltra na linguagem de todos os dias. As palavras que cada membro da família repete acabam por formar uma espécie de património comum que preserva um mundo que o tempo já levou. A escrita é de uma simplicidade aparente. Sem dramatizar nem ceder à nostalgia, o livro encontra um equilíbrio raro entre o humor e a melancolia, deixando que as personagens e as suas vozes revelem, por si mesmas, a passagem do tempo. O resultado é um romance breve que mostra como a história de uma família pode conter, em miniatura, a história de um país inteiro. COMPRO NA WOOK! » Canção do Profeta, de Paul Lynch Em Canção do Profeta, Paul Lynch não procura explicar como nasce um regime autoritário, prefere focar-se no que acontece às pessoas quando a liberdade começa a desaparecer. Depois de o marido ser detido pelas forças de segurança do Estado, Eilish Stack tenta manter a normalidade da vida familiar enquanto o país à sua volta mergulha numa espiral de repressão. O romance nunca se apresenta como uma distopia convencional. Mais do que explicar as causas do colapso político, interessa-lhe sobretudo revelar o seu impacto sobre quem continua a ter de levar os filhos à escola ou esperar por alguém que talvez nunca regresse. Tal como em Léxico Familiar, é essa redução da grande História à escala doméstica que confere ao romance uma força invulgar. A escrita de Lynch é asfixiante. As frases prolongam-se, quase sem descanso, obrigando-nos a partilhar a ansiedade da protagonista. Daí nasce uma leitura claustrofóbica, que avança como se também ela estivesse a perder o ar. Apesar da sua brevidade, o romance acompanha a rápida desagregação de uma família e de uma sociedade, deixando no leitor a sensação de ter percorrido um longo caminho ao lado de Eilish. É essa capacidade de concentrar uma transformação tão profunda em poucas páginas que faz de Canção do Profeta um exemplo notável de como a intensidade de uma leitura raramente depende da extensão. COMPRO NA WOOK! » Nove Contos, de J. D. Salinger Um Dia Ideal para o Peixe-Banana é um dos contos mais perfeitos que li na vida. Somos apresentados a Seymour, o mais velho dos irmãos Glass, uma família a que Salinger regressaria em vários contos e novelas. Numa ida à praia, Seymour conhece Sybil Carpenter, uma menina com quem estabelece uma conversa simultaneamente ingénua e inquietante. É através desse diálogo, à primeira vista banal, que Salinger concentra toda a tensão do conto, conduzindo o leitor a um desfecho trágico que continua a surpreender, mais de setenta anos após a sua publicação. Embora esse seja, para mim, o ponto mais alto da coletânea, Nove Contos mantém um nível de consistência raro. Publicados originalmente na The New Yorker, os contos abordam temas como o trauma da guerra em Para Esmé - com Amor e Sordidez, a dificuldade de comunicação entre adultos e crianças em Em Baixo no Bote ou a procura de sentido espiritual em Teddy. As nove histórias revelam, cada uma à sua maneira, a extraordinária capacidade de Salinger para construir personagens memoráveis em poucas páginas e confiar no leitor para descobrir aquilo que permanece por dizer. COMPRO NA WOOK! »
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NAS PALAVRAS DELAS
Ler algumas escritoras é perceber que a literatura pode ser íntima e política ao mesmo tempo, delicada e feroz, profundamente humana e ainda assim inquietante. Alba de Céspedes, Virginie Despentes, Camila Sosa Villada e Natalia Ginzburg inspiram-me por razões diferentes, mas há algo que as une: a coragem de olhar para a experiência das mulheres, e para as margens da sociedade, sem enfeites, sem concessões e sem medo. Nas Palavras Dela, de Alba de Céspedes Em Nas Palavras Dela, Alba de Céspedes dá-nos uma escrita profundamente atenta à interioridade feminina, às contradições do amor, do casamento, da família e da liberdade. É um romance que mergulha no modo como tantas mulheres foram ensinadas a viver em função dos outros, mesmo quando dentro de si cresce um desejo de rutura, de autonomia e de verdade. O que mais me inspira nesta obra é precisamente a capacidade de nomear o que tantas vezes fica oculto, como os silêncios, as renúncias ou os conflitos íntimos. Alba de Céspedes escreve mulheres com lucidez, sem simplificações, e lembra-me sempre que a literatura pode ser um lugar de consciência e de insubmissão.
A infância de Alessandra, em Roma, é marcada pela lenda dolorosa da mãe, Eleonora, mulher prodigiosa que sonhava ser uma pianista célebre, mas cuja sensibilidade artística acaba esmagada pela estreiteza da vida doméstica, pelas convenções familiares e por uma ordem social que confunde sacrifício com virtude. A história de Alessandra nasce, assim, sob o signo dessa figura materna simultaneamente luminosa e ferida. Uma mulher que encarna tudo aquilo que poderia ter sido e que não lhe foi permitido ser. Ao acompanhar o crescimento da protagonista, o romance torna-se também uma educação sentimental e política, na qual a intimidade da casa e as frustrações revelam a violência discreta de um mundo construído contra a liberdade feminina. COMPRO NA WOOK! » Teoria King Kong, de Virginie Despentes Teoria King Kong, de Virginie Despentes, inspira-me de uma maneira diferente. É um livro que entra sem pedir licença e que desmonta discursos confortáveis sobre violação, prostituição, pornografia, feminilidade e poder. Despentes escreve com fúria, frontalidade e inteligência, recusando a ideia de que uma mulher tem de ser dócil para ser escutada. Gosto particularmente deste ensaio porque não procura agradar nem suavizar o desconforto e obriga-nos, isso sim, a repensar tudo aquilo que a sociedade prefere manter bem arrumado.
A força do livro vem também do seu cunho assumidamente pessoal, autobiográfico e violento. Despentes não escreve a partir de uma abstração teórica, mas a partir do próprio corpo, da própria experiência e das suas zonas mais expostas. Fala da violação que sofreu, da passagem pela prostituição, da relação com o cinema pornográfico, da vergonha, da raiva, do medo e da forma como a sociedade organiza a culpa para a devolver quase sempre às mulheres. O que torna Teoria King Kong tão perturbador é precisamente essa recusa em transformar a ferida em ornamento literário ou em confissão domesticada. Despentes converte a experiência brutal em pensamento crítico, fazendo da autobiografia uma arma contra a moral burguesa, contra a vitimização higienizada e contra todas as formas de obediência impostas ao feminino. COMPRO NA WOOK! » As Malditas, de Camila Sosa Villada Em As Malditas, de Camila Sosa Villada, encontro uma escrita que é brutal e luminosa. O livro cruza memória, violência, sobrevivência e imaginação, dando corpo a vidas que tantas vezes foram empurradas para a margem. O que me inspira aqui é a forma como a autora transforma dor e exclusão em literatura viva, feroz e bela. Há neste livro uma força quase mítica, mas também uma humanidade devastadora, que faz com que cada página pareça um gesto de resistência.
No seu ADN convergem as duas facetas do mundo trans que mais repelem e assustam a boa sociedade: a fúria travesti e a festa de ser travesti. Camila Sosa Villada explora, em concreto, a infância marcada pela violência, pela vergonha e pelo desejo de fuga, mas também a entrada num universo de pertença, de comunidade e de reinvenção. A obra é um relato de infância e um ritual de iniciação, um conto de fadas e um conto de terror, memória íntima e mitologia coletiva. As mulheres que habitam o livro surgem como figuras feridas e soberanas, expostas à brutalidade do mundo e, ainda assim, capazes de criar laços, linguagens, maternidades improváveis e formas exuberantes de alegria. É nessa tensão entre desamparo e esplendor que o livro encontra a sua grandeza. COMPRO NA WOOK! » As pequenas virtudes, de Natalia Ginzburg As pequenas virtudes, de Natalia Ginzburg, lembra-me que nem sempre é preciso levantar a voz para dizer o essencial. Neste conjunto de textos, Ginzburg escreve sobre a vida, a família, a educação, a pobreza, a guerra, a maternidade e a escrita com uma clareza desarmante. O que mais me inspira nela é essa lucidez sem pose, essa capacidade de encontrar grandeza no quotidiano e de transformar experiências aparentemente pequenas em pensamento duradouro. Há uma sabedoria limpa e serena na sua escrita que me comove sempre.
Estes são ensaios autobiográficos, embora nunca se fechem no mero relato pessoal. Em Ginzburg, a memória individual torna-se uma forma de pensar o século, a perda, a educação moral e a sobrevivência. Durante o governo de Mussolini, viveu retirada no campo, com o marido, num quotidiano atravessado pela precariedade, pela vigilância e pela sombra da guerra, experiência que atravessa a sua escrita com uma sobriedade quase ascética. Num texto como “Ele e Eu”, por exemplo, a autora parte da vida conjugal, das diferenças de temperamento, dos hábitos, das pequenas irritações e ternuras entre duas pessoas, para construir uma reflexão de extraordinária finura sobre o amor e a convivência. O que poderia parecer apenas doméstico ou menor torna-se, nas suas mãos, matéria literária de densidade. COMPRO NA WOOK! » No fundo, estas escritoras inspiram-me porque cada uma, à sua maneira, recusa o lugar que lhe foi previamente atribuído. Alba de Céspedes fala da condição feminina com profundidade e subtileza, Virginie Despentes escreve com a raiva de quem não aceita ser domesticada, Camila Sosa Villada devolve beleza e dignidade a vidas que o mundo insiste em desumanizar; Natalia Ginzburg mostra-nos que a delicadeza também pode ser radical. Ler estas mulheres é, para mim, uma forma de regressar àquilo que a literatura tem de mais poderoso, a possibilidade de ver melhor e de sair diferente de uma leitura.