Novo livro de António Damásio

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24 de outubro de 2017
António Damásio
Capa do novo livro de António Damásio
INÍCIOS
O presente livro tem a ver com um interesse e uma ideia. Há muito que me interesso pelos afetos humanos, o mundo das emoções e dos sentimentos, e que os investigo - como e porquê nos emocionamos e sentimos, como usamos os sentimentos para construir as nossas personalidades, como os sentimentos ajudam ou prejudicam as nossas melhores intenções, como e porquê o cérebro interage com o corpo em apoio dessas funções. Disponho hoje de novos factos e interpretações sobre essas perguntas que gostaria de partilhar com o leitor.
Quanto à ideia, é enganadoramente simples: os sentimentos ainda não receberam o apreço que merecem como motivadores e negociadores da grande empresa cultural humana. Os seres humanos distinguiram-se de todos os outros seres ao criarem espantosas coleções de objetos, práticas e ideias, conhecidas coletivamente como «culturas». Nelas se incluem as artes, o inquérito filosófico, os sistemas morais e as crenças religiosas, a justiça, os sistemas governativos e as instituições económicas, a tecnologia e a ciência. Como e porquê teve início este processo? Uma resposta frequente a esta pergunta invoca uma faculdade importante da mente humana - a linguagem verbal - a par de outras caraterísticas notáveis, como a sociabilidade intensa e um intelecto superior. Não tenho quaisquer dúvidas de que a capacidade intelectual, a sociabilidade e a linguagem desempenharam papéis fundamentais no processo, mas julgo que terá sido preciso algo mais para dar início à saga das culturas humanas. Esse «algo mais» foi um motivo poderoso. Estou a referir-me especificamente aos sentimentos, desde a dor e o sofrimento ao bem-estar e ao prazer. Para pôr a claro a ideia, pensemos na medicina, um dos mais significativos empreendimentos culturais. A combinação de ciência e tecnologia que deu origem à medicina teve início como resposta à dor e ao sofrimento provocados por toda a espécie de doenças, desde os traumatismos físicos às infecções e ao cancro, como um meio de substituir dor e sofrimento por bem-estar e possibilidade de desenvolvimento A medicina não começou como desporto intelectual destinado a estimular a nossa capacidade de fazer diagnósticos difíceis ou resolver mistérios da fisiologia. Começou simplesmente como consequência dos sentimentos específicos dos pacientes e dos sentimentos que a situação desses doentes provocou nos primeiros médicos, nomeadamente a compaixão nascida da empatia. Tais motivos ainda hoje perduram. Imagino que todos os leitores se terão apercebido de como as visitas ao dentista e os procedimentos cirúrgicos têm vindo a melhorar ao longo da nossa vida. O motivo principal por detrás de melhorias, tais como anestésicos eficazes e os instrumentos precisos, é a redução dos sentimentos de desconforto. A atividade dos engenheiros e dos cientistas desempenha um papel louvável neste processo, e tem a sua própria lista de motivos. A busca de lucro por parte das indústrias farmacêuticas e da instrumentação também desempenha um papel importante, pois o público precisa de reduzir o sofrimento e as indústrias respondem a essa necessidade. A procura do lucro é alimentada por vários anseios, como sejam o desejo de progresso, de prestígio e a ganância, mas todos esses anseios são, antes de mais, sentimentos. Não é possível compreender o esforço imenso despendido para desenvolver curas para o cancro ou para a doença de Alzheimer sem ter em conta os sentimentos como motivadores e negociadores do processo (também não é possível compreender o menor esforço das culturas ocidentais na procura de uma cura para a malária, em África, ou do controlo da toxicodependência, um pouco por toda a parte, sem ter em conta os respetivos sentimentos que as têm inibido). A linguagem, a sociabilidade, o conhecimento e o raciocínio são, por certo, os principais inventores e os executores dessas realizações, mas os sentimento motivam-nas, permanecem em cena para que possam avaliar os resultados e ajudam a negociar os ajustamentos necessários.
A ideia, na sua essência, é que a atividade cultural teve início nos sentimentos e dele continua a depender. Se quisermos compreender os conflitos e as contradições da condição humana, precisamos de reconhecer a interação, tanto favorável como desfavorável, entre sentimento e raciocínio.


António Damásio
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