Quando a arte gráfica da capa fala com as histórias

Por Álvaro Curia/ Ludgero Cardoso
@literacidades
23 de fevereiro de 2023
Muitas vezes ouvimos dizer que não se deve julgar um livro pela capa. Mas, vamos ser honestos, já todos comprámos um livro pelo facto de a capa nos ter chamado a atenção. E por que não? Afinal, a capa de um livro é também uma forma de arte, uma interpretação visual do conteúdo da obra. Já nos tínhamos debruçado sobre este assunto num texto anterior. Mas hoje falamos apenas de capas deslumbrantes, autênticas obras de arte.

 
Outra Vida para Viver
Outra Vida para Viver de Theodor Kallifatides chamou-nos pelas cores usadas na capa, que contrastam com a placidez desta face, que nos remete para a estatuária grega. Trata-se de uma obra reflexiva, que nos leva a questionar o significado da vida e o valor do tempo que nos é dado. Através da narrativa, acompanhamos a jornada do autor em busca de respostas para algumas das questões mais fundamentais da existência humana. A escrita de Kallifatides transporta-nos para um mundo de memórias, experiências e reflexões, que nos levam a pensar sobre a vida e a morte, o amor e a perda, a fé e a esperança. Questionamo-nos sobre o que fazemos com o nosso tempo, se estamos a viver a vida que desejamos ou simplesmente a deixar os dias passarem. O livro é uma ode à vida e uma celebração da importância de aproveitarmos ao máximo cada momento. Kallifatides consegue transmitir uma mensagem poderosa, que ressoa nos nossos corações e nos leva a refletir sobre a passagem do tempo. É uma obra que deve ser lida por todos aqueles que procuram uma compreensão mais profunda da existência humana e da sua própria jornada pessoal.
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Faísca
Não se consegue ficar indiferente à doçura vulnerável do olhar deste cãozinho. Mal os nossos olhos se cruzaram com os dele, sabíamos que tínhamos de levar este livro silencioso connosco. Faísca, de Guojing, é uma obra que nos leva a explorar as complexidades do amor e da vida numa narrativa visualmente deslumbrante. Através das personagens Faísca e Cristal, somos transportados para um mundo de sentimentos profundos, entre o abandono, a perda e o amparo. A história é contada de forma simples, sem palavras, com traços elegantes e expressivos que nos deliciam. O enredo leva-nos a acompanhar a busca de Faísca pelo amor verdadeiro e a sua luta para encontrar um lugar no mundo, mesmo quando as coisas parecem estar contra ele. Guojing mostra-nos, de forma tão simples, como o amor pode ser uma força poderosa que nos move e nos transforma, e como a vida pode ser surpreendente e cheia de desafios. É uma história que fala diretamente ao coração, tocando temas universais como a amizade, a solidão, a esperança e a perseverança.
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Que a Vida Nos Oiça
Não chegou às livrarias há muito tempo. Mas esta capa… como era possível não a querermos ter em casa? É tanto o que nos passa a expressão desta mulher que, se o livro for assim intenso, só pode ser uma história que vale a pena. Que a Vida nos Oiça, de Vicente Alves do Ó, apresenta-se como «uma história contra o esquecimento; uma verdade para lá da memória». E neste romance temos um filho que recebe uma das notícias mais tristes que uma mãe pode dar. Conta-lhe que sofre de Alzheimer e, por isso, mais cedo ou mais tarde a sua capacidade cognitiva e as suas memórias serão duramente afetadas. Vasco, o filho, que é realizador de cinema, pensa logo em realizar um filme sobre a vida da sua mãe, algo onde esta se possa de certa forma ancorar para quando a sua memória começar a ceder. É uma ideia belíssima. Mas ao pesquisar mais sobre a vida da sua progenitora, Vasco descobre uma história que estava escondida e que vai pôr em causa aquilo que ele sabe sobre si próprio. As fronteiras da verdade e da ficção confundem-se, num jogo que nos devolve uma história plena, onde os laços de família e a iminência de uma transformação profunda conversam de mão dada.
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O perigo de estar no meu perfeito juízo
É tudo de bom, uma capa onde temos sorrisos de crianças felizes. Mais ainda quando uma delas está claramente a divertir-se mais do que as outras. O perigo de estar no meu perfeito juízo, de Rosa Montero, leva-nos numa viagem fascinante pelo mundo interior da autora. Através das suas memórias e reflexões, Rosa Montero apresenta-nos um retrato vívido da sua própria vida e das suas lutas para encontrar sentido num mundo que muitas vezes parece hostil. «Sempre soube que na minha cabeça alguma coisa não funcionava muito bem», avisa-nos. E, a partir daqui, rédea solta para os seus próprios devaneios. Seguindo um caminho já iniciado no livro A Louca da Casa, estamos perante mentes «loucas» e «estranhas», que se dedicam a essa arte que é a escrita. Diz-nos a autora que essas pessoas transformaram o sofrimento em literatura, e que há por isso uma beleza resultante dos dramas humanos. É um livro que realiza uma mescla entre ficção e não ficção, tendo como resultado uma obra que nos deixa de bom humor, embora aborde assuntos e situações muito sérias. Afinal, falamos de Rosa Montero.
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