Poemas de Sérgio Godinho

Do novo livro Palavras São Imagens São Palavras
17 de janeiro de 2020
GATA À PORTA

Eu peço encarecidamente
mas odeio que me ignorem
foi sincero o que pedi.
Espero de volta
a generosidade
a porta aberta
toda a sala
e quem sabe um afago.
Senão enfureço.
Anjos e demónios
Nasceram da mesma mãe.






LOMBADAS

A lombada resiste forte
à sua dissolução.

Mesmo aqueles que não se leu
a memória vem na lombada dos livros.
Os reconhecidos, os da descoberta,
os esquecidos.
Há que ler de novo
epifania e ricochete
o correr do tempo.

A memória abarca toda a vida das lombadas
de um lado ao outro, oblíquo tal qual se lê.
A direcção que leva o vento
traz a leitura e o seu trilho de volta.

Qual foi o herói desta trama,
o que ganhou e o que perdeu?
Em que lugar ficou hoje a página trinta?
Quer-se pergunta assim banal.

Tudo o que se imagina
não está certo nem errado.
Na lombada dos livros
há notas invisíveis de rodapé
prenunciadas
previstas imprevistas
são apenas
são notas de rodapé.

Quer-se saber:
por quanto tempo resiste o propósito do livro
ao seu exterior
temporariamente mais firme?
E que lombada resiste à transmutação do escrito?
Da confusão dos géneros, dos múltiplos narradores
dos pontos de vista tão conflituosos
onde se elege uma só voz?
Que vozes trazem a si a essência da voz?
Do que é visto para dentro das lombadas
tantas imagens se soltam
castas e excessivas
vão pousar no nosso ombro
quero que pousem e recebam.

Não se imagina que direção
leva o vento na leitura.



Sérgio Godinho, Palavras São Imagens São Palavras

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