Os melhores livros de 2021

Por Ana Bárbara Pedrosa
17 de janeiro de 2020
A chegar ao fim de 2021, podemos olhar para trás. Publicou-se muita coisa boa. Mas o que se publicou de ótimo?


TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA
Podemos começar à moda antiga. É novidade, mas não é bem novidade. A notícia da edição da coleção de clássicos da Penguin foi recebida com entusiasmo em Portugal, e ainda por cima estreou-se em grande. Que maravilha é vermos chegar o Triste Fim de Policarpo Quaresma a Portugal. A ação ambienta-se no final do século XIX e a figura de Policarpo é imbatível: inteligente, sarcástico, contundente, apanhado nas convulsões da época. Metade razão, quase todo fanatismo. O major Policarpo é um fanático do Brasil. Nacionalista convicto, despreza o que vem de fora. Exubera-se na sua paixão, mas o leitor só vê fixação. Não bastasse e os seus planos gloriosos terminam sempre em desastre.
Ao longo da leitura, oscila-se entre humor e drama, e o tom de paródia de Policarpo é coisa que não é para todos. Aos outros provoca desdém; a nós, diverte.
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A MORTE DE JESUS
Assim Coetzee encerra a trilogia que começou com A Infância de Jesus e continuou com Jesus na Escola. Não é claro se isto se trata de um evangelho distópico ou da história de um rapaz peculiar. Ao longo da leitura, o leitor debate-se com a simbologia presente em cada página: terá sido dado a David um sentido que não tinha, uma simbologia que lhe reenquadrasse as intenções?
O título engana e orienta em simultâneo. O protagonista não é Jesus, mas a metáfora funciona. Os três romances focam-se em David, criança que ninguém sabe de onde vem e ninguém ousa saber para onde vai. Há um quê messiânico em torno de si, já que, ao longo do romance, se fala de uma mensagem que David teria para transmitir. Todos se transtornam, mas ninguém a ouve. Não se sabe sequer se tudo não passará de fantasia de criança, já que tudo parece carregado de sentido. Só que ninguém sabe bem qual.
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THE SHINING
É o mais badalado dos livros de Stephen King. Aqui, Jack Torrence é contratado para fazer a manutenção de um hotel remoto em pleno Inverno, no Colorado. Muda-se para lá com a esposa e o filho. O trabalho parece fácil e rápido, deixando a Jack tempo para se dedicar ao livro que está a escrever. Por sua vez, o cenário parece agradável, mas, como foi traçado por Stephen King, já se sabe que a coisa dá para o torto.
Quando lá chegam, já há um substrato de violência. O pai luta contra o alcoolismo e a mãe culpa-o por ter partido o braço ao filho. Ali chegados, Jack confronta-se consigo mesmo. A neve cai lá fora, o hotel está isolado, não há como fugir. A solidão enclausura-o na família que o condena.
Há um tom de sobrenatural que sugere que é o hotel a ter efeito em Jack, mas tudo ali sabe a coisa mal resolvida. Jack sofreu violência, ficou violentado e estragado. Exerceu violência, estragou o que tinha à volta. A solidão atingiu-o e foi forçado a olhar para si pelos olhos da família.
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INSTINTO
Instinto é quase impossível de largar. Só a premissa incomoda: uma mãe que odeia a filha. Ao longo da leitura, só há tensão. Não se entende se a criança é diabólica, se a mãe a diaboliza. Por momentos, parece que são os outros que são incapazes de ouvir as queixas da adulta, de cogitar a crueldade numa criança pequena. Noutros, parece que é a mãe que vê o que não existe. Não se entende quem odeia quem, quem culpa quem, quem engana quem. A mãe insiste nas más intenções da filha, escrutinando-lhe os gestos, analisando-os de perto e à distância. A dada altura, o leitor nem sabe se esses gestos existiram.
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