Numa escala de 1 a 10, estes livros são um 11

Por Ana Bárbara Pedrosa
7 de junho de 2024
Bom é ter uma expectativa e que a expectativa seja nada face ao que se recebe. Aqui, mostramos a escala rebentada. Aqui vão uns livros que batem tudo.
O sentido do fim
É que chega-se ao fim desnorteado com o sentido. Barnes é um dos grandes – e este portento é um dos seus maiores. Quem o lê jamais o esquece, e fica a pensar nele muito tempo. O trabalho de arquitetura textual é de tal forma depurado, cirúrgico, que parece um círculo perfeito. Em Barnes, tudo é sublime, não há uma única frase que saiba a ruga ou a pedra na calçada. Aqui temos bocados da história de Tony Webster, que conhecera Adrian Finn no fim do liceu. Juntos, viveram a adolescência, as descobertas da literatura e da cama, a pressa de quem tem o futuro à frente. As décadas passaram, Tony está reformado. Para trás, ficou o passado que lhe parece estanque, a direito. E, finda a história, lá se percebe que a memória escolhe o que guardar. O choque que daí chega é tão dele quanto nosso. E até deu origem a um filme de cinema.
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Não me esqueças
Demolidor. Em banda desenhada, conta-se a história de uma família que não se perdeu para a memória. Para a avó de Clémence, a partir de uma certa altura, a cabeça fez-se nuvem – e uma nuvem de histórias esquecidas. A doença de Alzheimer chegou e, a partir desse momento, para uma e para outra, a vida foi outra coisa. A Clémence, cabe lembrar – e lembrar quem já esqueceu. A neta decide tirar a avó do lar e procurar a casa da sua infância. O leitor acompanha-a, enquanto sabe que aquela vida já tem sabor de despedida. É que, mesmo que o Alzheimer dure décadas, cada momento vivido é um adeus lento ao que se foi. Trocam-se os papéis, e eis a neta a guiar a avó pela mão, pela vida, pelo que houve. A vida não deixou de ter sido vivida só por se ter esquecido tanto. É que Clémence ainda se lembra e, para ela, a avó ainda é quem foi.
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O homem duplicado
A premissa podia ser saramaguiana, mas o tema já encantara outros antes. O mais conhecido será O Duplo, de Dostoievski. Como em O Homem Duplicado, o escritor russo mostrou a vida de alguém que encontrou um seu igual. Ao invés de flores, alegrias e mãos dadas, o confronto com a não-unicidade levou-o aos arames. Aqui, temos obsessão igual, desta feita a de Tertuliano Máximo Afonso. A vida deste homem contrasta com o nome: vida vulgar contra nome tão invulgar. Professor de História no ensino secundário, aborrece-se com a vida. Casou quase porque sim, divorciou-se perguntando-se porque não. Ensinar História – pudera – já lhe sabe a coisa repetida. Um dia, lá lhe acontece qualquer coisa. Ora, qualquer coisa, seja boa ou má, já não é coisa pouca para quem não vê nada acontecer. Ao ver televisão, Tertuliano viu um homem igual a si. Tão igual que era igualzinho. Sem mais nada que fazer da vida, começou a procurar o sósia. O leitor procura-o com ele, alimentando-se já da mesma obsessão insana.
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Pedro Alecrim
Os cachopos também merecem livros que rebentam a escala. E para dar cabo dela não há melhor do que António Mota. O pequeno leitor abre o livro e vê-se a viver a vida de Pedro, em tanto a si semelhante, em tanto diferente de si. Vive no Pragal, com os pais e os irmãos. Os seus dias têm 24 horas como os nossos, e dão para ir à escola (anda no sexto ano) e trabalhar no campo para ajudar a família. Não é que adore a escola: não compreende tudo o que se passa nas aulas e também não tem tempo para estudar. Ainda consegue ter algum tempo livre, que costuma passar com o amigo Nicolau. A vida lá vai passando, sem grandes percalços, até ao dia em que o pai morre. A partir daí, muda-se o destino às coisas. O rapaz transtorna-se e quem o lê também.
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