«Natal, e não Dezembro»

Obra Poética reúne todos os livros e conjuntos de poemas organizados e publicados por David Mourão-Ferreira entre 1948-1995, incluindo o Cancioneiro de Natal, iniciado em 1960 e que o autor considerava uma «obra 'aberta' ou 'em suspenso'», e onde se insere este belíssimo poema.


No centro da sua obra, sempre a memória.
Natal, e não Dezembro

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.


David Mourão-Ferreira, Obra Poética

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