«Prelúdio de Natal»
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Um título imprescíndivel para qualquer leitor de poesia. 808 páginas de puro deleite do autor que um dia escreveu: «Gostaria de morrer de repente: / a meio de uma frase que nesse instante / estivesse a ler; ou a escrever.»
PRELÚDIO DE NATAL
Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas
só depois de rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas
a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas
A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas
E a multidão passava
E a chuva era tão fina
que parecia filtrada
de taças clandestinas
Finalmente chegava
triunfal em surdina
a noite convocada
em todas as esquinas
Mas não se derramava
como tinta-da-china
Na cidade acordada
já se ouviam matinas
David Mourão-Ferreira, 1967, Obra Poética
Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas
só depois de rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas
a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas
A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas
E a multidão passava
E a chuva era tão fina
que parecia filtrada
de taças clandestinas
Finalmente chegava
triunfal em surdina
a noite convocada
em todas as esquinas
Mas não se derramava
como tinta-da-china
Na cidade acordada
já se ouviam matinas
David Mourão-Ferreira, 1967, Obra Poética