Mortes emblemáticas em livros
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30 de janeiro de 2024
É engraçado como a literatura inventa a vida: não é preciso que alguém nasça para que a sua morte tenha impacto. Volta e meia, a morte de uma personagem aparece como um vendaval.
Santiago Nasar – Crónica de uma morte anunciada
É ficção, mas não é bem ficção, uma vez que García Márquez, ao invés de beber da vida, foi mesmo roubar a vida. O que aqui se conta – uma morte com aviso prévio – já tinha acontecido numa aldeia colombiana. Logo à cabeça, já sabemos que Santiago Nasar vai morrer, e isto é dito na primeira frase. O homem terá rejeitado uma mulher na noite de núpcias, ou pelo menos houve uma denúncia que fez com que os irmãos quisessem vingar-lhe a honra. Deu-se o anúncio do crime. Ninguém mexeu um dedo para o impedir. Ao invés de, aqui, querer colar as pistas, o narrador explora a história a ver se alguém entende que raio levou uma população inteira a deixar-se estar impávida, sem querer salvar o homem, sem se dar ao trabalho de um aviso.
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Portuga – O meu pé de laranja lima
Permitam-me chamar Portuga a Manuel Valadares. Também Zezé lho chamou, e eu fui Zezé durante 208 páginas. Quando o Portuga morreu, o miúdo sofreu o que não sabia ser possível sofrer – a morte como o amor arrancado, o fim da única ternura que tinha conhecido, da única garantia de bondade. É que um rapaz nasce no seio de uma família violenta, vive ali às portas da negligência, qualquer tropelia sua é paga com pancada – e depois chega-lhe uma cara que lhe vai dar outra coisa, outra vida. O contraste foi tal que Zezé até quis ser adotado. A morte do Portuga, às mãos de um comboio, soube à maior das crueldades – e crueldade maior é saber que José Mauro de Vaconcelos a foi roubar à vida. Roubou-a à sua vida, e à do Portuga que perdera em criança.
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Romeu e Julieta
Sempre que alguém dá este exemplo como uma boa história de amor, pergunto-me se alguma vez pegou em Shakespeare. Minto, não pergunto nada – sei que não. Quem leu Romeu e Julieta sabe que não há nada ali que valha a pena querer transportar para a vida. Não só o amor foi literalmente sol de pouca dura, ainda que tenha sido até que a morte separou aqueles dois, como o rápido fogo-fátuo levou às duas mortes mais escusadas da literatura inteira. Estes dois adolescentes não podiam ter sido menos dramáticos? Um não podia ter mesmo visto se o outro estava morto antes de se suicidar? O outro, acordando e vendo o seu amorzinho falecido, não podia ter feito outra coisa senão suicidar-se também? Esta gente enlouqueceu toda e ninguém chama o INEM? Eu sei que isto na juventude tem tudo mais intensidade, mas... vamos... com... mais... calma.
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Severus Snape – Harry Potter e os Talismãs da Morte
Esta ainda me custa a engolir porque, depois de tudo sabido sobre Snape, a morte roubou-nos o capítulo impossível. Depois de Snape ter fechado os olhos, e depois de Harry ter sabido quem era, afinal, aquele homem que odiara até ao último segundo, os pobres leitores, os leitores desgraçados, os leitores injustiçados – enfim, gente como eu –, limitaram-se ao triste consolo da cogitação. O que seria, naquele momento, uma conversa entre os dois? Harry odiou o homem durante anos e, depois da morte, deu o seu nome a um filho, considerando-o um dos homens mais corajosos que alguma vez conhecera. Severus Snape foi, na saga, cinzentismo puro – e aquela morte macaca soube a escuridão.
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