5 personagens que dão pena

Por Ana Bárbara Pedrosa
17 de janeiro de 2020
Volta e meia, olhamos para uma obra literária e só podemos compadecer-nos do que foi feito das personagens. Aqui vai uma lista de desgraçados que provocam pena a quem os lê.


 
CHARLES DE MADAME BOVARY
O homem é médico, dedicado, respeitado. Em suma, um bom partido. Ainda assim, quando lemos Madame Bovary não temos como deixar de sentir pena de Charles. Flaubert não brincou em serviço e fez uma das personagens mais inesquecíveis da literatura francesa, para que muito contribuiu o cliché da mulher adúltera aborrecida com a vida. O autor chegou a ser levado a julgamento pela obra, mas é do marido de Emma Bovary que temos pena. Por muito que se esforce, ela desencanta-se e cansa-se dele, e tenta encontrar vida noutro e depois noutro.
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WERTHER de A PAIXÃO DO JOVEM WERTHER
Alguém salve o Werther de si mesmo. Apaixonado por Lotte, meteu-se no modo epistolar e obcecou com ela. O leitor nem entende bem o que um homem com tanto amor para dar verá na insípida esposa de Albert. O casal lá se vai apercebendo da paixão que atormenta o jovem Werther, e dá para ter pena porque o amor se faz ridiculamente sofredor. O romance tem um tom levemente autobiográfico, mas Goethe soube dar à personagem o tom do absurdo amante que ama como pulsão. O leitor, por sua vez, compadece-se. Lotte parece corresponder a alguns sentimentos, embora esteja casada com outro homem. Cogita a sua vida com Albert, mas para Werther só interessa respirar se for por ela.
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LUÍSA DE O PRIMO BASÍLIO
O primo Basílio dá título à obra, mas é por Luísa que sofremos. Eça de Queiroz entrava como ninguém nos lares burgueses, pegava na imagem idílica de uma vida perfeita e esventrava-lhe as bases estragadas. No romance, as personagens são protótipos de futilidade, e o casamento de Jorge com Luísa acaba por parecer o de Emma com Charles Bovary. Quando Jorge se ausenta, o primo de Luísa chega à cidade. Ela, sem ter que fazer, encanta-se com ele. O adultério transforma-se em paixão. O problema é que, para Basílio, Luísa é apenas um corpo de mulher e nem da sua morte se compadece.
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KARL OVE DE A MINHA LUTA
Karl Ove Knausgård é uma personagem de si mesmo. O autor é o nome maior da autoficção e, nos seis longos volumes de A Minha Luta, expõe-se como se não estivesse a ser visto. Enquanto o lemos, vemo-lo nu, e é difícil não ter pena de quem é visto sem roupa. O autor norueguês parece ter-se abstido da tarefa de agradar ao leitor, já que descreve momentos que o deixam em xeque moral e psicológico. Há que gabar o destravamento e a decisão de contar tudo a direito, sem excluir humilhações.
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RASKÓLNIKOV DE CRIME E CASTIGO
Como o homem é um assassino, talvez não devêssemos ter pena dele, o problema é que Dostoiévski nos põe na cabeça de Raskólnikov. O russo vive num quarto alugado, pequeno, que agrava a sua depressão. Mal alimentado e com frio, abalado emocional e financeiramente, acaba por matar uma velha à machadada. O crime é violento, o objetivo é sacar-lhe o dinheiro, e ainda com uma intenção filantropa. Se o crime é rápido, a angústia é lenta, e durante o livro de Dostoiévski vemos a batalha pela expiação.
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