Livros que tenho medo de reler

Madalena Sá Fernandes
13 de julho de 2026
Li certos livros numa idade em que tudo parecia mais intenso, mais definitivo e mais capaz de me transformar. Alguns livros chegaram cedo, na infância, outros encontraram-me na adolescência, quando uma frase sublinhada parecia uma revelação sobre a vida, sobre o amor, sobre a solidão ou sobre aquilo que eu queria ser.
Tenho medo de reler alguns destes livros, porque receio descobrir que já não me dizem o mesmo. Ou, pior ainda, que a pessoa que fui talvez os tenha amado por razões que hoje me parecem ingénuas. Mas reler um livro que se adorou é também voltar a uma versão antiga de nós próprios.
O Principezinho
O Principezinho, por exemplo, pertence à infância. É um clássico, um livro que parece simples quando o lemos pela primeira vez, mas que deixa uma marca difícil de explicar. Na altura, talvez eu não compreendesse todas as suas camadas: a solidão, a perda, a ternura, a crítica ao mundo adulto, mas havia alguma coisa naquele príncipe vindo de um planeta distante e naquelas ilustrações que me parecia absolutamente verdadeiro. Gostei dele porque falava numa linguagem que uma criança podia entender, mas sem nunca a tratar como se fosse pequena demais para sentir coisas grandes. Havia a raposa, a rosa, os planetas, os adultos estranhos e ocupados com assuntos que pareciam absurdos. E a ideia de que o essencial não se vê com os olhos, que talvez tenha sido uma das primeiras frases “adultas” que guardei sem a saber ainda interpretar totalmente.
Tenho medo de o reler porque é um livro muito rodeado de citações, de lugares-comuns, de frases repetidas até ao infinito. E confesso que sempre estranhei adultos que dizem que este é o seu livro preferido.
¿ Receio reencontrá-lo já contaminado por tudo isto. Mas também suspeito que, se o lesse de novo, talvez encontrasse nele outra coisa, possivelmente a melancolia de perceber que crescemos e nos tornámos, inevitavelmente, um pouco parecidos com aqueles adultos que o livro observava com estranheza.
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A Sombra do Vento
Na adolescência, A Sombra do Vento foi uma porta aberta para uma ideia muito romântica da literatura. Um livro sobre livros, sobre autores esquecidos, segredos antigos, ruas escuras, amores impossíveis e bibliotecas labirínticas. Havia em tudo aquilo uma atmosfera irresistível. Barcelona parecia uma cidade feita de nevoeiro e mistério. Adorei-o porque me fez sentir que os livros podiam ser lugares perigosos e sagrados ao mesmo tempo. O Cemitério dos Livros Esquecidos era exatamente o tipo de invenção literária que, naquela idade, parecia feita à medida de quem acreditava que ler era uma forma de destino. Havia uma intensidade gótica, um dramatismo envolvente, uma sensação de que cada personagem carregava uma ferida profunda e cada segredo podia mudar tudo.
¿ Tenho medo de o reler porque é possível que hoje me pareça excessivo, demasiado ornamentado, demasiado dependente de grandes revelações e paixões trágicas. Demasiado previsível, também. Mas esse excesso foi precisamente aquilo que me conquistou. Na adolescência, eu não queria contenção, queria livros que prometessem mistério, que transformassem a literatura num pacto secreto. A Sombra do Vento foi isso para mim.
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O Hobbit
O Hobbit chegou-me na adolescência como aventura em estado puro. Antes de qualquer leitura mais complexa sobre mundos fantásticos, mitologias inventadas ou grandes batalhas entre o bem e o mal, havia Bilbo Baggins a sair da sua toca confortável sem saber muito bem porquê. E encantou-me a ideia de que a aventura começa quando alguém perfeitamente comum é empurrado para fora da sua rotina.
¿ Adorei-o porque tinha dragões, anões, mapas, enigmas, florestas, montanhas e uma promessa constante de descoberta. Mas, acima de tudo, adorei Bilbo. Ele não era o herói óbvio, destemido e grandioso. Era hesitante, caseiro, prudente, muitas vezes assustado. Para uma pessoa adolescente, ainda a tentar perceber que tipo de coragem existe para lá da coragem espetacular, isso tinha qualquer coisa de reconfortante.
¿ Tenho medo de o reler porque talvez já não consiga recuperar esse primeiro espanto. Talvez hoje repare mais no ritmo, na estrutura, na distância entre o tom de conto infantil e a dimensão épica que depois associamos a Tolkien. Mas também é possível que O Hobbit continue a encantar-me.
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¿Demian
Demian
Demian é talvez o livro desta lista que mais associo à adolescência tardia e ao início da idade adulta. Foi daqueles livros que pareciam falar diretamente para uma zona secreta da identidade, a parte de mim que sentia que havia um mundo visível e outro subterrâneo, mais inquietante.
¿ Adorei-o, como adorei tudo o que li do Hermann Hesse por essa altura, porque me deu a sensação de que crescer era também romper com as versões obedientes de nós próprios. A história de Emil Sinclair, dividido entre luz e sombra, entre o mundo seguro da infância e um conhecimento mais obscuro, tinha uma força enorme nessa idade. Havia em Demian uma promessa de singularidade: a ideia de que cada pessoa tinha de encontrar o seu próprio caminho, mesmo que isso implicasse solidão e dúvida.
¿ Tenho medo de o reler porque a adolescência é muito disponível para livros que falam em destino, símbolo, abismo e descoberta interior. Hoje talvez eu encontrasse nele um tom demasiado solene ou excessivamente místico. Mas seria injusto esquecer que foi um livro que apareceu no momento certo, quando eu precisava de acreditar que a confusão também podia ser uma forma de crescimento.
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Capitães da Areia
Capitães da Areia marcou-me de outra forma. No início da adolescência, foi um livro que abriu uma janela para a injustiça, para a infância roubada, para a dureza social, mas também para a liberdade feroz de um grupo de crianças que vivia à margem. Havia uma mistura de ternura e brutalidade que me impressionou muito.
Adorei-o porque os seus personagens tinham nome, desejo, medo, raiva, lealdade, contradições. Eram crianças e, ao mesmo tempo, já tinham sido obrigadas a saber demasiado sobre o mundo. Pedro Bala e os outros ficaram-me na memória como figuras cheias de vida, mesmo quando a vida lhes dava tão pouco.
¿ Tenho medo de o reler porque talvez hoje o lesse com outras exigências, mais atenta ao contexto, à representação, às escolhas narrativas, ao modo como o romance constrói a sua denúncia social. Mas também acho que continuaria a reconhecer nele a força que me atingiu na adolescência e a descoberta de que a literatura podia ser bela sem ser confortável, e que um livro podia comover-nos ao mesmo tempo que nos obrigava a olhar para aquilo que preferiríamos ignorar.
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Acredito que o medo de reler estes livros seja, no fundo, o medo de perder uma memória. Não quero descobrir que já não os adoro da mesma maneira, porque a forma como os adorei faz parte da minha história. O Principezinho pertence à infância e à primeira intuição de que a ternura podia ser uma forma de sabedoria. A Sombra do Vento, O Hobbit, Demian e Capitães da Areia pertencem à adolescência, cada um com a sua espécie de revelação: o amor pelos livros, a aventura, a procura de identidade, a consciência da injustiça.
¿ Mas é possível que os livros que amámos muito não tenham de sobreviver intactos à releitura. Talvez possam mudar, diminuir em certos aspetos, crescer noutros, ou ocupar outro lugar. O encanto original pode não voltar, é certo. Mas pode aparecer uma nova forma de afecto, menos deslumbrada e mais consciente.
¿ Ainda assim, por agora, continuo a guardá-los no território delicado dos livros que tenho medo de reler. Sobretudo porque respeito demasiado a pessoa que os leu antes de mim.

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