Ler para compreender a vida na Palestina
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@literacidades
12 de agosto de 2024
Esta tem sido uma silly season atípica. Em vez de diretos das praias e dos aeroportos, as televisões estão ao vivo em cenários de guerra. A que acontece no Médio Oriente estende-se no tempo. Lemos três livros para tentar compreender o que é viver num território ocupado.
Um dia na vida de Abed Salama
Não sabíamos, quando pegámos neste livro para o ler, porque era uma obra de não ficção. Mais precisamente, um extenso ensaio jornalístico sobre a vida de uma criança e da sua família, particularmente o seu pai, nos territórios ocupados da Palestina. O filho de Abed Salama, Milad, sofre um acidente mortal quando viajava de autocarro, numa excursão escolar a um parque de diversões próximo de Jerusalém. Perante o desespero de um pai em busca de informações sobre o seu filho desaparecido, tece-se uma manta que ilustra o dia a dia de um cidadão no lado “errado” do muro que separa aquele território. É um autêntico “Processo” de Kafka da vida real. As informações são tão díspares ao ponto de, umas, darem Milad como vivo, outras, perdido e outras morto. É um livro altamente emocional, onde os obstáculos físicos, judiciais, morais, políticos, religiosos, se sobrepõem à dor do luto de um pai pelo seu filho.
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Filho do Hamas
O autor deste livro de não ficção é filho de um dos mais poderosos líderes do Hamas, que esteve na génese desta formação política e terrorista. Através de Mosab, estamos por dentro de todas as decisões, são reveladas informações que apenas após este testemunho veem a luz do dia. O próprio autor acaba por envolver-se na teia do partido e ser preso, tal como o seu pai. Aliás, quando escreve este livro, o pai de Mosab encontra-se preso numa cadeia israelita. Mas não fica por aqui. Posteriormente, Mosab torna-se espião pró-israelita, sendo alguém dentro das duas organizações, conhecedor dos dois lados do conflito. Ainda assim, claro que olhamos para o seu testemunho com o distanciamento devido, não lhe retirando nunca a veracidade ou, e foi disso que mais gostámos, a explicação histórica e estratégica de todos os poderes em jogo na região.
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Um detalhe menor
Estamos no terreno da ficção. Porém, este pequeno livro retrata a realidade, porventura, melhor do que pudéssemos crer. Falamos da realidade das mulheres nos territórios ocupados, das limitações à circulação, da política de cores distintivas de estatutos e de nos sentirmos reféns dentro da nossa cidade. Numa primeira parte, um grupo de soldados israelitas, em 1949, assassina uma adolescente em pleno deserto, após episódios muito vívidos de humilhação e violação. Mais tarde, já na atualidade, uma mulher palestiniana descobre esse assassinato e fica obcecada com a busca da verdade dos factos, encetando, para isso, uma busca que a leva até ao local do crime e cujo desfecho, ainda hoje nos persegue. Um livro onde o choque não acontece apenas pelo sensacionalismo, mas serve antes de exemplo de uma conjuntura onde, entre todos os lesados, os mais desprotegidos são quem mais sofre.
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