Hitler, o viciado

No dia 1 de setembro de 1939 teve início o maior e mais sangrento conflito do século XX. 80 anos volvidos, há factos importantes da Segunda Guerra Mundial que só agora se conhecem: entre eles, a elevada dependência de drogas da Alemanha nazi, que tinha no führer o maior dos aditos.
Norman Ohler, jornalista e escritor alemão, levou a cabo uma investigação meticulosa que nos dá uma perspetiva supreendente e inédita sobre este período negro.
Delírio Total
Delírio Total, Norman Ohler
Quando começamos a ler Delírio Total, de Norman Ohler, instigamo-nos se estamos perante uma narrativa inspirada na série televisiva Breaking Bad ou uma investigação séria, de cinco anos e com recurso a milhares de documentos históricos, sobre a elevada dependência de drogas da Alemanha nazi.

Ohler refaz o Terceiro Reich (1933-45) pelo prisma da toxicodependência, uma história perturbadora, cativante e, até agora, (praticamente) desconhecida.

Cocaína, heroína, morfina e sobretudo metanfetaminas. A ideia partiu do professor Ranke, que ao fazer testes antes da guerra concluiu que as pessoas que consumiam metanfetaminas conseguiam estar mais tempo ativas do que aquelas que não tomavam nada ou se restringiam ao café.
«Na verdade, a única droga que faz com que eu deixe de saber o que faço é o álcool. As outras drogas não afetam a nossa mente nesse sentido.»
A droga como arma

«São evidentes numa invasão as vantagens de um estimulante: a guerra desenrola-se no espaço e no tempo e a rapidez é crucial.»

Na guerra-relâmpago, os alemães que já não precisavam de dormir, deixaram de ter limites e fronteiras. «Parecia que nada nem ninguém podia deter estes soldados e eles próprios acreditavam na propaganda nacional-socialista, que os considerava superiores a todos os outros.»
Quando lhes pediram para ficarem acordados 48 horas, aguentaram 17 dias.

A dada altura, o Pervitin era uma metanfetanina popular entre os alemães, uma espécie de fenómeno cultural que se comercializava inclusive em chocolates.
No país da indústria farmacêutica, a fábrica Temmler-Werke produzia milhões de comprimidos por semana desta que se tornou «a droga do povo.» Até 1939, a substância podia ser adquirida sem prescrição médica. E foi assim que Theo Morell, médico astuto, egocêntrico e personagem central deste livro, conquistou Adolf Hitler que lhe confessou ter dores fortes e permanentes de estômago e intestinos há vários anos.
«HITLER, O MAIS DROGADO DE TODOS OS NAZIS»
Morell, médico particular do líder nazi até abril de 1945, começou por lhe administrar 'injeções de vitaminas'. Os efeitos foram imediatos: Hitler, eufórico, conseguia discursar duas horas seguidas de braço estendido – algo extremamente difícil – não apenas graças ao exercício físico, mas sobretudo devido a Dolantin (heroína). Quando tinha um evento importante, ou um discurso, Hitler pedia «recuperação imediata». Era este o nome de código entre o führer e Morell para o Dolantin.

Não consumia álcool, era vegetariano – criticava, não raras vezes, os «cadáveres de carne» que outros com quem se sentava à mesma mesa comiam – e estava sempre pedrado.

Um ano depois do triunfo de 1940, restava um exército no limite das suas forças e sem estratégia. Os alemães não conseguiriam resistir a uma prolongada guerra de desgaste contra uma Rússia demograficamente superior e mais bem armada. Mas Hitler fechava os olhos à realidade. Se antes tudo tinha corrido bem ao comandante-chefe, agora tudo começara a inverter-se.

Em meados de agosto de 1942, o ditador já deixara de fazer intervenções públicas. «Era uma pessoa que necessitava de recargas artificiais permanentes», e, de certo modo, «as drogas e os medicamentos de Morell compensaram-lhe a ausência do antigo efeito estimulante das ovações das massas.»

Mas o estado de saúde de Hitler começara a deteriorar-se rapidamente em 1943. A degradação física não passou despercebida a Morell e o cocktail de hormonas, esteroides e vitaminas já não era suficiente, porém, o médico sabia como contornar isso: «Com um efeito quase duas vezes superior à morfina», administra a Adolf Hitler Eukodal (oxicodona), um analgésico e antitússico que reanimaria de imediato o paciente e aliviaria a obstipação espasmódica de que ele padecia. Nota-se «uma transformação imediata do Paciente A nos minutos e nas horas posteriores ao consumo da substância foi tão surpreendente que ninguém do seu círculo deixou de reparar nela.» Hitler ficou viciado.
Injetava dia sim, dia não a sua droga favorita com doses muito superiores às recomendadas. A partir de então, Morell tornou-se indispensável na vida de Hitler. Tornou-se, aliás, seu prisioneiro.
UM NOVO OLHAR SOBRE O TERCEIRO REICH
Embora não explique as tóxicas teorias raciais dos nazis ou os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial, este livro leva-nos a ver os crimes de guerra cometidos contra a humanidade a uma nova luz.

O capítulo mais sombrio da História não teve o desfecho que conhecemos por se consumirem demasiadas drogas, mas Delírio Total é, sem dúvida, uma peça crucial e um fascinante relato para entendermos parte dela.

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