Histórias inspiradas pelo Jazz

Por Vera Dantas
7 de dezembro de 2023
Leonel R. Santos é um apaixonado por Jazz, tanto que, em 2001, foi co-fundador da revista All Jazz e, cinco anos depois, criou o site JazzLogical.net, que mantém uma agenda de jazz atualizada, perfeita para estar a par do que se passe em Portugal na cena jazzística – que é bem mais do que muitos imaginarão.

Há 20 anos, quando um leitor apareceu na redação da All Jazz com duas histórias, Leonel R. Santos aceitou publicar uma delas – Jitterbug Walz – e desafiou os leitores a enviarem as suas, também. A revista, entretanto, acabou, mas Leonel decidiu reunir e reescrever as melhores histórias neste livro, a que chamou Histórias de Jazz, pois foram inspiradas por este género musical e evocam músicos como Miles Davis, Duke Ellington, Anthony Braxton ou Frank Morgan.

Cada história segue o seu próprio tema e ritmo, abrangendo memórias de amores desesperados ou até escandalosos, amizade, traição, fantasia e poesia. A uni-las, o jazz, tendo o Leonel R. Santos acrescentado, no final de cada uma, pequenas biografias e sugestões de audição para acompanhar as leituras.
Histórias de Jazz
 
O paradiddle é uma onomatopeia utilizada pelos bateristas para representar um dos rudimentos mais comuns da aprendizagem e do treino da bateria. É também o nome dado a uma das histórias mais interessantes deste livro, em que o protagonista vive “viajando” entre corpos de diferentes pessoas, vivendo vidas diversas, sem perceber como… Deixamos-lhe aqui um excerto desta história que agarra o leitor, entre o insólito e o íntimo, para ouvir ao som da música de Shelly Mane.
 
PARADIDDLE


«Não sei se já vos aconteceu acordar no corpo de outra pessoa: comigo está sempre a acontecer. Sempre me aconteceu, desde que me recordo. Tenho algumas memórias difusas da infância, mas recordo-me que, em miúdo, na sala de aula, me aconteceu fechar os olhos e, quando olhei de novo, estava no outro lado da sala, com um caderno que não era meu, com uma letra que eu tinha dificuldade em ler e sabia coisas que eu não sabia. Apenas por um momento, porque, logo a seguir, já era eu, e tudo o que estava no caderno se tinha tornado completamente inteligível, e, quando comecei a escrever, saiu-me aquela letra arredondada pirosa com umas bolinhas nos is. Por essa altura, eram pouco mais que flashes e, normalmente, estas minhas transferências duravam apenas alguns minutos, mas, como consequência, no final da adolescência, foi-me diagnosticado um distúrbio de personalidade.
(…) Quando estou a viver noutro corpo, as minhas memórias anteriores persistem como num processo de anamnese, como um sonho que se vai esvaindo, e se aí permaneço por muito tempo quase me esqueço do meu outro eu. (…).»

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