«Fogo-de-artifício», um poema de Pedro Mexia

25 de julho de 2024
Pedro Mexia escolheu para este Poemas Reunidos aqueles de que mais gosta, ou os mais significativos, reviu-os, organizou-os e reorganizou-os antes de os pôr de novo em circulação. São «quase todos poemas de juventude», muitos deles já disponíveis, mas há também inéditos. Dos poemas mais abstratos acerca do tempo e da memória aos mais biográficos, este é um livro a ler devagar. A não ser que haja festa com fogo de artifício…


FOGO-DE-ARTIFÍCIO


Regresso a casa, o céu verde e amarelo,
alguém em festa, descobriu com certeza
alguma razão para isso, o próprio trânsito

é escasso e perguntas se eu não sei
para onde ir, se sou de Lisboa ou estrangeiro,
se me perdi do meu grupo, porque estou

excessivamente vestido, que idade tenho
ao certo, e que importa ter o conforto
de dogmas e almofadas quando se parece

sempre um fugitivo, de cidade em cidade
mas sempre no mesmo sítio, sempre
saindo de casa e regressando depois

de hora e meia de celulóide, com autores
alemães que morreram cedo demais
debaixo do braço e em paperback,

porque tenho medo do Verão e da chuva
e saí do poema «Caranguejola» e tropeço
em aforismos para me justificar de ter bolsos

demasiado fundos para pouco guardar,
e porque fico assim vendo à meia-noite
tanto fogo-de-artifício e nenhum ruído
 
Pedro Mexia
Pedro Mexia, Poemas Reunidos

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