Feliz Mês do Orgulho!

Por Álvaro Curia/ Ludgero Cardoso
5 de junho de 2024
Talvez a sigla ainda não fosse tão inclusiva, no tempo em que se escreveram estes livros. O mais certo é que não houvesse bandeira, sequer. Mais uma razão para serem corajosos, estes autores e autoras que falaram abertamente sobre homossexualidade, num tempo em que o tema era um absoluto tabu.
Sinais de Fogo
À medida que avançamos na leitura de um dos romances maiores da literatura portuguesa, vamos pensando como foi capaz o seu autor de escrever com tamanha clareza e arrojo sobre tantos temas controversos. Bem sabemos que o livro foi publicado após a sua morte, e já num tempo em que a democracia dava os seus primeiros passos em Portugal. Mas não lhe tira o mérito, até porque o respeito pela identidade sexual de cada um não surgiu como um relâmpago após a revolução de abril. Jorge de Sena, neste romance de construção de identidade, fala abertamente de uma sexualidade muito fluida entre os rapazes veraneantes no ano de 1936 na Figueira da Foz. Nada é estanque, nada é preto no branco, e o desejo impera, numa época em que se ouvem os estilhaços da Guerra Civil Espanhola, mas onde a praia, as aventuras de Verão e os namoros parecem sobrepor-se a tudo isso.
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Maurice
«És a única pessoa bela que vi na vida. Adoro a tua voz e tudo o que tem a ver contigo, até as tuas roupas ou a divisão onde estás sentado. Adoro-te.» Perdão, mas não resistimos a repetir esta belíssima frase do livro de Forster. É o caso de outro belíssimo romance que foi apenas publicado a título póstumo, já que o autor acreditava que nenhuma editora iria aceitar esta história de amor entre Maurice e Clive. Os dois rapazes vivem na conservadora Inglaterra dos inícios do século XX, altura em que a homossexualidade era vista como uma doença e um crime, levando ora para o manicómio, ora para a prisão. Ou, em alguns acasos, para ambos os lugares. Maurice é uma história, ainda assim, de uma leveza surpreendente, dados os temas que contém e a época em que foi escrito. Leveza no bom sentido, a fazer lembrar o amor adolescente, o sonho de uma vida feliz e a ideia de que o amor, venha ele de onde vier, é o melhor sentimento do mundo.
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Satânia
Mantemo-nos no início do século XX, mas agora vamos falar de amor no feminino. Esta obra, de uma autora muito cancelada pelos seus contemporâneos, é de uma coragem extrema, ao falar sobre a atração sexual entre mulheres. É certo que o faz de forma velada, nada é explícito e podemos sempre discordar de uma interpretação que nos diga que nem Margarida, na primeira novela, nem Clara, na segunda, demonstram mais do que uma leve sombra do desejo. Mas, quanto mais não seja pela forma explícita como fala da sexualidade feminina, Judith Teixeira eleva o desejo da mulher a um nível que não era, de todo, comum para a época.
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Diário do Ladrão
Avançamos algumas décadas e vamos para um dos mais rebeldes autores franceses. Jean Genet era uma personagem por si só: vivia no limite da lei, nas franjas da sociedade, arriscamos a dizer que no limite, também, da própria realidade. Diário do Ladrão poderia bem ser autobiográfico, uma vez que Genet esteve preso por roubo. O protagonista do livro entrega-se ele próprio a uma vida de vício, imergindo num mal total, alheio à sociedade a que não quer pertencer, numa decadência que é ela própria a cara da Europa no pós-guerra. Aqui, o sexo surge como pulsão a que não se consegue resistir, voz de instinto, cena de prostituição, pederastia, imerso em locais de passagem, sem terreno para se fixar. Genet, o “Anjo Caído”, é considerado por muitos como uma das principais vozes deste amor sórdido e clandestino.
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