ENTREVISTA A IRIS BRAVO
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17 de janeiro de 2020
Iris Bravo é ginecologista e obstetra, trabalhando há mais de uma década com infertilidade e procriação medicamente assistida. Leitora voraz, em 2020 decidiu escrever um livro para dar voz a tantas histórias de mulheres que não conseguem engravidar, com quem lida diariamente. Mas o sofrimento real dessas famílias tornou-se no ponto de partida para algo maior: um grande triângulo amoroso que se entende ao longo de dois romances, A Terceira Índia e A Nova Índia, que conquistou de forma inesperada o coração de milhares de leitores.
Iris Bravo, autora de A Terceira Índia e A Nova Índia.
«Vivi de perto as batalhas de tantas mulheres, vi tantas vidas, assimilei tantas histórias reais… (…) Então, a partir de certa altura, comecei a pensar que poderia criar uma história em que a protagonista tivesse infertilidade e em que pudesse de alguma forma chamar a atenção para o sofrimento destas mulheres.»
És médica de profissão, ginecologista e obstetra, especialista em infertilidade. Quando é que começaste a escrever e de onde surgiu essa vontade?
Sempre gostei muito de ler. E ao longo dos anos em que tenho trabalhado como especialista em infertilidade, vivi de perto as batalhas de tantas mulheres, vi tantas vidas, assimilei tantas histórias reais… Afinal de contas já são mais de dez anos a trabalhar na área. Então, a partir de certa altura, comecei a pensar que poderia criar uma história em que a protagonista tivesse infertilidade e em que pudesse de alguma forma chamar a atenção para o sofrimento destas mulheres. Foi assim que tudo começou. Depois a história ganhou asas, mas o início do livro é o fracasso da medicina: uma mulher que tenta engravidar, fazer FIV, que é o meu trabalho, e não consegue o bebé tão desejado.
Um dos cenários desta história é Moçambique. Porquê Moçambique?
Gosto muito de viajar e conhecer novos países. E sempre me fez muita confusão, sempre me interessei por esta grande diferença que existe entre, agora já não se chamam países desenvolvidos e subdesenvolvidos, agora fala-se em global norte e global sul, mas as diferenças continuam lá. Estas diferenças na forma como vivemos, as condições de vida, os objetivos… tudo isso, e sobretudo a condição da mulher, sempre me interessou.
Queria que o meu livro espelhasse isso, portanto queria que a minha protagonista, a Sofia, fosse para um país de África que tivesse diferenças consideráveis em relação a Portugal. Por exemplo, aqui a esperança média de vida é de 84 anos e em Moçambique será à volta dos quarenta e poucos. Os cuidados de saúde são completamente diferentes, o acesso à saúde e à educação são muito desiguais. Estamos à distância de sete horas de avião, mas depois existem estas diferenças flagrantes entre os dois países.
Moçambique foi uma sugestão do meu sogro, que viveu lá. Apesar de eu conhecer vários países de África, não conheço Moçambique e também não queria que este fosse um livro autobiográfico, queria fazer pesquisa e acabei por fazer muito trabalho de investigação. Todos os temas que são abordados, o trabalho infantil, o abandono escolar muito precoce, fui pesquisar tudo isso.
Mas foi o meu sogro que me falou em Moçambique e nas cascatas de Namaacha. Foi numa altura em que ele estava doente, internado no hospital onde trabalho. Eu ia lá fazer-lhe companhia, levava o portátil e íamos conversando. E muitos dos cenários de Moçambique foram-me narrados por ele.
Em relação ao tráfico de mulheres, porque é que decidiste escrever sobre isso?
Quis escrever sobre isso porque o livro é feminista, não vale a pena dizê-lo de outra forma. Sempre tive muito essa característica em mim, de me revoltar contra o que está instituído, contra a desigualdade.
Em Moçambique não existe igualdade entre homens e mulheres. Em Portugal haverá igualdade em alguns sítios, mas noutros sítios se calhar não. E eu queria que o livro espelhasse realmente a dificuldade da condição da mulher. O facto de estarem sujeitas em Moçambique aos casamentos em que se paga pelas mulheres, por exemplo, depois estão sujeitas a um sem fim de outras atrocidades, e eu queria que o livro realmente abordasse essa questão. Não queria que fosse um livro sobre isso, mas que esses aspetos fizessem parte da história e que levassem os leitores a pensar nesses temas.
Ao longo da história somos confrontados com a questão das classes sociais, tanto em Moçambique como em Portugal. Tu própria admites que a primeira parte da A Terceira Índia é passada numa escola de “betos”. Achas que essa questão ainda se coloca muito hoje em Portugal? Na geração dos teus filhos, por exemplo?
Eu acho que os meus filhos talvez não se apercebam muito porque, quando somos jovens e vivemos as situações, não nos damos conta disso. Mas creio que em Portugal ainda há classes sociais e diferenças a esse nível. Há diferenças económicas, sociais, etc. Agora, nos romances, o que era diferente entre a Sofia e o marido, é que o marido era o betinho. Não era só a educação, mas também os ideais, ele é muito religioso e ela nem por isso, a Sofia tem umas ideias mais budistas…. Acho que isso ainda existe, grandes diferenças na nossa sociedade.
Na dedicatória deste segundo livro escreves: “Para as muitas mulheres corajosas que conheci, a começar pela minha mãe, de lágrima fácil mas que lutam até ao fim.” Ainda existe muito o estigma de que o choro é um sinal de fraqueza, tanto nas mulheres como nos homens. Aliás, no final do segundo livro, penso que é o Ricardo que vê o Alex a chorar e pensa algo como “os gajos não choram, sempre detestei ver gajos a chorar”. Como vês esta questão?
É o Alex que vê o Ricardo a chorar e na verdade ele próprio sente também vontade de chorar. Mas acha péssimo um homem chorar porque teve uma educação difícil, muito rígida, depois esteve no exército e, portanto, tem uma série de preconceitos em relação ao choro nos homens.
Eu acho que há um preconceito e que é uma coisa terrível fazer isso às crianças, dizer a um menino que está com vontade de chorar que os rapazes não podem chorar. Porquê? Porque é que não pode chorar, porque é que não pode exprimir as suas emoções? Acho que isso é tão mau como dizer a uma menina que ela tem de brincar com bonecas em vez de brincar com ferramentas. Acho que esse tipo de diferenciação começa logo na infância e é mesmo na infância que tem de ser combatido o mais possível. Temos de permitir que os rapazes brinquem com o que lhes apetecer, que chorem quando estão tristes e que as meninas façam boxe e brinquem com ferramentas.
Acho que isso é fundamental e que, quanto mais cedo começarmos a dar a entender às crianças que o choro não tem a ver com o género, melhor, melhor para todos, tanto para os rapazes como para as meninas.
Mas independentemente dessa diferença entre os géneros, que infelizmente ainda existe, mesmo nas mulheres adultas, numa discussão, por exemplo, ou numa situação de grande stresse de trabalho, chorar ainda é visto como um sinal de fraqueza, não?
Acho que sim, mas eu não encaro o choro como um sinal de fraqueza.
Tentamos sempre puxar a brasa à nossa sardinha e eu sou uma pessoa muito chorona. Sou capaz de estar numa consulta, por exemplo, estou a ouvir os sentimentos dos pacientes e fico comovida. Creio que isso acontece com qualquer pessoa que sinta empatia por outra.
Tenho a lágrima fácil, sou capaz de chorar em situações de trabalho e não me considero pior médica por deitar uma lagrimita que limpo rapidamente. Mas sim, em geral é visto como um sinal de fraqueza. Na minha opinião não é nada disso, significa somente que a pessoa está a sentir, não tem a ver com coragem, bravura ou resiliência, tem a ver com ser uma pessoa mais ou menos emotiva e demonstrar as emoções.
Sendo médica de profissão e mãe de dois adolescentes, como conseguiste escrever estes dois romances? Qual era a tua rotina de escrita? Foi afetada pelo confinamento?
Tenho noção de que este ânimo para começar a escrever também teve a ver com o facto de os meus filhos já serem crescidos, porque se tivesse um filho com cinco e outro com três, por exemplo, provavelmente não teria conseguido produzir tantas páginas.
O que faço é aproveitar quando já está tudo a dormir ou prestes a ir para a cama. E então sento-me ao computador e sou capaz de ficar até às três, quatro da manhã, a escrever. No dia seguinte estou um pouco cansada, mas depois consigo compensar. Se for preciso, durmo vinte minutos quando chego a casa e fico bem.
Outra coisa que me ajuda é que não preciso de estar muito concentrada, não preciso de silêncio absoluto, nem sequer preciso de estar em frente ao computador. Aproveitava muito os tempos mortos, por exemplo, quando ia buscar o meu filho mais novo ao ténis. Ele ainda não tinha saído e enquanto esperava, eu tinha umas ideias e escrevia-as nas notas do telemóvel. Depois enviava para mim própria por email e, mais tarde, em casa, quando estava tudo mais calmo, fazia copy e paste e encaixava o que tinha escrito no lugar certo. Portanto, o facto de não precisar de um ambiente tranquilo ajuda.
E a escrita, tira-te ou dá-te energia?
Dá, foi uma aventura muito boa!
E já te passou pela cabeça tornares-te escritora a tempo inteiro ou pretendes manter as duas atividades, a medicina e a escrita?
Vou manter as duas. Não me imagino a deixar a medicina, porque acho que faz parte de quem sou. Adoro o que faço, adoro a infertilidade, adoro trabalhar com casais, adoro tudo isso e não me imagino a abdicar de nada. Mas também não me imagino a abdicar da escrita, portanto, acho que vou conseguir conciliar ambas.
Houve uma seguidora tua no Instagram que fez uma espécie de casting para o trio principal de personagens dos teus romances com atores conhecidos, o que é muito engraçado. Enquanto escrevias, tinha atores ou figuras públicas em mente?
Não tinha exatamente figuras públicas, mas tinha o tipo de pessoa na cabeça enquanto escrevia. Tanto que, depois, disse à Cátia, que foi quem fez isso no Instagram, quem eram os atores que eu “via” a representar as minhas personagens e até fiz um story com isso.
Depois senti-me velha, com as minhas opções, porque a Cátia usou atores muito recentes. (Risos) Na minha cabeça, o Ricardo é o Jude Law de há 20 anos, a Sofia é a Freida Pinto, que é uma atriz indiana com ascendência portuguesa, e o Alex é o Adam Rodriguez do CSI Miami.
Achei muito engraçada essa ideia porque algumas das tuas leitoras, das tuas fãs, por exemplo no Goodreads, referem muitas vezes a tua escrita como tendo um caráter cinematográfico. Aceitarias que os teus livros fossem adaptados para televisão ou cinema?
Adorava!
É que às vezes os autores não gostam de abdicar de controlo que têm sobre a obra. Não podem escolher os atores, são feitas alterações à história… Mas tu não te importavas?
Nada. Houve até uma amiga minha que fez uma pintura da Sofia a fazer yoga e eu adorei, até pus no Instagram, porque imaginar aquela personagem, que só existia na minha cabeça, de repente numa pintura saída da cabeça de outra pessoa… E é tão parecida, é maravilhoso!
Pensar que aquela história, que saiu da minha cabeça, se poderia transformar num filme… ia adorar! Claro que queria que o filme tivesse qualidade ou que a série tivesse qualidade, preferia que não mudassem muito, mas ia gostar, ia adorar ver.
E as críticas… por exemplo, no Goodreads, lês?
Leio, leio.
E como é que lidas com isso, com as boas e com as menos boas?
Lido bem. A grande maioria das críticas tem sido muito boa, eu nem acreditava no carinho todo que recebi e nas mensagens… porque além das reviews que fazem, muitas vezes, pelo Instagram, enviam mensagens a dizer “Há tanto tempo não lia um livro de que gostasse tanto!”. Ganho o dia, adoro.
E tenho tido também algumas críticas negativas, claro, mas acho que quem escreve um livro e o põe à venda tem de estar preparado para isso. Tem de estar preparado para o facto de que não vai agradar a toda a gente e aceito isso perfeitamente. Lido bem com isso, não fico muito triste.
E a tua vida mudou alguma coisa desde o sucesso de A Terceira Índia?
Não mudou muito. A maior mudança é que agora passo mais tempo ao telefone, porque estou no Instagram, no Goodreads, no Facebook, a ver o feedback dos leitores, e o meu marido queixa-se disso. É que fico com menos tempo para ver uma série ou para fazer outras coisas. É sobretudo aí, perco bastante tempo… as redes sociais, parece que não, mas consomem muito tempo.
E depois toda esta alegria de ter um sonho realizado, ter um livro publicado, mudou por aí também, é uma grande alegria!
Já estás a escrever ou a planear o próximo livro? Podes revelar alguma coisa?
Sim, já tenho um livro feito… meio escrito e, na minha cabeça, totalmente acabado, mas é completamente diferente.
Não gosto de me repetir, tanto que A Nova Índia já tem uma parte diferente relativamente ao romance anterior, surge outro narrador, que é na terceira pessoa. As personagens destes dois romances já publicados são todas “queridas”, boazinhas, digamos, mas no novo livro há personagens menos simpáticas. E também tem um elemento de mistério, que acho que vai ser giro.
É também um livro que gira em torno de mulheres?
Sim, claro. A protagonista é uma mulher forte.
Não sei se os outros escritores são assim, mas quando escrevi A Terceira Índia, uma das coisas que tinha em mente era escrever um livro que eu gostasse de ler. Gosto de livros em que as personagens principais são mulheres fortes, que mudam destinos e interferem nas suas vidas. Por isso, sim, a protagonista é uma mulher forte e este livro novo aborda questões como o luto e a ansiedade, vai um pouco por aí.
Sei que és uma devoradora de livros. Qual foi o último livro que leste e de que gostaste mesmo muito?
Li recentemente dois livros que adorei: Lá, Onde o Vento Chora, da Delia Owens, que é maravilhoso, tem umas descrições da natureza incríveis e, lá está, é um livro com uma mulher forte, gostei muito.
E também li o Shantaram, que é um livro gigante, narrado na primeira pessoa, e que se passa na Índia, em Mumbai. Gosto muito da Ásia e o livro é espetacular, o leitor sente-se realmente em Mumbai. E depois toda a história da vida do David, que se torna o Shantaram, é muito interessante.
Li os dois em português. Leio sempre em português, gosto de ler na minha língua. Além disso, já leio muitos artigos científicos em inglês, porque tudo o que é produzido em termos de medicina é em inglês. Depois, quando quero ler algo que me toque emocionalmente, o português é a minha língua e é como prefiro ler.
E quando estavas a escrever estes dois livros, houve algum momento em que te zangasses com as personagens, em que o que estavas a escrever fizesse com que te irritasses com elas?
Talvez um pouco com a Sofia, às vezes. Aquela tendência que ela tem para a fuga…. Queria que a personagem fosse assim, mas ao mesmo tempo tinha vontade de lhe dizer que não agisse dessa forma. (Risos) Mas consegui respeitá-la.
E no segundo livro, deu-me um gozo enorme escrever a parte do Alex, em que ele é narrador. Ele pisa algumas linhas, faz algumas coisas que não são propriamente legais. E houve uma altura em que não sabia exatamente até onde ele seria capaz de ir. Achei que talvez pudesse ir ainda mais longe, tive alguma dificuldade em gerir os seus limites.
E pensas voltar a estas personagens de alguma forma, ou não, acabou aqui a história delas?
Por enquanto, sim. Apesar de ter recebido muitas mensagens a dizer “Vou ter tantas saudades da Sofia, do Alex e do Ricardo…”. Mas acho que agora ficaram todos bem, estão resolvidos.
Estavas a dizer que desde que começaste a publicar, por causa da interação com os leitores, passas mais tempo nas redes sociais. Mesmo assim, também vês séries de televisão?
Adorei Peaky Blinders, é maravilhoso. Sou uma grande fã do ator Yommy Shelby.
É curioso, porque és médica e agora, nestes tempos de pandemia, os profissionais de saúde têm sido apontados como os nossos heróis. E depois, a Sofia, a tua personagem, é uma professora, e mais recentemente, nesta segunda vaga da pandemia, também se começou a falar dos professores como heróis. Se tivesses um superpoder, qual é que seria?
Ocorre-me o superpoder de curar. Ter a capacidade de curar magicamente todas as doenças, qualquer uma. Assim ninguém morreria de doença.
Há alguma mensagem que queiras deixar aos teus leitores e leitoras da Wook?
Tenho uma mensagem muito importante para as minhas leitoras da Wook, que é agradecer-lhes enormemente por me quererem ler. Fiquei muito feliz quando vi que A Nova Índia estava a ter tanta aceitação e tanto sucesso! Sou muito agradecida às pessoas que me querem ler e que me dão uma oportunidade.
Sempre gostei muito de ler. E ao longo dos anos em que tenho trabalhado como especialista em infertilidade, vivi de perto as batalhas de tantas mulheres, vi tantas vidas, assimilei tantas histórias reais… Afinal de contas já são mais de dez anos a trabalhar na área. Então, a partir de certa altura, comecei a pensar que poderia criar uma história em que a protagonista tivesse infertilidade e em que pudesse de alguma forma chamar a atenção para o sofrimento destas mulheres. Foi assim que tudo começou. Depois a história ganhou asas, mas o início do livro é o fracasso da medicina: uma mulher que tenta engravidar, fazer FIV, que é o meu trabalho, e não consegue o bebé tão desejado.
Um dos cenários desta história é Moçambique. Porquê Moçambique?
Gosto muito de viajar e conhecer novos países. E sempre me fez muita confusão, sempre me interessei por esta grande diferença que existe entre, agora já não se chamam países desenvolvidos e subdesenvolvidos, agora fala-se em global norte e global sul, mas as diferenças continuam lá. Estas diferenças na forma como vivemos, as condições de vida, os objetivos… tudo isso, e sobretudo a condição da mulher, sempre me interessou.
Queria que o meu livro espelhasse isso, portanto queria que a minha protagonista, a Sofia, fosse para um país de África que tivesse diferenças consideráveis em relação a Portugal. Por exemplo, aqui a esperança média de vida é de 84 anos e em Moçambique será à volta dos quarenta e poucos. Os cuidados de saúde são completamente diferentes, o acesso à saúde e à educação são muito desiguais. Estamos à distância de sete horas de avião, mas depois existem estas diferenças flagrantes entre os dois países.
Moçambique foi uma sugestão do meu sogro, que viveu lá. Apesar de eu conhecer vários países de África, não conheço Moçambique e também não queria que este fosse um livro autobiográfico, queria fazer pesquisa e acabei por fazer muito trabalho de investigação. Todos os temas que são abordados, o trabalho infantil, o abandono escolar muito precoce, fui pesquisar tudo isso.
Mas foi o meu sogro que me falou em Moçambique e nas cascatas de Namaacha. Foi numa altura em que ele estava doente, internado no hospital onde trabalho. Eu ia lá fazer-lhe companhia, levava o portátil e íamos conversando. E muitos dos cenários de Moçambique foram-me narrados por ele.
A Terceira Índia, o primeiro romance da autora
Em relação ao tráfico de mulheres, porque é que decidiste escrever sobre isso?
Quis escrever sobre isso porque o livro é feminista, não vale a pena dizê-lo de outra forma. Sempre tive muito essa característica em mim, de me revoltar contra o que está instituído, contra a desigualdade.
Em Moçambique não existe igualdade entre homens e mulheres. Em Portugal haverá igualdade em alguns sítios, mas noutros sítios se calhar não. E eu queria que o livro espelhasse realmente a dificuldade da condição da mulher. O facto de estarem sujeitas em Moçambique aos casamentos em que se paga pelas mulheres, por exemplo, depois estão sujeitas a um sem fim de outras atrocidades, e eu queria que o livro realmente abordasse essa questão. Não queria que fosse um livro sobre isso, mas que esses aspetos fizessem parte da história e que levassem os leitores a pensar nesses temas.
Ao longo da história somos confrontados com a questão das classes sociais, tanto em Moçambique como em Portugal. Tu própria admites que a primeira parte da A Terceira Índia é passada numa escola de “betos”. Achas que essa questão ainda se coloca muito hoje em Portugal? Na geração dos teus filhos, por exemplo?
Eu acho que os meus filhos talvez não se apercebam muito porque, quando somos jovens e vivemos as situações, não nos damos conta disso. Mas creio que em Portugal ainda há classes sociais e diferenças a esse nível. Há diferenças económicas, sociais, etc. Agora, nos romances, o que era diferente entre a Sofia e o marido, é que o marido era o betinho. Não era só a educação, mas também os ideais, ele é muito religioso e ela nem por isso, a Sofia tem umas ideias mais budistas…. Acho que isso ainda existe, grandes diferenças na nossa sociedade.
Na dedicatória deste segundo livro escreves: “Para as muitas mulheres corajosas que conheci, a começar pela minha mãe, de lágrima fácil mas que lutam até ao fim.” Ainda existe muito o estigma de que o choro é um sinal de fraqueza, tanto nas mulheres como nos homens. Aliás, no final do segundo livro, penso que é o Ricardo que vê o Alex a chorar e pensa algo como “os gajos não choram, sempre detestei ver gajos a chorar”. Como vês esta questão?
É o Alex que vê o Ricardo a chorar e na verdade ele próprio sente também vontade de chorar. Mas acha péssimo um homem chorar porque teve uma educação difícil, muito rígida, depois esteve no exército e, portanto, tem uma série de preconceitos em relação ao choro nos homens.
Eu acho que há um preconceito e que é uma coisa terrível fazer isso às crianças, dizer a um menino que está com vontade de chorar que os rapazes não podem chorar. Porquê? Porque é que não pode chorar, porque é que não pode exprimir as suas emoções? Acho que isso é tão mau como dizer a uma menina que ela tem de brincar com bonecas em vez de brincar com ferramentas. Acho que esse tipo de diferenciação começa logo na infância e é mesmo na infância que tem de ser combatido o mais possível. Temos de permitir que os rapazes brinquem com o que lhes apetecer, que chorem quando estão tristes e que as meninas façam boxe e brinquem com ferramentas.
Acho que isso é fundamental e que, quanto mais cedo começarmos a dar a entender às crianças que o choro não tem a ver com o género, melhor, melhor para todos, tanto para os rapazes como para as meninas.
Mas independentemente dessa diferença entre os géneros, que infelizmente ainda existe, mesmo nas mulheres adultas, numa discussão, por exemplo, ou numa situação de grande stresse de trabalho, chorar ainda é visto como um sinal de fraqueza, não?
Acho que sim, mas eu não encaro o choro como um sinal de fraqueza.
Tentamos sempre puxar a brasa à nossa sardinha e eu sou uma pessoa muito chorona. Sou capaz de estar numa consulta, por exemplo, estou a ouvir os sentimentos dos pacientes e fico comovida. Creio que isso acontece com qualquer pessoa que sinta empatia por outra.
Tenho a lágrima fácil, sou capaz de chorar em situações de trabalho e não me considero pior médica por deitar uma lagrimita que limpo rapidamente. Mas sim, em geral é visto como um sinal de fraqueza. Na minha opinião não é nada disso, significa somente que a pessoa está a sentir, não tem a ver com coragem, bravura ou resiliência, tem a ver com ser uma pessoa mais ou menos emotiva e demonstrar as emoções.
A Nova Índia, o regresso aos personagens Sofia, Alex e Ricardo
Tenho noção de que este ânimo para começar a escrever também teve a ver com o facto de os meus filhos já serem crescidos, porque se tivesse um filho com cinco e outro com três, por exemplo, provavelmente não teria conseguido produzir tantas páginas.
O que faço é aproveitar quando já está tudo a dormir ou prestes a ir para a cama. E então sento-me ao computador e sou capaz de ficar até às três, quatro da manhã, a escrever. No dia seguinte estou um pouco cansada, mas depois consigo compensar. Se for preciso, durmo vinte minutos quando chego a casa e fico bem.
Outra coisa que me ajuda é que não preciso de estar muito concentrada, não preciso de silêncio absoluto, nem sequer preciso de estar em frente ao computador. Aproveitava muito os tempos mortos, por exemplo, quando ia buscar o meu filho mais novo ao ténis. Ele ainda não tinha saído e enquanto esperava, eu tinha umas ideias e escrevia-as nas notas do telemóvel. Depois enviava para mim própria por email e, mais tarde, em casa, quando estava tudo mais calmo, fazia copy e paste e encaixava o que tinha escrito no lugar certo. Portanto, o facto de não precisar de um ambiente tranquilo ajuda.
E a escrita, tira-te ou dá-te energia?
Dá, foi uma aventura muito boa!
E já te passou pela cabeça tornares-te escritora a tempo inteiro ou pretendes manter as duas atividades, a medicina e a escrita?
Vou manter as duas. Não me imagino a deixar a medicina, porque acho que faz parte de quem sou. Adoro o que faço, adoro a infertilidade, adoro trabalhar com casais, adoro tudo isso e não me imagino a abdicar de nada. Mas também não me imagino a abdicar da escrita, portanto, acho que vou conseguir conciliar ambas.
Houve uma seguidora tua no Instagram que fez uma espécie de casting para o trio principal de personagens dos teus romances com atores conhecidos, o que é muito engraçado. Enquanto escrevias, tinha atores ou figuras públicas em mente?
Não tinha exatamente figuras públicas, mas tinha o tipo de pessoa na cabeça enquanto escrevia. Tanto que, depois, disse à Cátia, que foi quem fez isso no Instagram, quem eram os atores que eu “via” a representar as minhas personagens e até fiz um story com isso.
Depois senti-me velha, com as minhas opções, porque a Cátia usou atores muito recentes. (Risos) Na minha cabeça, o Ricardo é o Jude Law de há 20 anos, a Sofia é a Freida Pinto, que é uma atriz indiana com ascendência portuguesa, e o Alex é o Adam Rodriguez do CSI Miami.
Achei muito engraçada essa ideia porque algumas das tuas leitoras, das tuas fãs, por exemplo no Goodreads, referem muitas vezes a tua escrita como tendo um caráter cinematográfico. Aceitarias que os teus livros fossem adaptados para televisão ou cinema?
Adorava!
É que às vezes os autores não gostam de abdicar de controlo que têm sobre a obra. Não podem escolher os atores, são feitas alterações à história… Mas tu não te importavas?
Nada. Houve até uma amiga minha que fez uma pintura da Sofia a fazer yoga e eu adorei, até pus no Instagram, porque imaginar aquela personagem, que só existia na minha cabeça, de repente numa pintura saída da cabeça de outra pessoa… E é tão parecida, é maravilhoso!
Pensar que aquela história, que saiu da minha cabeça, se poderia transformar num filme… ia adorar! Claro que queria que o filme tivesse qualidade ou que a série tivesse qualidade, preferia que não mudassem muito, mas ia gostar, ia adorar ver.
E as críticas… por exemplo, no Goodreads, lês?
Leio, leio.
E como é que lidas com isso, com as boas e com as menos boas?
Lido bem. A grande maioria das críticas tem sido muito boa, eu nem acreditava no carinho todo que recebi e nas mensagens… porque além das reviews que fazem, muitas vezes, pelo Instagram, enviam mensagens a dizer “Há tanto tempo não lia um livro de que gostasse tanto!”. Ganho o dia, adoro.
E tenho tido também algumas críticas negativas, claro, mas acho que quem escreve um livro e o põe à venda tem de estar preparado para isso. Tem de estar preparado para o facto de que não vai agradar a toda a gente e aceito isso perfeitamente. Lido bem com isso, não fico muito triste.
«Tenho a lágrima fácil, sou capaz de chorar em situações de trabalho e não me considero pior médica por deitar uma lagrimita que limpo rapidamente.»
E a tua vida mudou alguma coisa desde o sucesso de A Terceira Índia?
Não mudou muito. A maior mudança é que agora passo mais tempo ao telefone, porque estou no Instagram, no Goodreads, no Facebook, a ver o feedback dos leitores, e o meu marido queixa-se disso. É que fico com menos tempo para ver uma série ou para fazer outras coisas. É sobretudo aí, perco bastante tempo… as redes sociais, parece que não, mas consomem muito tempo.
E depois toda esta alegria de ter um sonho realizado, ter um livro publicado, mudou por aí também, é uma grande alegria!
Já estás a escrever ou a planear o próximo livro? Podes revelar alguma coisa?
Sim, já tenho um livro feito… meio escrito e, na minha cabeça, totalmente acabado, mas é completamente diferente.
Não gosto de me repetir, tanto que A Nova Índia já tem uma parte diferente relativamente ao romance anterior, surge outro narrador, que é na terceira pessoa. As personagens destes dois romances já publicados são todas “queridas”, boazinhas, digamos, mas no novo livro há personagens menos simpáticas. E também tem um elemento de mistério, que acho que vai ser giro.
É também um livro que gira em torno de mulheres?
Sim, claro. A protagonista é uma mulher forte.
Não sei se os outros escritores são assim, mas quando escrevi A Terceira Índia, uma das coisas que tinha em mente era escrever um livro que eu gostasse de ler. Gosto de livros em que as personagens principais são mulheres fortes, que mudam destinos e interferem nas suas vidas. Por isso, sim, a protagonista é uma mulher forte e este livro novo aborda questões como o luto e a ansiedade, vai um pouco por aí.
Sei que és uma devoradora de livros. Qual foi o último livro que leste e de que gostaste mesmo muito?
Li recentemente dois livros que adorei: Lá, Onde o Vento Chora, da Delia Owens, que é maravilhoso, tem umas descrições da natureza incríveis e, lá está, é um livro com uma mulher forte, gostei muito.
E também li o Shantaram, que é um livro gigante, narrado na primeira pessoa, e que se passa na Índia, em Mumbai. Gosto muito da Ásia e o livro é espetacular, o leitor sente-se realmente em Mumbai. E depois toda a história da vida do David, que se torna o Shantaram, é muito interessante.
Li os dois em português. Leio sempre em português, gosto de ler na minha língua. Além disso, já leio muitos artigos científicos em inglês, porque tudo o que é produzido em termos de medicina é em inglês. Depois, quando quero ler algo que me toque emocionalmente, o português é a minha língua e é como prefiro ler.
E quando estavas a escrever estes dois livros, houve algum momento em que te zangasses com as personagens, em que o que estavas a escrever fizesse com que te irritasses com elas?
Talvez um pouco com a Sofia, às vezes. Aquela tendência que ela tem para a fuga…. Queria que a personagem fosse assim, mas ao mesmo tempo tinha vontade de lhe dizer que não agisse dessa forma. (Risos) Mas consegui respeitá-la.
E no segundo livro, deu-me um gozo enorme escrever a parte do Alex, em que ele é narrador. Ele pisa algumas linhas, faz algumas coisas que não são propriamente legais. E houve uma altura em que não sabia exatamente até onde ele seria capaz de ir. Achei que talvez pudesse ir ainda mais longe, tive alguma dificuldade em gerir os seus limites.
E pensas voltar a estas personagens de alguma forma, ou não, acabou aqui a história delas?
Por enquanto, sim. Apesar de ter recebido muitas mensagens a dizer “Vou ter tantas saudades da Sofia, do Alex e do Ricardo…”. Mas acho que agora ficaram todos bem, estão resolvidos.
Estavas a dizer que desde que começaste a publicar, por causa da interação com os leitores, passas mais tempo nas redes sociais. Mesmo assim, também vês séries de televisão?
Adorei Peaky Blinders, é maravilhoso. Sou uma grande fã do ator Yommy Shelby.
É curioso, porque és médica e agora, nestes tempos de pandemia, os profissionais de saúde têm sido apontados como os nossos heróis. E depois, a Sofia, a tua personagem, é uma professora, e mais recentemente, nesta segunda vaga da pandemia, também se começou a falar dos professores como heróis. Se tivesses um superpoder, qual é que seria?
Ocorre-me o superpoder de curar. Ter a capacidade de curar magicamente todas as doenças, qualquer uma. Assim ninguém morreria de doença.
Há alguma mensagem que queiras deixar aos teus leitores e leitoras da Wook?
Tenho uma mensagem muito importante para as minhas leitoras da Wook, que é agradecer-lhes enormemente por me quererem ler. Fiquei muito feliz quando vi que A Nova Índia estava a ter tanta aceitação e tanto sucesso! Sou muito agradecida às pessoas que me querem ler e que me dão uma oportunidade.