De repente, o luto
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@literacidades
31 de julho de 2024
A consciência do fim é algo que, por muito que achemos que estamos preparados para a enfrentar, a nossa condição de humanos não nos deixa nunca encarar de ânimo leve. Depois do fim, o luto é um lugar a que chegamos sem contar.
O meu pai voava
Há uma verdade muito íntima com que Tânia Ganho nos fala do período de luto pela morte do seu pai. Ninguém nos diz que vai ser assim, e por isso a ideia de que cada processo de luto é inigualável. A autora vai-nos contando cenas da sua vida ao lado de um pai muito presente, e a mácula que deixa essa ausência. Embora idoso e já num processo demencial avançado, a verdade é que nada disso interessa perante a ideia do desaparecimento, sempre súbito, sempre abrindo portas a uma divisão da casa que não conhecíamos. O livro, que se lê como uma respiração profunda, mostra-nos momentos de grande comoção e outros que conseguem ser divertidos, quando nos conta alguns aspetos do feitio do seu pai. No fim, a filha, a “menina do papá”, um retrato de uma beleza incrível sobre um momento triste, o tempo mais triste de todos.
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O ano do pensamento mágico
Joan Didion perdeu o marido, John, de forma súbita, devido a um enfarte, num período da vida em que a sua filha estava nos cuidados intensivos de um hospital, por causa de uma pneumonia severa. Encontramos aqui o testemunho de Joan, passado um ano, sobre a vivência desse ano trágico, onde o chão de repente lhe faltou. Fala-nos de uma forma sensível, ainda que por vezes quase científica, sobre o que é o luto, a perda inesperada, e como lidou com ela. De um primeiro momento de incredulidade, em que guardou os sapatos do marido para o caso de ele voltar, a ter de dizer à filha doente que o pai partira, até breves momentos de superação, ou aceitação. Fala-nos do período de luto como uma patologia que ninguém parece valorizar como tal, dizendo-nos que temos de passar por isso, que não podemos camuflar a dor. Apenas passado um ano começa a leve sombra da mudança a fazer-se sentir.
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Notas sobre o luto
O pai de Chimamanda era um notável académico nigeriano, que faleceu subitamente em 2020, esse estranho ano que nos parece já longínquo. A sua filha presta-lhe uma homenagem neste curto livro, falando em celebrar de forma bela uma vida que foi ela também vivida com grande beleza e que por isso merece ser recordada dessa mesma maneira. Contudo, o seu desaparecimento teve um impacto brutal em Chimamanda, que atravessou momentos de grande dor, sobretudo tendo em conta que os últimos tempos foram vividos em pandemia, quando nem sempre era possível a sua presença e dos netos junto do avô. Além da sensibilidade com que está escrito, Notas Sobre o Luto é de uma universalidade incrível, falando-nos ao coração e tornando-nos a nós, também, filhos daquele pai.
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A ridícula ideia de nunca mais te ver
O sentimento é precisamente esse, durante os primeiros tempos após a notícia da morte de alguém próximo: é ridículo. A vida que estava planeada, organizada, tendo em conta a presença de alguém, de repente muda. Projetos que se desfazem, sonhos… ou apenas as ações do dia a dia que perdem o seu significado. Rosa Montero leu o diário de Marie Curie, que falava sobre a forma como viveu o luto pelo seu marido, e identificou-se com esse relato. Também Rosa perdera o seu companheiro, após lutar em vão contra o cancro. A autora habituou-nos já a leituras vertiginosas, quase delirantes, e este livro não é exceção, não obstante tratar de um tema tão delicado. As consequências dessa perda na vida de Rosa Montero são inúmeras e são-nos contadas com toda a liberdade, mesmo que nisso haja muita dor. Uma dor quase indizível.
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Cão como Nós
Quando a morte próxima é a de um animal de estimação, à dor da perda junta-se o receio em admiti-la com toda a sua voracidade, receosos de que não nos entendam, de que achem que estamos a sobrevalorizar. Afinal, um cão não é uma pessoa e, mesmo ainda hoje, há quem ache que apenas entre humanos está autorizada a dor do luto. Nada mais errado. E que o diga Manuel Alegre, que a princípio não era muito apologista de um patudo lá em casa, mas de quem, depois, se tornou melhor amigo. Neste livro, Alegre dirige-se-lhe após a sua morte, mostrando um sentimento real, inequívoco. Um vazio que preenche com retratos familiares, com alguns momentos autobiográficos, com um entendimento tal com o seu amigo canino que o leva a crer que estão bem próximos. Se era ele um cão como nós, ou se deve cada um de nós ser mais cão como ele, é uma reflexão que fica muito além de o livro terminar.
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