David Machado: dos oito (meses) aos oitenta (anos)

Por Ana Bárbara Pedrosa
25 de setembro de 2024
Tenho o sonho de ser amiga do David Machado. Enquanto não vamos para os copos (de água) juntos, contento-me com lê-lo. Já não é coisa pouca e é sempre uma alegria.
Os Dias do Ruído
É o último livro deste amigo das crianças que também é romancista. E eis aqui um romance voltado para os nossos tempos, com uma sinopse que dá logo vontade de o comer com as mãos. Na ação, Laura, dois anos depois de ter matado – bendita seja – um terrorista islâmico, evitando um atentado, corre o mundo a contar a sua história. Lá vai ganhando projeção no mundo, e então chegam as redes sociais, levando as questões que vão a tudo, sobre feminismo, xenofobia, racismo. Daí às ameaças de morte é um tirinho. Ao longo da leitura, o leitor depara-se com a vida de hoje em dia, tão condicionada pelo que se passa online, e sobretudo com uma protagonista que sabe a gente a sério. Aos poucos, também Laura vai medindo as ameaças, o impacto das redes sociais e o das suas decisões.
Deixem falar as pedras
Aqui temos a história de Nicolau Manuel, e com ele a história de tanta coisa em Portugal. Nicolau foi levado para um interrogatório e nunca mais voltou. A noiva lá se viu sem ele, e sem saber da verdade que ele tinha para contar. Cá fora, a sós, casou – pasme-se – com o alfaiate que tinha feito o fato de casamento do primeiro candidato a marido. Os anos passaram, as décadas também. A vida mudou. E que pode um velho fazer à vontade de querer mudar as coisas? Sempre que a oportunidade de dizer a verdade surgia, a vida metia-se pelo meio. Deixem falar as pedras é a história dos equívocos, do não-dito, da impossibilidade de agarrar o tempo e de, volta e meia, se orientar a vida para o que aparentava ser o seu destino. Ao mesmo tempo, é a história do peso das memórias, do que passa de uma geração para a outra, do que se tenta fazer com o passado – e, claro, da frustração de a vida ser uma coisa afunilada em que não cabem todas as hipóteses.
Os números nojentos
É mais um belo livro deste romancista que também é amigo das crianças. Depois do livro O Alfabeto Nojento, eis um livro para ajudar a ensinar os números. No meu tempo, aprendiam-se as vogais com a Ana Malhoa no Buéréré. Sorte a dos miúdos que têm o David Machado para também lhes dar as consoantes. E sorte deles chegarem também aos números. Além do David, têm o Henrique, o protagonista que só gosta de fazer asneiras, dando, perdoem os pais, boas ideias para as crianças. É divertido ler as partidas que prega às vítimas que o cercam, e sobretudo ensina. Haverá fórmula melhor? Fechado o livro, ficamos contentes por sabermos que o Henrique é personagem, e não amigo de vir às nossas casas: é que, de um rapaz que espreme borbulhas ou mete óleo de motor de carro no frasco de champô da mãe, quer-se alguma distância higiénica.
Parece um pássaro
Pássaro é a cabeça do David Machado a voar por todo o lado. Mas é também o chapéu do rapaz que conta a história. Um dia, veio do ar, onde voam as histórias do escritor, e pousou-lhe na cabeça. Atrasado para a escola, deu um abanão, mas nada: o pássaro voou e voltou ao seu pouso. Sem outro remédio, lá foi o miúdo para a escola – e a professora lá teve de autorizar o chapéu na sala, pedindo-lhe só silêncio e calma. No recreio, uns miúdos riam-se, mas que importa o escárnio alheio se a linda Maria acha graça ao chapéu? No livro, as ilustrações de Gonçalo Viana dão cor, vida e asas ao pássaro. Sendo um livro para crianças, a pequenada mete-as também às costas – voa também. Podíamos dizer que esta é uma história de se lhe tirar o chapéu. O problema é que o chapéu não se deixa ser tirado.
Esta história
Deve ser o medo de todos os escritores – querer contar uma história e não conseguir. Regra geral, é porque não se sabe bem o que fazer à vida que se cria – o que dar, quando dar, a que ritmo, com que forma. Aqui, o problema é outro, com um ouvinte que não deixa que a história saia da garganta. É que, por muito que o contador tenha boas intenções, querendo contar sobre beleza e harmonia, quem ouve só quer coisas a sério: insetos peludos, fantasmas e monstros. Da minha parte, nem dá para julgar. Eu quereria o mesmo.
Eu acredito
São 17 frases – e praticamente uma ilustração por cada. Em cada uma, uma ideia – e sempre original, sempre engraçada de pensar. No livro, temos um menino que acredita em coisas, que tanto podem ser nadar na palavra água ou num macaco a apagar partes da lua. As ilustrações levam o pequeno leitor para a cena, e então é vê-lo a pensar uma coisa nova antes de partir para a seguinte. Quase sempre solitário na narrativa, o menino vê-se acompanhado por quem o lê, e volta e meia há que compadecer-nos da sua solidão, mas, sobretudo, há que acompanhar as suas crenças, que são coisa de infância e de ficção.
A noite dos animais inventados
Quem tem um irmão tem tudo. No escuro da noite, face ao medo, lá estão eles para serem abraços uns dos outros. Ou para inventarem histórias juntos, criarem a vida. No caso, a vida de uma galinha, que foi o que o Jonas criou a ver se se abstraía da escuridão à volta. Ora, com a galinha, acordaram os irmãos, e puseram-se a inventar mais animais. O quarto sossegado – só o espaço e a noite – lá se transformou num banzé, mas um banzé sossegado. Afinal, até o leopardo que inventaram era inofensivo. O que vale é que, na hora de inventar, faz-se o que se quer.

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