Cruzeiro Seixas (1920-2020): toda a forma nasce da escuridão

Artista e poeta disse que só vivera metade do que queria e mantinha uma eterna curiosidade pelo amanhã.
17 de janeiro de 2020
Artista plástico e poeta morreu aos 99 anos, em Lisboa
Artur do Cruzeiro Seixas, um dos nomes mais importantes do movimento surrealista em Portugal, morreu este domingo, 8 de novembro, no Hospital da Santa Maria, em Lisboa.

Figura multímoda da cultura portuguesa e autor de um universo interminável, Cruzeiro Seixas era sobejamente conhecido como artista plástico – era o último sobrevivente do grupo Os Surrealistas. Dono de um traço inconfundível, criava paisagens híbridas e seres ambíguos. A forma emergia da escuridão.
Porém, era na poesia que mais gostava de se expressar.

Cruzeiro Seixas começou a escrever em 1986 e passou despercebido até 2002, altura em que sai o primeiro volume de poemas inéditos pela Quasi, pequena editora de Valter Hugo Mãe e Jorge Reis-Sá. O autor tinha já 81 anos.
«SOU UM TIPO QUE FAZ COISAS»
Há muito esgotado, foi editado em junho o primeiro volume da Obra Poética, de Cruzeiro Seixas, integrada na coleção Elogio da Sombra, coordenada por Valter Hugo Mãe para a Porto Editora. A recolha foi organizada pela poetisa e escultora Isabel Meyrelles.

A publicação da sua imensa obra será dividida em quatro partes, sendo que o segundo volume chega às livrarias a 3 de dezembro, dia em que o autor completava 100 anos de vida, e, o terceiro, em 2021. O quarto volume, que encerrará o projeto, colige inéditos e dispersos de uma produção em que se «encontra um surrealismo pleno, a relação mais indomável que ao espírito humano revela sobretudo o que tem de inexplicável e, ainda assim, profundamente necessário», referiu Valter Hugo Mãe.

A morte não o assustava. Disse numa entrevista ao Expresso em 2017:
«Não estou preocupado para onde vou. Já andei por céus e infernos cá por este lado.»
POEMA

No silêncio das tapeçarias,
há a memória
das terríveis batalhas
do imaginário.
Mas são ternas
as cartas que trocam entre si
os seus heróis.
É certo que as árvores cantam por toda a parte
a sua música
e que há enfim leões e elefantes
no centro de Londres
de Paris ou de New York.
Agora a tua face está cravejada de ponteiros
e a manhã que acaba de nascer
regressa ao ventre materno.
Lisboa cobre-se de gaivotas.
Um gravíssimo excesso de grandeza
anuncia o Nada.

Áfricas 69

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