Centenário de Eugénio de Andrade

Por Vera Dantas
19 de janeiro de 2023
Há 100 anos, neste dia, nascia, no Fundão, Eugénio de Andrade. Tinha 25 anos quando publicou aquele que considerou, de facto, o seu primeiro livro de poesia, As Mãos e os Frutos. Em 1950 fixou residência no Porto, cidade que não mais deixou. A sua relação com a poesia era tão umbilical quanto era independente a sua postura em relação aos movimentos literários da sua contemporaneidade. Entre os poetas portugueses, Eugénio de Andrade é dos mais lidos e traduzidos.

Por estes dias, Portugal celebra a vida de Eugénio de Andrade: a sua terra-natal, o Fundão, dedica-lhe toda uma programação cultural ao longo de 2023; no Porto, a cidade da sua vida, a Cooperativa Árvore, muito amiga do autor, tem patente a exposição «Poesia 100 Eugénio», e a Biblioteca Almeida Garrett inaugura hoje a exposição «Eugénio de Andrade, A Arte dos Versos», à qual se junta, a 28 de janeiro, a sessão do «Porto de Encontro» – ciclo de conversas com escritores – sobre o poeta.

Uma obra tão plena e vasta como a de Eugénio de Andrade pode ser lida livro a livro, ou então em edições especiais que reúnem todas as obras publicadas. No caso, são duas. E nós achamos que a melhor forma de nos juntarmos à celebração do centenário deste poeta é partilhando um pouco da arte que nos deixou.
 
«Ver Claro», um poema de Eugénio de Andrade
Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
Outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.
QUERO LER!









 
«Sobre Camilo», excerto de Prosa
«Eu creio que nunca mais deixarei de ver este homem senão com os olhos de Aquilino – daí a minha antipatia. E, o que é pior, medir-lhe o estilo pelo do Eça, à sombra de quem me criei. Preciso de me livrar de tudo o que nele me repele: o seu ódio ao corpo, os seus derrames líricos a cheirarem ainda às fraldas do Filinto, a sua ambiguidade perante um romantismo de pataco, o seu amor pelos frades seiscentistas, o seu moralismo de entre douro e minho e, por fim (por fim?, antes de tudo!), o seu reaccionarismo. Se me livrar disto… fica-me um dos maiores escritores da língua e uma alma atormentada – o que não é pouco.»
QUERO LER!

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