Mini-entrevista a Josefa de Maltezinho

Josefa de Maltezinho (Porto, 1956), pseudónimo de Julieta Aleluia, dedicou grande parte da sua vida ao ensino como professora do Ensino Básico, com formação na Universidade de Aveiro. Em 2013 publicou o seu primeiro livro de poesia, Água Corrente, seguindo-se, em 2016, numa estreia como romancista, a obra Maçã Com Bicho.


Elisa é uma narrativa que acompanha a vida da protagonista ao longo do período do Estado Novo terminando já num tempo posterior à Revolução do 25 de Abril. Um retrato da sociedade da época e de uma família, mas, sobretudo, de uma mulher que escreverá a sua própria história.

Citação:
«[Escrever] é um gesto de continuidade, mais do que de disciplina.»
Josefa de Maltezinho
Josefa de Maltezinho
Como surgiu a ideia para este livro?
Fazendo parte da última geração antes do 25 de Abril, a ideia de escrever Elisa nasceu da vontade de refletir sobre a condição humana em Portugal ao longo do século XX, profundamente marcada pelo obscurantismo do Estado Novo. Em particular, interessou-me dar voz à luta travada pelas mulheres em prol da igualdade de género. Elisa é também um livro dirigido às novas gerações, porque é fundamental que reconheçam e preservem os valores pelos quais tanto se lutou, dando continuidade ao processo de mudança.

Tem uma rotina de escrita?
Sim, diria que me é quase indispensável escrever todos os dias, independentemente da hora. É um gesto de continuidade, mais do que de disciplina.
Como lida com um bloqueio criativo?
Raramente me acontece um bloqueio criativo, uma vez que quando começo a escrever, as ideias já se encontram previamente delineadas. Quando, ainda assim, acontece, resolve-se, regra geral, numa segunda tentativa. No entanto, como a minha escrita se move entre prosa e poesia, tenho com frequência dois trabalhos em mãos, permitindo-me mudar de registo e manter o fluxo criativo.

Qual é a pior e a melhor parte de ser escritora?
A pior parte de ser escritora é o receio constante de não conseguir escrever exactamente aquilo a que me proponho — a sensação de ficar aquém das expectativas, tanto das minhas como das de quem me lê. A melhor parte, curiosamente, nasce desse mesmo lugar de incerteza: quando o texto encontra o seu caminho, quando percebo que corresponde ao que eu queria dizer e, mais do que isso, que conseguiu acrescentar algo a quem o leu. Esse momento de encontro entre intenção e leitura é profundamente gratificante.

Há algum tema sobre o qual não goste de ler ou escrever?
Escrever ou ler é sempre aliciante, especialmente quando o tema nos cativa. As minhas preferências vão para temas actuais, que exploram o lado mais humano e profundo das pessoas, a busca de sentido para as nossas atitudes. Escrever ou ler sobre desporto, por exemplo, não me desperta particular entusiasmo.

Se pudesse partilhar um jantar com qualquer autor (vivo ou morto), quem escolheria?
Embora pudesse escolher vários autores, Hélia Correia seria, sem dúvida, a minha primeira opção.

Qual o livro que já devia ter lido e ainda não leu?
A Insustentável Leveza Do Ser, de Milan Kundera.

Qual o livro que mais a marcou até hoje?
Foram muitos, mas posso referir entre eles O Estrangeiro, de Albert Camus ou A Metamorfose, de Franz Kafka.

Qual foi o último livro que ofereceu?
Certas Raízes – Contos, de Hélia Correia.

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