Marco Neves – e a língua portuguesa – de A a W
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16 de junho de 2025
De A a W é uma rubrica do Wookacontece, na qual desafiamos um convidado a percorrer as letras do abecedário dizendo para cada uma delas o que bem entender. O resultado é sempre uma incógnita. Desta vez, o nosso convidado é Marco Neves, professor universitário e investigador na área das línguas, literaturas e culturas. Autor de mais de uma dezena de livros sobre temas linguísticos – entre os quais Queria? Já não quer?, História do Português desde o Big Bang? e Atlas Histórico da Escrita –, acaba de lançar Gramática & Pontuação – Guia Prático para Escrever Melhor. É um livro que junta dois anteriores: Gramática para Todos e Pontuação em Português – Guia Prático para Escrever Melhor e que, depois de percorrer a gramática essencial, a pontuação e dúvidas comuns, desafia os leitores a lançarem-se à escrita, ensinando como criar um texto. Neste De A a W, Marco Neves leva-nos numa viagem pela nossa língua que nos deixa a querer saber mais.
(Nota: o autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico).
(Nota: o autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico).
De A a W
Marco Neves
A – Aprender. Nascemos sem palavras, num choro que se mistura com a dor, o amor e os nervos dos pais. Palavras? Nenhumas. Devagar, aprendemo-las e, com elas, o peculiar mecanismo a que chamamos língua portuguesa. É esse mecanismo que descrevi na Gramática e Pontuação.
B – Beleza. Depois, quando crescemos, usamos esse mecanismo para comprar e vender, namorar e discutir, aprender e ensinar — e também para insultar e conspirar. Mas é também material da literatura, da música, de discursos de coração a bater, de frases sussurradas e que nunca esquecemos. A língua — e em especial a língua a que chamamos nossa — é uma das maneiras que temos de criar coisas belas neste mundo. Não é coisa pouca!
C – Camões. É a língua de Camões, não porque tenha sido inventada pelo poeta, mas porque era a língua que ele falava… Mas também é a língua do Martim Codax, do Gil Vicente, do Manuel, da Maria, da Sara — e de todos os que a falam por esse mundo fora.
D – Descoberta. Diz-se e escreve-se muita coisa que não vale a pena. Mas, no meio de todos os livros que temos na nossa própria língua, há tanto a descobrir. Para começar, o próprio do Camões, que para lá de servir para chatear e para nomear de cada vez que falamos da língua, também serve para ler. Ler Camões — e ler tantas outras vozes da nossa língua.
E – Escrita. Dos milhares de línguas da Terra, só uma minoria tem uma forma escrita. Temos essa sorte. Ainda por cima, ao contrário do que acontecia há 200 anos, uma grande maioria da população sabe escrever e, hoje, escreve mesmo o dia inteiro. Daí, surgem dúvidas, hesitações e erros — e surge ainda o maior erro de todos: a convicção de que há quem nunca erre. Todos erram — uns mais do que outros, é bem verdade.
F – Filhos. E quem mais erra — e ainda bem! — são as crianças, ao começar a dominar esta língua, devagar, esforçando-se por aprender as regras, as excepções, os tabus, os truques e as delícias. É pela tentativa e erro que vamos lá — a língua é mesmo assim, qualquer coisa de muito humana, construída no dia-a-dia na cabeça e na boca de cada um de nós.
B – Beleza. Depois, quando crescemos, usamos esse mecanismo para comprar e vender, namorar e discutir, aprender e ensinar — e também para insultar e conspirar. Mas é também material da literatura, da música, de discursos de coração a bater, de frases sussurradas e que nunca esquecemos. A língua — e em especial a língua a que chamamos nossa — é uma das maneiras que temos de criar coisas belas neste mundo. Não é coisa pouca!
C – Camões. É a língua de Camões, não porque tenha sido inventada pelo poeta, mas porque era a língua que ele falava… Mas também é a língua do Martim Codax, do Gil Vicente, do Manuel, da Maria, da Sara — e de todos os que a falam por esse mundo fora.
D – Descoberta. Diz-se e escreve-se muita coisa que não vale a pena. Mas, no meio de todos os livros que temos na nossa própria língua, há tanto a descobrir. Para começar, o próprio do Camões, que para lá de servir para chatear e para nomear de cada vez que falamos da língua, também serve para ler. Ler Camões — e ler tantas outras vozes da nossa língua.
E – Escrita. Dos milhares de línguas da Terra, só uma minoria tem uma forma escrita. Temos essa sorte. Ainda por cima, ao contrário do que acontecia há 200 anos, uma grande maioria da população sabe escrever e, hoje, escreve mesmo o dia inteiro. Daí, surgem dúvidas, hesitações e erros — e surge ainda o maior erro de todos: a convicção de que há quem nunca erre. Todos erram — uns mais do que outros, é bem verdade.
F – Filhos. E quem mais erra — e ainda bem! — são as crianças, ao começar a dominar esta língua, devagar, esforçando-se por aprender as regras, as excepções, os tabus, os truques e as delícias. É pela tentativa e erro que vamos lá — a língua é mesmo assim, qualquer coisa de muito humana, construída no dia-a-dia na cabeça e na boca de cada um de nós.
G – Gramática & Pontuação. É um livro sobre o corpo da língua, as regras principais, as excepções, os nomes que damos às regras e excepções, mas também sobre a roupa com que vestimos a língua: a pontuação, esses sinaizinhos que nos ajudam a substituir os gestos da cara e os movimentos das mãos quando falamos. É um livro para ler de uma só vez e, depois, para consultar ao escrever.
H – História. Uma língua que já existia quando Afonso Henriques se tornou rei — mas que não tinha o nome que tem hoje. Uma língua que veio lá das serranias do Noroeste da Península e desceu até ao Algarve, fazendo-se depois ao mar. Não é uma epopeia, é uma história feita de tanta gente que não cabe em poucas linhas — ou em muitas linhas. Fico-me, apenas, por estas letras, de A a W, em homenagem a essa História.
I – Indignação. O português é também a tentativa — inevitável — de o prender nas páginas de dicionários e gramáticas. Não são esses livros que criam a língua, mas tiram-lhe o retrato (e é esse retrato que tentei fazer na Gramática & Pontuação). Depois, há quem se indigne quando a língua não se comporta sempre como aparece no retrato. Acontece isso com o português e com todas as línguas aqui à volta. Faz parte. J – Jogo. A língua também é brincadeira. Às vezes, é até uma forma de passar o tempo, em conversas aos círculos, palavras que não acrescentam, mas que nos ligam uns aos outros nos momentos em que estamos juntos. E é também um jogo no recreio da escola, nas mensagens dos ecrãs, nas canções de embalar, nas anedotas ao jantar, nas frases dos namorados.
H – História. Uma língua que já existia quando Afonso Henriques se tornou rei — mas que não tinha o nome que tem hoje. Uma língua que veio lá das serranias do Noroeste da Península e desceu até ao Algarve, fazendo-se depois ao mar. Não é uma epopeia, é uma história feita de tanta gente que não cabe em poucas linhas — ou em muitas linhas. Fico-me, apenas, por estas letras, de A a W, em homenagem a essa História.
I – Indignação. O português é também a tentativa — inevitável — de o prender nas páginas de dicionários e gramáticas. Não são esses livros que criam a língua, mas tiram-lhe o retrato (e é esse retrato que tentei fazer na Gramática & Pontuação). Depois, há quem se indigne quando a língua não se comporta sempre como aparece no retrato. Acontece isso com o português e com todas as línguas aqui à volta. Faz parte. J – Jogo. A língua também é brincadeira. Às vezes, é até uma forma de passar o tempo, em conversas aos círculos, palavras que não acrescentam, mas que nos ligam uns aos outros nos momentos em que estamos juntos. E é também um jogo no recreio da escola, nas mensagens dos ecrãs, nas canções de embalar, nas anedotas ao jantar, nas frases dos namorados.
L – Letras. A língua começa nos sons e não nas letras — e, no entanto, são as letras que nos dão o aspecto da língua. As letras e tudo o que as acompanha — por exemplo, no português, temos a nossa conhecida cedilha e o til, criando, só como exemplo, esse conjunto — «-ção» — que nunca inicia uma palavra, mas permite reconhecer de imediato um texto como português.
M – Medo. Há quem tenha medo de escrever, não vá dar-se o caso de cair no temido erro. Pois bem: é certo e sabido que, sim, vai mesmo cair no erro. Não deixe de o combater, mas descontraia: a língua é demasiado importante e saborosa para se deixar de usar por receio dum qualquer tropeção. Fale (sem pudor). Leia (bons livros). Escreva (por prazer).
N – Nascimento. Uma língua como a nossa há-de ter nascido num certo momento da História, não é? E, no entanto, nunca nasceu — foi-se criando, devagar, na rua, a partir do que vinha antes e sempre a caminho do que vem depois. Parece uma banalidade, mas não é bem: o português — como todas as línguas — nunca chegou a um estado completo, final. Está sempre a transformar-se, devagar, noutra língua, ligeiramente diferente. Um processo inevitável, mas (valha-nos isso) muito lento… É por essa razão que ainda hoje conseguimos ler poemas que falam de ondas do mar de Vigo e é por isso que, daqui a alguns séculos, ainda há-de haver quem leia um ou outro livro que alguém está a escrever neste preciso momento.
O – Ondas. Desde o mar de Vigo ao mostrengo que está no fim do mar, a nossa língua tem qualquer coisa de onda e de água, de espuma e de areia. É só impressão minha, certamente, inscrita na minha cabeça por tudo o que já li na minha língua.
P – Palavrões. Aqui, nesta letra, poderia ter deixado Pessoa. Também poderia ter escolhido a pureza, objectivo raras vezes confessado de quem gosta de limpar a língua, a mais desarrumada das criações humanas. Fico-me pelos palavrões — essa prova bruta da força das palavras, da maneira como a língua serve para levar a nossa imaginação, mesmo a menos recomendável, ao corpo e à mente das outras pessoas.
Q – Queria — ou quer? A língua também são os seus mitos, as irritações, as ideias-feitas, as pequenas graçolas. Há quem não goste do simpático «queria» e prefira o «quero». Há quem insista em pedir um «copo com água», para se proteger do perigo de receber um copo feito de água. Há quem ande sempre à caça da falta de lógica da língua. Ora, como a língua não foi feita com um esquadro nem planeada por ninguém, o material à disposição desses caçadores é praticamente infinito…
R – Redundância. E o que gostam eles (os tais caçadores de imperfeições da língua) de procurar redundâncias! É um desporto divertido, mas um pouco absurdo: afinal, a redundância é essencial a todas as línguas humanas, como é apanágio de um sistema natural. Não fosse a redundância e a língua exigiria sempre silêncio absoluto, atenção sem falhas, falantes perfeitinhos. Não somos robots e dizemos muita coisa em modo de repetição. É mesmo assim…
S – Saudade. É comum dizer que a saudade é só portuguesa e não se traduz! E, no entanto, traduz-se. A língua é qualquer coisa de muito particular, mas é também universal: não há nenhum grupo de humanos sem língua e, até hoje, não se encontrou uma frase que fosse impossível de traduzir. Até as frases que levam dentro essa portuguesíssima «saudade».
T – Tradução. Pois é: as línguas são barreiras, mas temos esse bilhete de passagem que é a tradução — ou a aprendizagem de outras línguas. E, no entanto, dentro de cada língua, estão outras barreiras bem mais profundas e difíceis de ultrapassar: às vezes, é mais fácil pôr a conversar um português com um japonês do que um benfiquista com um sportinguista…
U – Universal. A língua — a nossa língua — separa-nos dos outros povos, é verdade. Há quem veja nisto uma tragédia humana, uma maldição antiga. E, no entanto, imagine-se um mundo em que todos aprendessem, numa geração, a mesma língua. Garanto: poucas gerações depois, as diferenças voltariam a aparecer. Novas línguas surgiriam… Mais vale aproveitar o melhor possível a nossa língua e olhar com curiosidade para as outras línguas todas.
V – Variação. A língua nunca é pura, varia sempre, de situação para situação (digo «a gente vai» a um amigo, mas não diria numa entrevista»), de pessoa para pessoa (a língua que aprendemos nunca é exactamente igual à língua do vizinho), de terra para terra, de ano para ano… Há quem desespere com esta língua sempre a mudar — mas sempre assim foi e sempre assim será.
W – W. É uma letra pouco usada, mas muito curiosa: lembra-nos de que, em latim, existia apenas a letra V, que se lia como um U. Depois, dividimos essa letra em V e U. Depois, duplicámos o V e criámos o W (que em inglês ainda se lê como o antigo V latino e tem o nome de “duplo U”). É, por fim, a letra com que começa o nome da livraria onde pode, agora, comprar a Gramática & Pontuação.
M – Medo. Há quem tenha medo de escrever, não vá dar-se o caso de cair no temido erro. Pois bem: é certo e sabido que, sim, vai mesmo cair no erro. Não deixe de o combater, mas descontraia: a língua é demasiado importante e saborosa para se deixar de usar por receio dum qualquer tropeção. Fale (sem pudor). Leia (bons livros). Escreva (por prazer).
N – Nascimento. Uma língua como a nossa há-de ter nascido num certo momento da História, não é? E, no entanto, nunca nasceu — foi-se criando, devagar, na rua, a partir do que vinha antes e sempre a caminho do que vem depois. Parece uma banalidade, mas não é bem: o português — como todas as línguas — nunca chegou a um estado completo, final. Está sempre a transformar-se, devagar, noutra língua, ligeiramente diferente. Um processo inevitável, mas (valha-nos isso) muito lento… É por essa razão que ainda hoje conseguimos ler poemas que falam de ondas do mar de Vigo e é por isso que, daqui a alguns séculos, ainda há-de haver quem leia um ou outro livro que alguém está a escrever neste preciso momento.
O – Ondas. Desde o mar de Vigo ao mostrengo que está no fim do mar, a nossa língua tem qualquer coisa de onda e de água, de espuma e de areia. É só impressão minha, certamente, inscrita na minha cabeça por tudo o que já li na minha língua.
P – Palavrões. Aqui, nesta letra, poderia ter deixado Pessoa. Também poderia ter escolhido a pureza, objectivo raras vezes confessado de quem gosta de limpar a língua, a mais desarrumada das criações humanas. Fico-me pelos palavrões — essa prova bruta da força das palavras, da maneira como a língua serve para levar a nossa imaginação, mesmo a menos recomendável, ao corpo e à mente das outras pessoas.
Q – Queria — ou quer? A língua também são os seus mitos, as irritações, as ideias-feitas, as pequenas graçolas. Há quem não goste do simpático «queria» e prefira o «quero». Há quem insista em pedir um «copo com água», para se proteger do perigo de receber um copo feito de água. Há quem ande sempre à caça da falta de lógica da língua. Ora, como a língua não foi feita com um esquadro nem planeada por ninguém, o material à disposição desses caçadores é praticamente infinito…
R – Redundância. E o que gostam eles (os tais caçadores de imperfeições da língua) de procurar redundâncias! É um desporto divertido, mas um pouco absurdo: afinal, a redundância é essencial a todas as línguas humanas, como é apanágio de um sistema natural. Não fosse a redundância e a língua exigiria sempre silêncio absoluto, atenção sem falhas, falantes perfeitinhos. Não somos robots e dizemos muita coisa em modo de repetição. É mesmo assim…
S – Saudade. É comum dizer que a saudade é só portuguesa e não se traduz! E, no entanto, traduz-se. A língua é qualquer coisa de muito particular, mas é também universal: não há nenhum grupo de humanos sem língua e, até hoje, não se encontrou uma frase que fosse impossível de traduzir. Até as frases que levam dentro essa portuguesíssima «saudade».
T – Tradução. Pois é: as línguas são barreiras, mas temos esse bilhete de passagem que é a tradução — ou a aprendizagem de outras línguas. E, no entanto, dentro de cada língua, estão outras barreiras bem mais profundas e difíceis de ultrapassar: às vezes, é mais fácil pôr a conversar um português com um japonês do que um benfiquista com um sportinguista…
U – Universal. A língua — a nossa língua — separa-nos dos outros povos, é verdade. Há quem veja nisto uma tragédia humana, uma maldição antiga. E, no entanto, imagine-se um mundo em que todos aprendessem, numa geração, a mesma língua. Garanto: poucas gerações depois, as diferenças voltariam a aparecer. Novas línguas surgiriam… Mais vale aproveitar o melhor possível a nossa língua e olhar com curiosidade para as outras línguas todas.
V – Variação. A língua nunca é pura, varia sempre, de situação para situação (digo «a gente vai» a um amigo, mas não diria numa entrevista»), de pessoa para pessoa (a língua que aprendemos nunca é exactamente igual à língua do vizinho), de terra para terra, de ano para ano… Há quem desespere com esta língua sempre a mudar — mas sempre assim foi e sempre assim será.
W – W. É uma letra pouco usada, mas muito curiosa: lembra-nos de que, em latim, existia apenas a letra V, que se lia como um U. Depois, dividimos essa letra em V e U. Depois, duplicámos o V e criámos o W (que em inglês ainda se lê como o antigo V latino e tem o nome de “duplo U”). É, por fim, a letra com que começa o nome da livraria onde pode, agora, comprar a Gramática & Pontuação.