BD que nos agarra

Por Ana Bárbara Pedrosa
13 de agosto de 2024
Começamos pelo Tio Patinhas e a Turma da Mônica e já fica difícil sair. Lá fica tudo lido, ou quase, e há que avançar para outras coisas. Cabe muita coisa na junção letras e grafismo. Aqui vão alguns exemplos.

A Menina que Veio do Outro Lado
É surpreendente, em parte para quem nunca se estreou neste mundo. Aqui, há um lugar que fica muito longe, dividido em duas partes: lá fora, estão criaturas amaldiçoadas; dentro, vivem os humanos. Um dia, lá se dá a junção mágica que a ficção permite: a menina humana e o Doutor, que é não-humano, cruzam-se, e há um fundo de ternura na relação: é que o segundo, mesmo sendo amaldiçoado, mesmo pairando sobre si a ideia de ser maléfico, toma conta da criança. Ao longo das páginas, o desenho simples, sempre a preto e branco, traz ao leitor um tom de melancolia e obscuridade, e a história desenha-se entre as sombras, as luzes, as escuridões.
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Nas suas mãos
Parece que Leïla Slimani vai a tudo. Não só os seus romances são experiências estéticas completamente diferentes como de repente ainda surge uma incursão na novela gráfica. O nome da autora já é há muito garantia de qualidade. Portanto, pegando no livro, é qualidade que se espera – e ei-la a cumprir o seu costume. Aqui, temos a história de Suzanne Nöel, uma notável cirurgiã francesa, pioneira do campo estético e reconstrutivo, que lutou ainda pela emancipação da mulher – aliás, no seu entender, a cirurgia estética era precisamente um instrumento para essa emancipação, numa altura em que a comunidade médica a desvalorizava. Com o seu trabalho, corrigia sinais de envelhecimento e de atividades duras para o corpo. Inventava a beleza onde a vida a roubara. E, durante a primeira guerra mundial, usou as mãos para alterar os rostos desfigurados de quem vinha dos campos de batalha. Além disso, a cirurgiã defendia o direito ao voto das mulheres – ou seja, defendia que as mãos das mulheres também serviam para fazer cruzes que definiam o destino da vida coletiva. Eis uma vida densa num formato fácil de ler. A biografia ilustrada – em que se inclui também aguarela – tem, além de informação, um carácter lúdico evidente para o leitor.
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After: a novela gráfica
Os adolescentes também têm direito às vidas deles. E se há coisa de que gostam é de histórias divertidas. Aqui temos esta, que nos mostra a vida de Tessa Young. A história chega a ser clichê, e também por isso tem piada. Não é à toa que o clichê vida clichê: é mesmo por dizer tanta coisa a tanta gente. E, ao fim e ao cabo, andamos todos ao mesmo. Tessa é a miúda calma que não parte um prato – nisso, por exemplo, é quase igual a mim. Chegando à idade adulta, deixa a casa da mãe, autoritária, e vai para a Universidade. Lá se separa do seu namorado de longa data, também todo certinho – ou seja, outro como eu. E, chegando ao novo pouso, conhece Hardin, um bad boy com piercings e tatuagens. Tem tudo para dar para o torto, mas não vou dizer aqui se é mesmo isso que acontece. As cores tendem a ser suaves, o traço é simples e há personagens com uns abdominais muito jeitosos.
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O Diário de Anne Frank
Claro, a história de Anne Frank toda a gente conhece – e muita por lhe ter lido o diário. Mas resumo-a na mesma. Entre 1942 e 1944, Anne, então adolescente, escreveu a sua vida de reclusão. Durante a ocupação nazi em Amesterdão, a menina e a família tiveram de se esconder num anexo. O seu nome, devido ao diário, sobreviveu à guerra, mas a própria Anna morreu em 1945 num campo de concentração. Faltavam dois meses para o fim daquele tormento que deu cabo de países e de milhões de vidas. O poder de O diário de Anne Frank reside na primeira pessoa: eis a história sem pó de arroz, sem justificação, o dia-a-dia de quem vivia o horror e a crueza. Foi, por isso, dos livros de ficção mais lidos por todo o mundo, fazendo parte de currículos escolares, de planos de leitura, da experiência de quem procura entender o que se passou durante o século XX na Europa. Esta adaptação é a primeira para banda desenhada. Partindo dos textos originais de Anne Frank, conta com ilustrações que vão aproximando o leitor daquela realidade. Ler isto aleija tanto quanto o original.
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Cérebrocomix
Para se perceber, é preciso cérebro, o que significa que é preciso cérebro para se perceber o cérebro. Perdoem-se as repetições, mas, de vez em quando, não dá para fazer milagres. É raro pensar-se nele; em vez disso, usamo-lo só para pensarmos sobre a vida. Neste livro, divertido e virado para o comum dos mortais cerebrados, temos uma jornalista a entrevistar um cérebro, e este a contar-nos como funciona lá por dentro, ajudando-nos dia e noite, protegendo-nos do perigo, filtrando as coisas que nos apetece dizer como se não houvesse consequências na vida. É pedagógico, claro, mas a vida não é só pedagogia: mais do que isso, a leitura flui e diverte o tempo todo. Afinal, trata-se da voz de um órgão que não serve para falar.
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