«As escolhas que fazemos dentro da cozinha fazem uma grande diferença no nosso mundo»



Em Semear o Futuro, Ivone e Joep Ingen Housz partilham não só a sua história e vivências em Paredes de Coura, como também guiam o leitor rumo a uma vida diferente, com menos coisas e mais bem-estar.

Sustentabilidade é a palavra de ordem daí que não seja estranho encontrar no livro dicas para ir às compras (para fazer a diferença em casa ou em viagem), um guia com os benefícios e usos das várias plantas que podemos encontrar na quinta e receitas, muitas receitas 100% vegetais que aproveitam o melhor que a natureza nos dá a cada estação.
Quinta das Águias
Ginger ao colo de Ivone


Ivone e Joep conheceram-se num retiro budista em França, mas foi no Minho que encontraram o lugar ideal para dar início a um projeto que mostra que é possível uma vida sustentável em harmonia com a natureza.

Na Quinta das Águias – que deve o seu nome a uma família destas aves que sobrevoava o terreno quando Ivone e Joep o visitaram pela primeira vez – procura-se o equilíbrio entre todas as espécies sejam elas animais ou vegetais. Há uma gata que cisma em partilhar o recinto com os coelhos e os porquinhos-da-índia. Há o Zacarias, um carneiro que adora festinhas e que acompanha os patos e os perus nos seus passeios, e a porca Bolota, uma ex-estrela de televisão que encontrou na quinta a sua morada.

Todos têm um papel a desempenhar: as ovelhas, por exemplo, mantêm o pasto e evitam que seja necessário recorrer a máquinas agrícolas, os gatos controlam possíveis pragas, e as plantas cultivadas convivem com a floresta e as plantas silvestres. Este é um verdadeiro santuário da biodiversidade que inclui até um banco de sementes. Aqui pratica-se agricultura biológica, evita-se o desperdício e a alimentação é vegetariana.

Na visita à Quinta, somos recebidos por um ouriço-cacheiro e acompanhados por uma gata laranja (a moradora mais recente). Na voz de Ivone percebemos o carinho e a atenção por cada animal que habita aquele espaço. Mesmo as formigas – que se escondem nas plantas que irão ser utilizadas para o chá – são devolvidas à natureza. E, quando nos sentamos à mesa para conversar, já nos esperam os deliciosos muffins do chef Joep, um apaixonado pela cozinha vegetariana.
ENTREVISTA EXCLUSIVA


Para os leitores do wookacontece que ainda não conhecem a Quinta das Águias, podem explicar-nos em que consiste e quais os valores que estiveram na origem deste projeto?

Joep: Durante parte da nossa vida vivemos na cidade e queríamos voltar à natureza, viver de maneira sustentável: viver em harmonia com a natureza, não abusar dos recursos e não produzir muito lixo. Foi isso que esteve na origem do nosso projeto. Mais tarde decidimos abrir as portas, primeiro para retiros de Yoga, meditação, desenvolvimento pessoal…

Ivone: …tudo o que estivesse relacionado com o enriquecimento pessoal de cada um.

Joep: Tivemos pessoas que gostavam muito de estar aqui e que diziam que queriam voltar com a família, com os amigos… por isso adaptámos as duas casas para receber ecoturistas, pessoas interessadas em que o valor principal é o respeito e o amor pela natureza e por todos os seres, pelas árvores e pelos animais. Esse é o valor principal: a veneração pela vida, perceber que a vida é tudo isso e não “eu sozinho”, porque eu não posso sobreviver sem essa rede de vida à volta. Esse respeito pela vida é o fio condutor. Outro valor é a compaixão, porque nós podemos ser a causa do sofrimento dos outros, como por exemplo dos animais, porque não temos consciência das nossas escolhas. Compaixão tem uma conotação religiosa em Portugal, mas aqui não é. Compaixão é simplesmente uma condição de amor.



Como é o dia a dia na quinta? Há rotinas que se repetem? Mudam de acordo com a altura do ano?

Joep: O que se repete todos os dias é comer. (risos) A sequência é: Antes de tudo, os animais, depois os hóspedes – porque eles dormem um bocadinho mais – e depois somos nós. Uma grande preocupação é comprar comida para os animais, cultivar a nossa comida.



A alimentação vegetariana é um dos aspetos de maior destaque no livro que inclui várias receitas. Qual é o papel da alimentação nesta vida mais sustentável?

Ivone: Praticamos a agricultura tradicional daqui: as batatas, os feijões, as couves, a abóbora, etc. Mas também temos um projeto de agroforestry, em que temos arbustos e árvores, dos quais usamos as folhas, as flores os frutos, que precisam de menos recursos, tanto humanos como materiais. Fazemos a conjugação de tudo isso para a alimentação, a nossa e a dos animais. Não usamos nenhum químico para “alimentar” a terra, nem herbicidas. Nada disso entra aqui. Também valorizamos muito as ervinhas que nascem espontaneamente, e que, muitas vezes, são consideradas ervas daninhas, mas não o são. Utilizámo-las no chá, na nossa alimentação. Por exemplo, o smoothie que fizemos hoje de manhã tinha urtigas que são muito saudáveis também.

Joep: Na minha vida antiga (eu não cozinhava), nunca percebi que as escolhas que fazemos dentro da cozinha fazem uma grande diferença no nosso mundo. É um espaço estratégico para mudarmos o mundo para melhor... ou pior.

Ivone [dirigida ao Joep]: É precisamente através da tua cozinha vegana que tens motivado muitas pessoas. Porque as pessoas gostam, sentem-se bem, a digestão é fácil e é saborosa e todos nós gostamos de comer. É sempre um momento bom quando estamos sentados à volta da mesa.

Joep: Nós gostamos de comer bem e de viver muito tempo…



Muitas vezes, as receitas vegetarianas recorrem a ingredientes que não são muito fáceis de encontrar. Nas receitas que apresentam no livro utilizam legumes e outros ingredientes, que, a maior parte das vezes, conseguimos encontrar em qualquer mercearia. Houve essa preocupação de mostrar que a alimentação vegetariana pode ser saborosa, mas não precisa de ser complicada?

Joep: Eu descobri que fazendo uma boa alimentação, saborosa, saudável e ética convence muito mais que todos os livros de teorias. Muita gente descobre que é uma boa comida. É, acima de tudo, uma cozinha simples e acessível. No livro dizemos que com um euro por dia pode comer-se biológico e de forma completa.

Ivone: Na cidade não é tão fácil. Tem de se organizar. Mas em Paredes de Coura também não é assim tão simples. O Joep vai normalmente a Espanha para comprar sacos de 5 e 10 quilos com grão (de espelta, trigo, centeio) para fazer a farinha e depois fazer o pão para os hóspedes e para nós. Em vez de serem sacos pequenos e de plásticos são sacos maiores e de papel. Em vez de comprar a farinha, compramos o grão e temos um moinho pequenino com uma mó de pedra, porque assim a farinha é muito mais fresca e nutritiva, porque tem o gérmen que normalmente, para as farinhas não degradarem rapidamente, é vendido à parte. É trabalhoso, mas muito mais nutritivo e menos monótono… (risos) Temos sempre de arranjar tempo. O Joep faz tudo cá. No pequeno almoço para os hóspedes faz leite de soja, de amêndoa, aveia, arroz… do que se quiser. Aquelas coisas que todas as pessoas gostam, como maionese e chantilly, são possíveis de se fazer. As pessoas pensam que chantilly sem natas não é possível, mas o Joep faz um chantilly de morrer, uma delícia. É feito com leite de soja e com óleo de girassol e tem a vantagem de se poder comer uma pratada de chantilly com uns moranguinhos e não se ficar maldisposto.

Joep: A grande vantagem… ou desvantagem que tive foi que, há quinze anos, quando chegamos a Paredes de Coura nenhuma destas coisas existia por cá. Tive de descobrir tudo e de aprender a fazer com o que tínhamos aqui.



E como aprendeu a cozinhar?

Joep: Eu era engenheiro informático e queria fazer um “cooling down” . Frequentei um curso de cozinha oriental, porque eu gostava de cozinhar, mas nunca tinha tempo durante a minha vida profissional. Depois divorciei-me e foi muito simples: tive de cozinhar. Eu era vegetariano e não tinha outra maneira de comer que não fosse preparar a própria comida. Comprei livros de cozinha, tentava fazer as receitas, mas nesses livros metade dos ingredientes não são fáceis de encontrar. Depois mudei completamente a estratégia – que é a estratégia do livro também – passei a comprar os ingredientes e depois vejo o que posso fazer com eles. Para isto é preciso conhecer algumas técnicas de base, e no livro temos receitas que incorporam a maioria das técnicas de base para uma boa cozinha vegana. Depois há a nossa criatividade. Se hoje é um dia com muita chuva e muito frio então vamos fazer um prato um bocadinho mais pesado, uma feijoada, por exemplo. Ao fazer as diferentes receitas, aprendemos as diferentes técnicas e depois com criatividade e os ingredientes disponíveis já não ficamos bloqueados. Eu organizava jantares em minha casa com os meus amigos, porque eu não gostava de cozinhar só para mim (e eles ficavam muito contentes que alguém cozinhasse para eles) e foi assim que fui aprendendo a gostar de cozinhar. E agora que eu sei que isso pode mesmo influenciar o nosso mundo… E não é uma questão de ego, eu gosto de um mundo melhor para toda gente.

Ivone: O Joep tem mesmo uma paixão. Ele cozinha com muito amor e entusiasmo. Quando há grupos que repetem a visita à Quinta, ele já sabe o que eles gostam. E depois prepara tudo com muito amor pelas pessoas a quem vai servir e também com esse respeito de que ele fala pela natureza, por um mundo melhor e mais saudável.

Joep: Sente-se a diferença na cozinha. Quando nós vamos ao restaurante e o chef do restaurante faz isso porque tem de trabalhar para ganhar dinheiro, o sabor da comida é completamente diferente.



A Quinta recebe visitantes, mas também aceita doações, trabalho de voluntários e apadrinhamento de animais. Qual é a importância dos valores da comunidade e da partilha no projeto da Quinta das Águias?

Joep: Há quinze anos, nós eramos extraterrestres aqui. Temos uma anedota: nós conhecíamos o antigo presidente de câmara, e quando ele saiu da sua presidência, o partido organizou um jantar com amigos. Chegámos ao evento, uma sala com 350 a 400 pessoas e sai da cozinha uma menina com os pratos na mão e pergunta: “Quem são os dois vegetarianos aqui?” (risos)

Ivone: Ainda não conhecíamos ninguém. O prato principal era cozido à portuguesa, com montes de carne a sair pela travessa fora e foi deixada mesmo à minha frente. O senhor que estava ao meu lado perguntava “A senhora não come? Está doente?” Eu não tive nenhuma reação. Estávamos tão fora. Só disse ao Joep se eu pudesse desaparecer daqui… Agora já mudou muito. No lançamento do livro tivemos muita gente daqui e eu fiquei contente, porque pensei, afinal isto já começa a fazer sentido aqui.

Joep: Agora somos considerados os padrinhos do vegetarianismo em Paredes de Coura. As escolas de Paredes de Coura foram as primeiras em Portugal a servirem refeições vegetarianas para as crianças. Agora é lei. Este ano tivemos a quinta edição do congresso de Paredes de Coura vegetariano, com cerca de 600 pessoas, com especialistas e cientistas do mundo inteiro que vêm cá. Os restaurantes já têm opções vegetarianas. Isso mostra como cada um de nós pode fazer a diferença. É preciso ter uma atitude inclusiva, respeitar as pessoas e as suas escolhas e ser exemplo. No Clubveg [evento organizado pela Quinta das Águias], cozinho com uma equipa de convidados. Preparamos uma refeição e temos um grupo de pessoas que podem provar. A ideia é que umas pessoas aprendam a fazer essa cozinha e outras aprendam a comer essa comida. O normal vai ser vegan e não é preciso impor. Por isso somos bem aceites na comunidade local.



Contam a certa altura no livro que, quando o Joep chegou à Quinta, a ideia inicial era plantar um grande relvado, mas que a natureza vos trocou as voltas. Qual o maior desafio que enfrentaram ao longo destes anos dedicados à Quinta das Águias?

Joep: (risos) Acho que foi uma lição maior para mim do que para a Ivone. Para mim, foi mesmo mudar de paradigma. Viemos para um sítio abandonado e quando começamos a trabalhar a terra para semear relva, existiam sementes na terra que estavam à espera de vida para sair. Como temos o princípio sustentável de não utilizar químicos, ficamos sem saber o que fazer. Tivemos então uma revelação… com a natureza temos de fazer uma parceria, não se pode dominar. A maior parte da agricultura moderna, com químicos e monoculturas, é uma guerra constante contra a natureza. Foi a minha capitulação: “Ok, natureza és maior que eu, posso trabalhar contigo?”
«Quando estamos a educar os próximos líderes do nosso mundo eles têm que perceber essa ligação [com a natureza]»


Dedicam o livro às suas mães e agradecem por lhes terem transmitido o amor pela natureza. Como podemos educar os mais pequenos para criar neles o gosto pela natureza, especialmente hoje em dia em que grande parte da população vive em cidades?

Joep: Um dos projetos que fizemos com as escolas foi cultivar uma horta pedagógica com as crianças. A felicidade das crianças de sair da escola e trabalhar na terra era espetacular. Sei que há exemplos de outras escolas que fazem isso. Para as crianças a ligação à natureza é essencial, porque muitos dos problemas que encontramos no nosso mundo têm a ver com essa falta de ligação com a natureza. Perceber a nossa interdependência com a natureza. Quando estamos a educar os próximos líderes do nosso mundo eles têm que perceber essa ligação. Pode ver-se isso na cidade, ter uma pequena horta dentro da cozinha - falamos disso no livro - podem ver as sementes a germinar e ver a força de natureza. Cultivar plantas no terraço do apartamento…

Ivone: Cada um pode fazer a sua Quinta das Águias maior ou mais pequenina (risos). Recebemos muitos casais jovens que vêm com bebés e que querem incutir logo nas crianças, não o medo, mas esse respeito e esse amor pelos animais.



Ao longo dos anos a quinta foi-se tornando num verdadeiro santuário animal. Como é partilhar o espaço com tantos animais e tantas espécies diferentes? O que mais os surpreendeu nesta verdadeira “Arca de Noé”?

Ivone: A minha filha formou a associação Animais de Rua. O objetivo deles é esterilizar os animais, especialmente os gatos silvestres, e devolvê-los aos locais depois de tratados. Mas os mais dóceis, ou os doentes, ou os que tinham algum problema começaram a vir parar aqui à quinta. Depois os cães, os porquinhos-da-índia encontrados no lixo pelas voluntárias da Animais de Rua; os cavalos a precisar de adoção, e nós fomos por aí fora até aos cento e muitos animais.



A vida de que falam no livro – respeitar o tempo da natureza, aproveitar o silêncio, contemplar as árvores, viver com menos coisas, preservar a biodiversidade – parece ser o oposto da vida moderna. Que hábitos precisamos de desaprender para voltar a uma vida mais simples?

Joep: Dentro do nosso dia a dia, tentar diminuir o consumo de produtos de origens animal. Para quem achar difícil, tentar mudar um bocadinho, diminuir a quantidade, fazer um dia por semana sem carne, como a Meat Free Monday [Segunda-feira Sem Carne] do Paul McCartney, encontrar boa comida vegana, um bom restaurante. Mas também, ser muito mais consciente do lixo que produzimos, as toneladas de lixo que vamos deixar para os nossos netos e bisnetos. Tentar diminuir: não aceitar sacos plásticos, comprar a granel, tudo aspetos de que falamos no livro. E quando ao fim de semana vamos ao shopping, e sentimos a tentação de comprar, perceber que isso não nos vai dar felicidade. Desenvolver uma forma de minimalismo. A nossa vida agora é muito mais minimalista, não compramos quase nada e somos muito mais felizes. Percebemos que esse materialismo não nos dá felicidade, pelo contrário é causa de problemas.

Ivone: Enquanto cidadãos e consumidores temos muito mais poder do que aquele que pensamos. Se cada um de nós, por exemplo, não comprar produtos testados em animais ou produtos que sabemos que têm por trás alguma forma de exploração animal, humana ou ao nível de recursos. Devemos estar mais atentos, mais despertos. A vida tem mais valor e sentimo-nos melhor quando, ao tomar as nossas opções de comprar ou não comprar, ligamos a esses detalhes e não compramos só porque no supermercado querem que compremos aquilo que está ao nível dos olhos e mais barato. Comprar antes aquilo que a nossa consciência nos diz que é mais correto e que temos necessidade. Hoje há muitos artigos baratos, mas devemos pensar de onde vieram e como estão ali.



A Ivone e o Joep conheceram-se num retiro. A Ivone escreve a certa altura no livro que encara o budismo não como uma religião, mas como uma filosofia de vida. De que forma é que essa filosofia molda a Quinta das Águias?

Ivone: Essencialmente o respeito por todos os seres. Por exemplo, ao colher o chá encontramos uma aranhinha. Esse animal quer viver da mesma forma que nós. Uma galinha, um pato, um coelho, uma porca, todos são seres sensíveis. Todos querem viver e ser felizes. O que o budismo nos ensina é o respeito pela natureza e pela vida. Não provocar dano e tentar viver isso o mais possível. Estarmos conscientes do que pode provocar cada ato nosso.

Joep: Desenvolver a plena consciência. O nosso mundo é cada vez mais orientado para as emoções. Os media, a indústria estão a estimular em demasia as nossas emoções. Ver como funciona a nossa consciência faz parte desse caminho, perceber qual é a verdade da natureza e treinar a mente para ver a realidade.



Escolheram para o livro o título Semear o Futuro, mas o futuro parece muitas vezes menos risonho com a ameaça das alterações climáticas e de um mundo cada vez mais poluído. Acreditam que é possível “semear” um futuro melhor?

Joep: Em Portugal, a geração dos avós e dos bisavós tinha uma ligação muito forte com a natureza e com os animais. Viviam em harmonia com a natureza e isso foi perdido. O futuro vai ser o resultado do que semearmos hoje. E a intenção deste livro é mesmo “semear” essas sementes positivas e dizer às pessoas que a felicidade está fora da zona de conforto. Nós estamos muito mais contentes com a nossa vida hoje do que com a nossa vida antiga, não é?

Ivone: É trabalhosa, é um facto, é sem parar de manhã à noite, mas é um cansaço feliz. Mas também em relação ao semear, nós tentamos valorizar e preservar as sementes em si. Tanto as autóctones como as outras, e também acho que o título reflete essa preocupação.
«Os humanos são a minoria aqui.»


Recebem visitantes na Quinta das Águias. Acredito que muitos não estejam habituados à vida numa quinta. Têm alguma história curiosa que queriam partilhar? O que levam os visitantes destas visitas?

Ivone: Nós normalmente recebemos as pessoas a explicamos o conceito, mas nem sempre é possível. Então tivemos um visitante que chegou, viu os animais todos e depois foi comentar com outra pessoa, que por acaso já cá tinha estado: “Então se são vegetarianos não sei para que é que têm estes animais todos!” (risos) Uma vez também nos quiseram comprar a Bolota, a nossa porca maior. Esteve aqui um carpinteiro e comentou “Ah, vocês têm ali uma porca muito grande, não a querem vender?”. E eu expliquei que nós tínhamos os animais, mas não eram para vender. E o senhor perguntou “Então para que são? “ E eu respondi que era para viver aqui e estarem felizes. Diz-me ele: “Ah, não é para comer? Que pena!” Tenho a certeza que já estava a ver a Bolota em forma de costeleta e, como eu lhe disse que não, ele ainda insistiu: “Mas sabe… aquela já está velha. Eu compro-lhe aquela e ainda lhe dou duas porcas novas!”

Joep: Temos muito feedback dos visitantes. Ainda esta manhã recebi um e-mail de um casal americano a dizer que tivemos uma grande influência sobre a vida deles e que estar aqui muda muito as pessoas. Mostra que podemos fazer a diferença, mudar de hábitos e até fazer ativismo.

Ivone: Muitas pessoas se tornaram vegetarianas aqui. As pessoas percebem neste contacto com animais que eles adoram festas, vêm ter connosco e, mesmo quem tem medo de certos animais, vê que os animais se aproximam e não fazem mal nenhum. Se olharem para os olhos de uma galinha que está lá em baixo feliz a ciscar, veem que aquele animal não é assim tão diferente de nós, só comunica de outra forma. E depois a própria energia da natureza, como aqui está tudo no seu estado puro e mais natural...

Joep: (risos) E está em maioria. Os humanos são a minoria aqui.

Ivone: Já tivemos pessoas que vinham mal a nível emocional e então não foram passear pela quinta, nem estiveram em contacto com os animais. Mas só o facto de estarem neste ambiente, mais protegido, fez com que se sentissem bem e mais equilibradas. Com a cereja em cima do bolo do Joep cozinhar um bom prato! Ficamos contentes por as pessoas saírem daqui felizes.
O WOOKACONTE em visita à Quinta das Águias, Paredes de Coura

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