«Annabel Lee», um poema de Edgar Allan Poe

5 de março de 2025
Edgar Allan Poe (1808-1849), é um dos mais conceituados escritores dos EUA, estando o seu nome associado a imagens de enredos sombrios e personagens assustadoras. Tendo escrito em vários géneros, foi a sua contribuição para o género do horror que o tornou famoso. O escritor foi um dos primeiros a envolver o horror profundo, intuitivo e psicológico. Em muitas das suas histórias, o verdadeiro monstro era a capacidade de maldade que existe dentro de cada pessoa e o que acontece quando essa maldade é posta em prática.
Apesar de a carreira de Poe ter durado menos de duas décadas, o seu impacto na literatura, especificamente na poesia, nos contos e na crítica literária, ficou gravado na história do terror. Com mais dezenas de contos, poemas e um romance, as obras de Poe prepararam o terreno para os leitores fascinados pela atmosfera sinistra e é responsável por alguns dos melhores poemas de sempre, agora reeditados em Edgar Allan Poe – Obra Poética Completa, com tradução de Margarida Vale Gato e belíssimas ilustrações de Filipe Abrantes.
Annabel Lee, o poema que reproduzimos abaixo, presta homenagem a uma jovem e bela mulher amada, cuja vida terminou precocemente, e que, tudo indica, terá sido inspirada na esposa de poe, Virigina Eliza Clemm Poe, que morreu de tuberculose aos 24 anos.


ANNABEL LEE

Num reino de antigamente,
    Num reino ao pé do mar, havia ali
Uma donzela nubente,
    A quem podeis chamar Annabel Lee;
E tinha ela tão-só este fim:
    Amar-me e ser amada só por mim.
Ela era menina e eu ainda moço
    Nesse reino ao pé do mar;
Mas imenso era o amor nosso,
    Meu e de Annabel Lee –
Que lá no Céu soía cobiçar
    Todo o alado Serafim.

E, por isso, há muito tempo,
    Num reino ao pé do mar em que vivi,
Duma nuvem veio o vento
    À noite, para gelar Annabel Lee;
Chegaram, de alta estirpe, seus parentes,
    E de mim a apartaram,
E numa tumba a trancaram,
    Num reino de antigamente.

Os anjos lá no Céu, menos contentes,
    Como haviam de não nos invejar?
Sim! – e todos estão cientes,
    Neste reino à beira-mar,
Que por isso à noite o vento
    Se fez daquela nuvem, e gelou
Annabel Lee, e a matou.

Mas nosso amor era muito mais vasto
    Do que o dos mais velhos que nós –
    De tantos mais sábios que nós –
E nem os anjos no Alto,
    Nem no fundo os demónios do mar,
Jamais poderão minha alma apartar
    À alma de Annabel Lee.

Pois jamais resplende a Lua sem que eu sonhe a imagem sua –
    De Annabel Lee, tão formosa –
E jamais se erguem as estrelas sem que eu vislumbre nelas
    Os olhos da amada radiosa;
Assim, junto dela, à noite repouso,
De meu bem, minha vida, minha esposa –
    Ao pé da tumba, no mar
    Que marulha na enseada estrepitosa.


Edgar Allan Poe, Obra Poética Completa, Tinta da China, fevereiro de 2025, pp. 185-186

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