Agustina, a escritora incómoda que ironizava os nossos vícios

Agustina Bessa-Luís
Controversa, contestatária, irónica, orgulhosa como Sibila, mas nunca indiferente. Agustina Bessa-Luís (1922-2019) não se inibia de dizer o que pensava: nos livros, nos cargos que ocupou, nas intervenções que fez, nas entrevistas que deu, em suma, na vida pública e na privada.

Não foi a mais lida das romancistas portuguesas, mas a sua obra extravasou e suscitou desde sempre emoções extremas e sentimentos contraditórios. Indefinível para uns, inconfundível para outros.

Um dia, escreveu sobre si própria: «Agustina era um caso perdido, e devia-se sorrir ironicamente, porque a ironia protela as perplexidades».
«QUANDO APRENDI A LER, NO MUNDO FEZ-SE LUZ E PASSEI A COMPREENDER TUDO»
Agustina Bessa-Luís (nome literário de Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa-Luís) nasceu em 1922, em Vila Meã, Amarante.
Começou a escrever muito cedo, ainda na adolescência, e publicou a sua primeira obra, Mundo Fechado, em 1948. Manteve desde então um ritmo de publicação pouco usual nas letras portuguesas, contando com mais de cinquenta obras, entre romances, contos, teatro, biografias, crónicas de viagem, ensaios e livros infantis. E apesar das sucessivas reedições dos seus títulos, a autora queixava-se de ser «mais conhecida do que lida.»

Foi o romance A Sibila, publicado em 1954, que impôs a autora como uma das vozes mais importantes da ficção portuguesa contemporânea.
«SOU PERIGOSA PORQUE CONHEÇO PROFUNDAMENTE A NATUREZA HUMANA»
O Douro, onde passou a infância, marcou o seu imaginário romanesco, que foi também profundamente influenciado por um dos grandes expoentes do Romantismo, Camilo Castelo Branco. A autora possui um estilo único, enigmático e desconcertante, que revela uma profunda reflexão sobre a condição humana.
Vários dos seus romances foram adaptados ao cinema pelo realizador Manoel de Oliveira, de quem era amiga. É o caso de Vale Abraão, por exemplo, ou O Princípio da Incerteza - Jóia de Família, exibido no Festival de Cannes.

Agustina foi membro da Academie Européenne des Sciences, des Arts et des Lettres e da Academia Brasileira de Letras. Foi distinguida com a Ordem de Sant'Iago de Espada, o grau de Officier de l'Ordre des Arts et des Lettres do governo francês e recebeu, em 2004, o Prémio Vergílio Ferreira e o Prémio Camões, o mais alto galardão da literatura em língua portuguesa.

Agustina Bessa-Luís, escreve Isabel Rio Novo na biografia O Poço e a Estrada, «é o nome de uma pessoa extraordinária.»

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