A «Anatomia do Belo» num poema

23 de abril de 2026
Treze anos após a sua primeira edição, Você Está Aqui, de João Luís Barreto Guimarães, regressa às livrarias para deleitar os leitores deste poeta multipremiado, que é também tradutor e médico.
Neste livro, o autor transpõe, na primeira parte, a que chamou “Partidas”, as suas impressões de viagem e, na segunda, sob o tema “Chegadas”, o regresso à observação do quotidiano e dos lugares familiares.
Escolhemos um poema sobre Veneza, certos de que, se já lá esteve, irá rever-se nestes versos.


Anatomia do belo

ao Jorge Sousa Braga

Em Veneza
seria gato. Por certo não entraria
em San Marco de vaporetto (pela Páscoa
o doge vinha visitar pessoalmente
noviças
beneditinas). Mas são deles as ruelas do
gueto de Cannaregio onde o belo é simetria
e o tempo:
duração. Pode-se perder tudo em Veneza
(uma vida um
amigo o
último barco para o Lido) só não
se perde a beleza que o diga este felino
que me incendiou a alma
(mais que um trago de Bellini
uma taça de Bardolino) e
me devolveu a certeza de que a
perecível beleza por uma vez
foi palpável.

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