50 anos desde 1974

Por Ana Bárbara Pedrosa
24 de abril de 2024
Durou muito, estragou muito, e por isso o seu fim é inesgotável. Cinquenta anos depois do fim da ditadura, ainda há muito que ler sobre o dia que abriu a janela ao mundo.
 
25 de Abril – No Princípio Era o Verbo
O 25 de Abril foi uma festa, e este livro festeja-a. A 50 anos do dia, já levamos dois de vantagem ao tempo em que Portugal foi trevas. Ora, para festejar, nada melhor do que o traço Nuno Saraiva: a preto e branco ou a cores, qualquer coisa que venha daquela pena é uma alegria para quem vê. Já o texto é de Manuel S. Fonseca. Neste livro, percebe-se a liberdade com o seu tom de alegria louca e coletiva, percebe-se o dia como catarse que mudou o destino à vida. A partir daquela madrugada, o futuro foi outra coisa – pôde, aliás, ser qualquer coisa. Dali vieram partidos, ideólogos, cartazes; dali vieram debates, conversas, alívios. Dali veio a manifestação de um povo, cada um com a sua bandeira sem ter medo de amarras. O livro pega em tudo o que marcou aquele dia que criou outro povo, de frases, slogans e fantasias até à brava promessa de uma vida por descobrir.
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Gente comum. Uma história na PIDE
Eu não sou impressionável (os Pedrosas são gente rija), mas, depois de ler este livro, passei noites a dormir mal. O pior nem era a insónia: era adormecer e sonhar com isto. Aurora Rodrigues foi detida pela PIDE e levada para a prisão de Caxias em 1972, onde foi torturada durante três meses. Com 21 anos, foi impedida de dormir durante 450 horas. O relato não era apenas de cansaço, mas também de espancamentos frequentes, de frequentes tentativas de a endrominarem. O leitor sente-lhe a confusão mental, e sente também o desespero e a desumanidade de quem usava atrocidades por dá cá aquela palha. Gente comum devia passar pelas mãos de todos para que a memória não morra, para que ninguém se esqueça do que era a PIDE: antes do 25 de Abril, havia na vida coisas destas.
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25 Mulheres – Uma Revolução no Feminino
O Estado Novo tentou domesticar mulheres. Vedou-lhes o acesso à educação e à produção simbólica e destinou-lhes nada mais do que a pacatez do lar. Enquanto esteve em vigor, tentou impedir tudo o que pudesse dar a uma mulher mais do que um papel coadjuvante na vida: seria esposa e mãe e nada mais. Neste livro, temos as histórias de 25 mulheres, contadas em voz própria. Ao lê-las hoje, não há como não fazer a ponte com os tempos de hoje em dia, pesando o que mudou, comparando o que há de semelhante. Em cada voz, há uma vida diferente, por isso o livro traz múltiplas luzes sobre um poder político que, tentando fazer de metade da Humanidade uma tábua rasa, foi vencido pelo tempo.
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O Meu Primeiro 25 de Abril
Foi o primeiro dia do resto da vida de muita gente, incluindo quem ainda nem tinha nascido. Não fosse esse dia e tudo seria outra coisa. Este livro olha para a hora H, que significou não apenas a cambalhota que o quotidiano deu em Portugal, mas também o fim da guerra colonial. Cá no burgo, para quem não era capataz, passou a haver aquela coisa tão bela e banal que é andar tranquilo pela rua. José Jorge Letria conta como foi aquele dia para si, que o viveu. Muitos de nós poderão atacar pelo simbolismo, contar o que não viram, e a coisa não valerá pouco. Mas aqui temos os olhos que vêem em força bruta, a História a acontecer naquele dia, o impacto que teve aquela chuva de cravos, ao invés do simbolismo de quem ouve falar do dia na escola. O 25 de Abril de 1974 é um dia que não precisa de ser vivido para não ser esquecido, mas aqui temos a lembrança de quem passou por ele.
 
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Liberdade
E terminamos com um romance. Parte-se da vida real e cria-se outra coisa, e essa coisa também é vida real. No epicentro do livro, há uma família portuguesa, e ei-la com segredos e traições; à sua volta, existe um país à toa, com movimentos políticos e espiões internacionais e toda a História que sabemos. O contexto é o que vemos nos quatro livros anteriores, mas o texto vai fazendo as suas páginas e o leitor vai seguindo a vida de duas mulheres que vão fazendo a sua vida: uma vê o seu casamento chegar ao fim, outra não sabe bem a quantas anda. Entre o Primeiro de Maio de 1974 e o 25 de Novembro de 1975, a acção faz-se, tentando cristalizar a memória de um país.
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