«O Belo Navio», um poema sensual de As Flores do Mal, de Baudelaire

Por Vera Dantas
24 de fevereiro de 2025
As Flores do Mal (1857), de Charles Baudelaire, são uma obra-prima da poesia moderna, de tal modo disruptiva que escandalizou a sociedade francesa da época em que foi publicada, que chegaria mesmo a condenar o autor ao banco dos réus. Quando a primeira edição de As Flores do Mal foi publicada, em junho de 1857,13 dos seus 100 poemas foram imediatamente considerados como ofensas à religião ou à moral pública. Após um julgamento de um dia, em 20 de agosto de 1857, seis dos poemas foram retirados do livro por obscenidade, e Baudelaire teve mesmo de pagar uma multa. A proibição oficial só seria levantada em 1949. O livro tornou-se um sinónimo de depravação, morbidez e obscenidade, rotulando Baudelaire como o dissidente condenado e poeta pornográfico. Mas, na verdade, nela encontramos o homem urbano confrontado com a violência da modernidade, que mistura, no mesmo poema, um tom elevado com temas considerados indignos, carregados de ódio, horror ou sensualidade.
O fracasso desta obra, da qual Baudelaire tanto esperava, foi um golpe amargo para o escritor, tendo ensombrado os seus últimos com um sentimento de fracasso e desespero. Mas tal não impediu que a poética ousada do escritor tivesse influenciado a literatura que lhe seguiria. Na altura da morte de Baudelaire, muitos dos seus trabalhos não estavam publicados ou encontravam-se esgotados, mas isso iria mudar em breve. Os futuros líderes do movimento simbolista que assistiram ao seu funeral já se descreviam como seus seguidores. No século XX, Baudelaire era amplamente reconhecido como um dos maiores poetas franceses do século XIX.
A Assírio & Alvim dá agora nova vida a esta obra, numa edição revista e aprimorada, com a tradução de Fernando Pinto do Amaral, cuja primeira edição, em 1992, ganhou os prémios PEN Club e Associação Portuguesa de Tradutores.
No poema que aqui reproduzimos, a sensualidade poética de Baudelaire navega pelos versos.

O BELO NAVIO


Ó mole encantadora! Eu quero descrever-te
As belezas que adornam tua mocidade;
    Quero pintar essa beleza
Que sabe aliar a infância com a maturidade.

Quando varres o ar com a tua saia larga
Pareces uma nau, bela, a fazer-se ao largo,
    Ondeando, com as velas ao vento,
Seguindo um ritmo doce e preguiçoso e lento.

Sobre o pescoço forte e esses ombros largos,
Meneia-se a cabeça, exibe estranhas graças;
    Com um ar plácido e triunfante
Segues o teu caminho, imponente criança.

Ó mole encantadora! Eu quero descrever-te
As belezas que adornam a tua mocidade;
    Quero pintar essa beleza,
Que sabe aliar a infância com a maturidade.

O teu colo que avança e soergue o tecido,
Esse triunfal colo é como um belo armário
    De portas abauladas, claras,
Que, tal como os escudos, atraem os brilhos;

Escudos provocadores, com bicos cor-de-rosa!
Armário com segredos, cheio de boas coisas,
    De vinhos, perfumes, licores
Fazendo delirar mentes e corações!

Quando carres o ar com a tua saia larga,
Pareces uma nau, bela, a fazer-se ao largo,
    Ondeando, com as velas ao vento,
Seguindo um ritmo doce e preguiçoso e lento.

As tuas pernas, sob anáguas que se agitam,
Atormentam desejos obscuros, irritam-nos,
    Tal como duas feiticeiras
Mexendo um filtro negro em profunda caldeira.

Teus braços, que não temem os precoces hércules,
São das nédias jibóias os sólidos émulos,
    Feitos pra estreitar tenazmente
O teu amante, até o gravares no coração.

Sobre o pescoço forte e esses ombros largos,
Meneia-se a cabeça, exibe estranhas graças;
    Com um ar plácido e triunfante
Segues o teu caminho, imponente criança.


Charles Baudelaire, As Flores do Mal, Assírio & Alvim, fevereiro de 2025, pp. 215, 217

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