«Não basta encher de sonhos a mala de viagem»
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22 de janeiro de 2025
No centenário do nascimento do poeta cabo-verdiano Daniel Filipe, uma nova edição de A Invenção do Amor e Outros Poemas, celebra o reencontro com um poema que atravessou gerações. Lido por Mário Viegas, filmado por António Campos e escrito por uma das vozes mais marcantes da poesia em língua portuguesa do século XX, este poema integra uma obra icónica. Juntamente com Canto e Lamentação na Cidade Ocupada e Balada para a Trégua Possível, foi publicado no primeiro volume da coleção Forma, da editora Presença, em 1969. Esta nova edição homenageia tanto a poesia de Daniel Filipe quanto a memória dessa coleção emblemática.
4.
Não basta estender as mãos vazias para o corpo mutilado,
acariciar-lhe os cabelos e dizer: Bom dia, meu Amor.
Parto amanhã.
Não basta depor nos lábios inventados a frescura de um beijo
doce e leve e dizer: Fecharam-nos as portas.
Mas espera.
Não basta amar a superfície cómoda, ritual, exacta nos contornos a que a mão se afeiçoa e dizer: A morte é o caminho.
Não basta olhar a Amante como um crime ou uma injúria e
apesar disso murmurar: Somos dois e exigimos.
Não basta encher de sonhos a mala de viagem, colocar-lhe as
etiquetas e afirmar: Procuro esquecimento.
Não basta escutar, no silêncio da noite, a estranha voz distante,
entre ruídos de música e interferências aladas.
Não basta ser feliz.
Não basta a Primavera.
Não basta a solidão.
5.
É preciso cantar, é preciso sorrir,
encher a escuridão com árvores sem nome.
Estamos sós no mistério dos nossos quinze anos.
A tormenta passou. A comida arrefece.
A viagem sem história concede-nos a calma:
Serenos existimos, ocultos, dominados.
Só o navio de fogo navega sobre as águas
(ponto negro no mapa que não teremos nunca).
No silêncio da espera, murmuramos palavras,
desfraldamos bandeiras, corrompemos o sonho.
Desejamos o amor, completo e derradeiro
como o cheiro do mosto nos lagares de Setembro.
— mas olhamos o sexo e não compreendemos
a noite preenchendo um corpo de mulher.
E pura que ela fosse! Desfar-se-ia em bruma…
De mãos vazias vamos para o sono comum.
Um cavalo na estepe, o nosso vago anseio
marcando-nos temores na impúbera face.
Recolhemos o gesto, a for primaveril,
o canal dos sentidos debruado de escombros
— e rígidos a planície inútil
Com nervuras de sal no rosto imaginado.
Daniel Filipe, As Manhãs que Não Conheces, Ed. Presença, Janeiro de 2025, pp. 42 a 44
4.
Não basta estender as mãos vazias para o corpo mutilado,
acariciar-lhe os cabelos e dizer: Bom dia, meu Amor.
Parto amanhã.
Não basta depor nos lábios inventados a frescura de um beijo
doce e leve e dizer: Fecharam-nos as portas.
Mas espera.
Não basta amar a superfície cómoda, ritual, exacta nos contornos a que a mão se afeiçoa e dizer: A morte é o caminho.
Não basta olhar a Amante como um crime ou uma injúria e
apesar disso murmurar: Somos dois e exigimos.
Não basta encher de sonhos a mala de viagem, colocar-lhe as
etiquetas e afirmar: Procuro esquecimento.
Não basta escutar, no silêncio da noite, a estranha voz distante,
entre ruídos de música e interferências aladas.
Não basta ser feliz.
Não basta a Primavera.
Não basta a solidão.
5.
É preciso cantar, é preciso sorrir,
encher a escuridão com árvores sem nome.
Estamos sós no mistério dos nossos quinze anos.
A tormenta passou. A comida arrefece.
A viagem sem história concede-nos a calma:
Serenos existimos, ocultos, dominados.
Só o navio de fogo navega sobre as águas
(ponto negro no mapa que não teremos nunca).
No silêncio da espera, murmuramos palavras,
desfraldamos bandeiras, corrompemos o sonho.
Desejamos o amor, completo e derradeiro
como o cheiro do mosto nos lagares de Setembro.
— mas olhamos o sexo e não compreendemos
a noite preenchendo um corpo de mulher.
E pura que ela fosse! Desfar-se-ia em bruma…
De mãos vazias vamos para o sono comum.
Um cavalo na estepe, o nosso vago anseio
marcando-nos temores na impúbera face.
Recolhemos o gesto, a for primaveril,
o canal dos sentidos debruado de escombros
— e rígidos a planície inútil
Com nervuras de sal no rosto imaginado.
Daniel Filipe, As Manhãs que Não Conheces, Ed. Presença, Janeiro de 2025, pp. 42 a 44