Junto à flor que não deixa dormir, um poema de Víctor Rodríguez Núñez
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10 de abril de 2024
Víctor Rodríguez Núñez (Havana, Cuba, 1955) é poeta, jornalista, ensaísta, tradutor e professor. Publicou dezassete livros de poesia, quase todos premiados e reeditados. Tem antologias da sua obra publicada em muitos países de língua espanhola e traduzidas para diversos idioma. Durante os anos 80, foi diretor da revista cultural cubana El Caimán Barbudo, onde publicou numerosos trabalhos sobre poesia e cinema.
Matéria Sublevada – Certos Poemas 1979-2018 é a sua obra mais recentemente publicada por cá, pela editora Exclamação. Com prefácio de João Rasteiro, reúne uma seleção de poemas ao longo de quatro décadas de criação do autor. Este, é um dos mais marcantes.
[JUNTO À FLOR QUE NÃO DEIXA DORMIR]
no lado oposto ao do coração
enumeras fendas
e não vale gritar no interior
desenterrar as almas os sons
nem sorver-me em teu cálice como ausência
melhor é impedir que o sonho calque
outra linha quebrada
Matéria Sublevada – Certos Poemas 1979-2018 é a sua obra mais recentemente publicada por cá, pela editora Exclamação. Com prefácio de João Rasteiro, reúne uma seleção de poemas ao longo de quatro décadas de criação do autor. Este, é um dos mais marcantes.
[JUNTO À FLOR QUE NÃO DEIXA DORMIR]
no lado oposto ao do coração
enumeras fendas
e não vale gritar no interior
desenterrar as almas os sons
nem sorver-me em teu cálice como ausência
melhor é impedir que o sonho calque
outra linha quebrada
o vento norte salitroso
cobre-te com uma interrogação
nada mais útil que o que não é
porque te obriga a estar
nada mais bonito do que o quarto reverso
volta a despregar
o rebelde nada
é o limiar de tudo
a luta macera-se sem louro
o sucesso cozinha-se sobre pedras
no preparo para o fracasso
bêbado como um peixe na enchente
deixas o tecido escuro a entranha de tinteiro
para os vencedores do haulin
isso explica
teu contentamento com a última neve
no branco milharal resististes
os metais pontuais
não guardas a virtude no sótão
sem medalhas teu peito
de gauajiro se incha
ressona-te a desonra acuada
teus filhos jogam nos oito caminhos
tua mulher carrega um anel de volfrânio
pegaste-me sem uma só simulação
com afiada ternura
a golpe de radiante enunciação
como o valente sei retroceder
façanha de escudeiro
cavalheiro que a ira arreia
uma sarça em cinzas floresce
está escrito na folha de minha espada
é árduo esse romance
como cortar o primeiro pedaço de uma torta
meu ciúme de tua sombra
não poder dar-te a pequena morte
o obstáculo a espuma facilita tudo
teu alento nevado minha tosse ritual
no final livras-me da perfeição
e posso ser perfeito
agitado sem fundo
estabeleces as hastes de bambu
que te abrigam de aflições e geadas
os nervos emolduras
dás pontos de razão
um nu desatado sem extremos
ninguém pode fechar a porta que abres
há finais felizes
teu desinteresse ainda não é absoluto
e incistas-me a ser o que não sou
teu orgulho escoa entre os dedos
ásperos de giz
pelo menos tens mãos
com que seguir amaciando o vazio
nada será como imaginaste
mas tudo será
Víctor Rodríguez Núñez
cobre-te com uma interrogação
nada mais útil que o que não é
porque te obriga a estar
nada mais bonito do que o quarto reverso
volta a despregar
o rebelde nada
é o limiar de tudo
a luta macera-se sem louro
o sucesso cozinha-se sobre pedras
no preparo para o fracasso
bêbado como um peixe na enchente
deixas o tecido escuro a entranha de tinteiro
para os vencedores do haulin
isso explica
teu contentamento com a última neve
no branco milharal resististes
os metais pontuais
não guardas a virtude no sótão
sem medalhas teu peito
de gauajiro se incha
ressona-te a desonra acuada
teus filhos jogam nos oito caminhos
tua mulher carrega um anel de volfrânio
pegaste-me sem uma só simulação
com afiada ternura
a golpe de radiante enunciação
como o valente sei retroceder
façanha de escudeiro
cavalheiro que a ira arreia
uma sarça em cinzas floresce
está escrito na folha de minha espada
é árduo esse romance
como cortar o primeiro pedaço de uma torta
meu ciúme de tua sombra
não poder dar-te a pequena morte
o obstáculo a espuma facilita tudo
teu alento nevado minha tosse ritual
no final livras-me da perfeição
e posso ser perfeito
agitado sem fundo
estabeleces as hastes de bambu
que te abrigam de aflições e geadas
os nervos emolduras
dás pontos de razão
um nu desatado sem extremos
ninguém pode fechar a porta que abres
há finais felizes
teu desinteresse ainda não é absoluto
e incistas-me a ser o que não sou
teu orgulho escoa entre os dedos
ásperos de giz
pelo menos tens mãos
com que seguir amaciando o vazio
nada será como imaginaste
mas tudo será
Víctor Rodríguez Núñez