Wook se escreve no Canadá – Parte I
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3 de dezembro de 2025
A literatura canadiana espelha a vastidão do país: das distopias de Margaret Atwood ao realismo íntimo de Alice Munro, da visão futurista de William Gibson às fábulas de Yann Martel. Diversa e ousada, reflete identidades, memórias e futuros, fazendo da beleza do Grande Norte um idioma partilhado.
Nesta primeira parte, apresentamos 5 dos mais notáveis escritores canadianos. (*)
Nesta primeira parte, apresentamos 5 dos mais notáveis escritores canadianos. (*)
Margaret Atwood (n. 1939)
Arquiteta da distopia e da ficção especulativa
Publicada em mais de 45 países, Margaret Atwood é uma das mais reconhecidas e prolíficas autoras canadianas, com uma obra que transita da distopia e ficção especulativa ao romance histórico, explorando questões de género e identidade, religião e mitos, e ecologia (na trilogia MaddAddam), num estilo irónico e vívido.
O seu romance mais célebre, A História de uma Serva (1985), transporta-nos para Gileade, uma teocracia repressiva numa América do futuro, onde as mulheres férteis, as Servas, privadas dos seus direitos, são forçadas a terem filhos para elite. Transferida para casa do Comandante, a serva Defred recusa-se a esquecer a sua vida anterior, o que a torna subversiva. Esta distopia deu origem a uma aclamada série televisiva coescrita por Atwood. Na sequela Os Testamentos (2019), covencedora do Prémio Booker, a história centra-se em três mulheres, expondo os segredos do regime e a resistência emergente, abrindo caminho à esperança.
Olho de Gato (1988) – narrado em flashbacks, retrata uma pintora controversa para quem a arte é uma marca do passado e uma forma de o superar – e O Assassino Cego – narrativa amarga, Prémio Booker, sobre a inveja entre irmãs e o envelhecimento feminino – são duas das obras mais marcantes e Atwood.
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Publicada em mais de 45 países, Margaret Atwood é uma das mais reconhecidas e prolíficas autoras canadianas, com uma obra que transita da distopia e ficção especulativa ao romance histórico, explorando questões de género e identidade, religião e mitos, e ecologia (na trilogia MaddAddam), num estilo irónico e vívido.
O seu romance mais célebre, A História de uma Serva (1985), transporta-nos para Gileade, uma teocracia repressiva numa América do futuro, onde as mulheres férteis, as Servas, privadas dos seus direitos, são forçadas a terem filhos para elite. Transferida para casa do Comandante, a serva Defred recusa-se a esquecer a sua vida anterior, o que a torna subversiva. Esta distopia deu origem a uma aclamada série televisiva coescrita por Atwood. Na sequela Os Testamentos (2019), covencedora do Prémio Booker, a história centra-se em três mulheres, expondo os segredos do regime e a resistência emergente, abrindo caminho à esperança.
Olho de Gato (1988) – narrado em flashbacks, retrata uma pintora controversa para quem a arte é uma marca do passado e uma forma de o superar – e O Assassino Cego – narrativa amarga, Prémio Booker, sobre a inveja entre irmãs e o envelhecimento feminino – são duas das obras mais marcantes e Atwood.
Alice Munro (1931-2024)
Mestre do conto contemporâneo
Ao longo de mais de 40 anos, a Nobel da Literatura Alice Munro dissecou tanto o desejo como o lado obscuro da vida quotidiana no Canadá rural. O seu estilo inovador, com progressão não linear e ciclos de contos entrelaçados, transformou o género do conto.
Munro retratou a vida doméstica e os relacionamentos de adolescentes, mulheres e famílias canadianas, com os seus conflitos morais e acontecimentos triviais transformadores, revelando a forma imprevisível como os transcendem. As suas histórias movem-se para trás e para a frente no tempo, e entre a realidade e a memória, captando as reviravoltas os recantos mais íntimos das vidas que descreve.
Na coletânea <Amada Vida (2012), a sua última obra, a autora regressa às experiências da sua infância, estabelecendo uma conexão com o seu primeiro e único romance, Vidas de Raparigas e Mulheres (1971). Num tom mais pessoal e introspetivo, Munro explora a memória, a identidade e a passagem do tempo, oferecendo uma reflexão profunda sobre a vida e a escrita, considerada como uma obra-prima pela crítica.
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Ao longo de mais de 40 anos, a Nobel da Literatura Alice Munro dissecou tanto o desejo como o lado obscuro da vida quotidiana no Canadá rural. O seu estilo inovador, com progressão não linear e ciclos de contos entrelaçados, transformou o género do conto.
Munro retratou a vida doméstica e os relacionamentos de adolescentes, mulheres e famílias canadianas, com os seus conflitos morais e acontecimentos triviais transformadores, revelando a forma imprevisível como os transcendem. As suas histórias movem-se para trás e para a frente no tempo, e entre a realidade e a memória, captando as reviravoltas os recantos mais íntimos das vidas que descreve.
Na coletânea <Amada Vida (2012), a sua última obra, a autora regressa às experiências da sua infância, estabelecendo uma conexão com o seu primeiro e único romance, Vidas de Raparigas e Mulheres (1971). Num tom mais pessoal e introspetivo, Munro explora a memória, a identidade e a passagem do tempo, oferecendo uma reflexão profunda sobre a vida e a escrita, considerada como uma obra-prima pela crítica.
William Gibson (n. 1948)
O profeta do ciberespaço e da realidade virtual
Quando foi publicado em 1984, Neuromancer, de William Gibson, transformou a ficção científica, arrecadando os prémios Nebula, Philip K. Dick e Hugo, vendendo mais de 6 milhões de cópias e dando origem ao género literário cyberpunk.
Para compreender a importância desta obra, saiba-se que foi nela que Gibson concebeu os conceitos de “matrix” e de “ciberespaço”, um mundo virtual produzido por ligações entre computadores, com acesso às infraestruturas da Internet. Brilhando misteriosamente em segundo plano, existem inteligências artificiais poderosas que ninguém realmente compreende. É nesse mundo futurista que Case, um hacker informático, é contratado por um empregador misterioso para realizar o hack definitivo, e voltar ao ciberespaço e à matrix. Ao navegar por um futuro distópico repleto de inteligência artificial, espionagem corporativa e realidade virtual, ele enfrenta não só um inimigo muito mais inteligente e forte do que ele, como também o seu próprio passado. Acompanhado por Molly, uma samurai de olhos espelhados, e Armitage, um veterano da guerra contra os soviéticos, Case vai ter de ultrapassar obstáculos inimagináveis, numa sociedade controlada por corporações. Uma obra-prima literária que nos deu um vislumbre do futuro digital da Humanidade.
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Quando foi publicado em 1984, Neuromancer, de William Gibson, transformou a ficção científica, arrecadando os prémios Nebula, Philip K. Dick e Hugo, vendendo mais de 6 milhões de cópias e dando origem ao género literário cyberpunk.
Para compreender a importância desta obra, saiba-se que foi nela que Gibson concebeu os conceitos de “matrix” e de “ciberespaço”, um mundo virtual produzido por ligações entre computadores, com acesso às infraestruturas da Internet. Brilhando misteriosamente em segundo plano, existem inteligências artificiais poderosas que ninguém realmente compreende. É nesse mundo futurista que Case, um hacker informático, é contratado por um empregador misterioso para realizar o hack definitivo, e voltar ao ciberespaço e à matrix. Ao navegar por um futuro distópico repleto de inteligência artificial, espionagem corporativa e realidade virtual, ele enfrenta não só um inimigo muito mais inteligente e forte do que ele, como também o seu próprio passado. Acompanhado por Molly, uma samurai de olhos espelhados, e Armitage, um veterano da guerra contra os soviéticos, Case vai ter de ultrapassar obstáculos inimagináveis, numa sociedade controlada por corporações. Uma obra-prima literária que nos deu um vislumbre do futuro digital da Humanidade.
Anne Carson (n. 1950)
A poesia da Antiguidade
Poeta, ensaísta, professora de Estudos Clássicos e tradutora, Anne Carson tem vindo a desafiar os limites da linguagem poética e é uma das candidatas favoritas ao Nobel. Numa abordagem avessa a géneros literários, mistura poesia com ensaio, crítica literária e outras formas de prosa, num estilo criativo e erudito.
Em Autobiografia do Vermelho (1998), um romance em versos, Carson transforma o antigo mito grego de Hércules e do monstro Gerião numa história moderna de amor não correspondido entre dois adolescentes. Gerião assume o papel de um rapaz sensível e Hércules o de um rebelde sensual e rude. Os dois iniciam um caso que termina porque «Hércules não consegue corresponder à adoração total e devastadora de Gerião». No seu primeiro livro, Eros, o Amargo e Doce – Um Ensaio, Carson partia da definição de eros pelo poeta grego Safo para propor uma reflexão sobre como o desejo não pode existir sem um vazio que talvez nem soubéssemos que existia. Uma meditação acolhida com um invulgar e retumbante entusiasmo.
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Poeta, ensaísta, professora de Estudos Clássicos e tradutora, Anne Carson tem vindo a desafiar os limites da linguagem poética e é uma das candidatas favoritas ao Nobel. Numa abordagem avessa a géneros literários, mistura poesia com ensaio, crítica literária e outras formas de prosa, num estilo criativo e erudito.
Em Autobiografia do Vermelho (1998), um romance em versos, Carson transforma o antigo mito grego de Hércules e do monstro Gerião numa história moderna de amor não correspondido entre dois adolescentes. Gerião assume o papel de um rapaz sensível e Hércules o de um rebelde sensual e rude. Os dois iniciam um caso que termina porque «Hércules não consegue corresponder à adoração total e devastadora de Gerião». No seu primeiro livro, Eros, o Amargo e Doce – Um Ensaio, Carson partia da definição de eros pelo poeta grego Safo para propor uma reflexão sobre como o desejo não pode existir sem um vazio que talvez nem soubéssemos que existia. Uma meditação acolhida com um invulgar e retumbante entusiasmo.
Yann Martel (n. 1963)
Narrador de jornadas extraordinárias
Yann Martel é famoso pelo romance A Vida de Pi (2001), vencedor do Prémio Man Booker, publicado em mais de 50 países e adaptado de forma sublime ao cinema por Ang Lee. O romance combina fábula, fantasia e realismo mágico ao narrar a extraordinária viagem de Pi Patel, um jovem indiano que sobrevive a um naufrágio e permanece 227 dias à deriva no Pacífico num barco salva-vidas com um tigre de Bengala. Entre a aventura e a espiritualidade, a história questiona a interpretação da realidade, explorando fé, sobrevivência e resiliência.
Em As Altas Montanhas de Portugal (2016), um romance passado em Trás-os-Montes, um jovem parte em busca de extraordinário artefacto com o potencial de redefinir a História, numa aventura pelas estradas do Portugal do século passado. Em Beatriz e Virgílio (2010), Martel tece uma tocante efabulação do Holocausto. O tema comum da perda é o elo que une estes três livros, idealizados pelo autor aos 20 anos.
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Yann Martel é famoso pelo romance A Vida de Pi (2001), vencedor do Prémio Man Booker, publicado em mais de 50 países e adaptado de forma sublime ao cinema por Ang Lee. O romance combina fábula, fantasia e realismo mágico ao narrar a extraordinária viagem de Pi Patel, um jovem indiano que sobrevive a um naufrágio e permanece 227 dias à deriva no Pacífico num barco salva-vidas com um tigre de Bengala. Entre a aventura e a espiritualidade, a história questiona a interpretação da realidade, explorando fé, sobrevivência e resiliência.
Em As Altas Montanhas de Portugal (2016), um romance passado em Trás-os-Montes, um jovem parte em busca de extraordinário artefacto com o potencial de redefinir a História, numa aventura pelas estradas do Portugal do século passado. Em Beatriz e Virgílio (2010), Martel tece uma tocante efabulação do Holocausto. O tema comum da perda é o elo que une estes três livros, idealizados pelo autor aos 20 anos.
(*) Este artigo foi publicado originalmente na revista wookacontece n.º 15 .
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