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Titulo Qualquer Serve

de Irene Lisboa

editor: Editorial Presença, abril de 1998
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Publicado em 1958, ano da morte da autora, pela Portugália, «Título Qualquer Serve» de Irene Lisboa é uma das suas mais emblemáticas obras no que se refere ao grau de depuração da escrita e à hábil captação da fluidez do instante do fragmento. De estrutura aparentemente semelhante à que obedecem todas as suas outras obras, pautadas por narrativas curtas, «Título Qualquer Serve» tem contudo uma arquitectura circular marcada pela unidade temática e pela presença da mesma voz narrativa, o que completa um círculo perfeito entre o primeiro e o último texto revelando, curiosamente, durante esse percurso uma sucessão de acontecimentos passíveis de alterar a rota que posteriormente é retomada. Dona de uma escrita de estilo cursivo caracterizado por uma caligrafia rápida e muito reveladora da variedade dos movimentos de consciência, Irene Lisboa conta-nos a história (plena de grandes dramas subterrâneos) de uma mulher só, rodeada de elementos e personagens já conhecidos de outros livros da autora, como sejam, respectivamente: o riso interior, a mudança do ritmo lento do pensar para o da atenção à água que ferve, por exemplo, a porteira, o Evaristo e a Mulher, a Celestina, a sardinheira a florir de novo, etc. Mas sob esta ilusória semelhança esconde-se todo um outro recorte e tratamento das temáticas e sujeitos, o que não deixa de indiciar a modernidade estílistica da autora. Tal como afirma Paula Morão, prefaciadora e organizadora das obras de Irene Lisboa: "... o que se conta é uma história sem fim, não importa muito que se lhe encontre um título definitivo ou uma forma narrativa completa, longa, composta e una; por detrás da autodenegação, esconde-se ainda o tempo: nada está acabado, e no entanto tudo morreu lá atrás, num tempo longínquo e tão avassaladoramente próximo, impossível de sepultar."

Titulo Qualquer Serve

de Irene Lisboa

Propriedade Descrição
ISBN: 9789722322751
Editor: Editorial Presença
Data de Lançamento: abril de 1998
Idioma: Português
Dimensões: 141 x 213 x 11 mm
Páginas: 204
Tipo de produto: Livro
Coleção: Obras de Irene Lisboa
Classificação temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789722322751
Idade Mínima Recomendada: Não aplicável
Irene Lisboa

Poetisa e ficcionista. Foi professora primária, realizou estudos de pedagogia na Suíça, França e Bélgica, tendo, neste domínio, publicado alguns estudos sob o pseudónimo de Manuel Soares. Colaborou em publicações periódicas como Presença, Sol Nascente, Seara Nova, Litoral e Cadernos de Poesia. Depois da publicação do volume de prosa 13 Contarelos , Irene Lisboa faz a sua verdadeira estreia no domínio das Letras portuguesas com a publicação das obras de poesia Um Dia e Outro Dia (1936) e Outono Havias de Vir (1937), sob o pseudónimo de João Falco. Obras acolhidas com louvor por uma parte da crítica, sobretudo aquela próxima de Seara Nova , e que inauguram, para José Gomes Ferreira, um novo molde de escrita poética feminina, levando "a poesia até às últimas consequências do desconcerto formal, dessacralizando-a , esvaziando-a de todos os rituais, sem contudo a banalizar nem tomar ares de revolucionária indómita" (p. 19), sendo que a "preferência não escondida pela gente do povo e o amor por certas pequeninas coisas" são alguns dos traços que lhe valeriam, na sua carreira literária, uma injusta indiferença por parte das casas editoras e da crítica mais conservadora. Do ponto de vista formal, a ruptura com os cânones da lírica tradicional funda-se numa poesia de rigor novo, a uma vista inadvertida, próxima da prosa ("Achaste a forma que te convinha,/a forma boa para o teu pensamento.../metrificada ou não/mas curta, emotiva,/exclamativa. /Como tu agora escreves/pensamos nós todos/infinitas vezes." (in "Outro Dia", Um Dia e Outro Dia... ); "Escrever assim... / escrever sem arte,/sem cuidado,/sem estilo,/sem nobreza,/sem lindeza.../sem maior concentração,/sem grandes pensamentos,/sem belas comparações,/não será escrever!/Mas assim me apetece,/que o entendam ou não,/que o admitam ou não,/escrever.../estender/o delgado, esfiado,/inoperante/pensamento." (in "Outro Dia" in Um Dia e Outro Dia... ), impressão corroborada pela epígrafe que abre o segundo volume de versos, Ao que vos parecer versos chamai verso e ao resto chamai prosa , e que ficaria célebre na polémica - que teve como defensores, entre outros, Adolfo Casais Monteiro - para a afirmação do verso livre em Portugal. A escrita confessional, a atenção a momentos e pequenos nadas do quotidiano, a observação dos mais humildes, muitas vezes contendo implicitamente uma crítica a valores burgueses, a consciência de si mesma objectivizada no confronto com um mundo inóspito, transitarão da poesia para o volume Solidão - Notas do Punho de uma Mulher , uma obra híbrida, que se aproxima do género diarístico pela inclusão de algumas datações genéricas e por um pendor introspectivo que procura desarticular as causas de um mal-estar indefinido - dir-se-ia uma menina e moça da actualidade, obsidiada por uma tristeza omnipresente e encontrando na escrita um instrumento de autoconhecimento -, apoiando-se na memória e no registo da momentaneidade, mas que se aproxima também da novelística pela transfiguração da "experiência de observação do mundo e dos outros" (retratos, cenas) em "matéria de escrita" (cf. MORÃO, Paula - prefácio a Obras de Irene Lisboa , Lisboa, Presença, 1991). Entre a obra poética e publicação destas notas inscreve-se o volume narrativo Começa uma Vida , que, continuado em Voltar Atrás para Quê? , dá sequência, agora, sob a forma de novela autobiográfica, a um discurso do eu que se auto-analisa com lucidez e melancolia, e ao intimismo auto-reflexivo e fragmentário daqueles dois outros registos. A sua bibliografia abrange ainda obras para crianças, como Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma ou Queres Ouvir? Eu Conto - Histórias Para Maiores e Mais Pequenos se Entreterem , e colectâneas de crónicas, como O Pouco e o Muito, Esta Cidade ou Título Qualquer Serve. No que diz respeito ao género cronístico, também aí o "o sujeito aprende sobre si mesmo a partir da observação do mundo, alternando movimentos que o dobram sobre si com outros que, no exterior, lhe fornecem materiais de contraste. [...] As "vidas que me cercam", deste modo, têm um efeito de espelho amplificador da vida da narradora, assim posta na posição axial de quem faz parte de um tempo e de uma cidade." (cf. MORÃO, Paula - prefácio a Obras Completas de Irene Lisboa. Esta Cidade!, vol. V, Lisboa, Presença, 1995, pp. 10-11).

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