Silenciador

de Jacinto Lucas Pires
Editor: Cotovia, novembro de 2008 ‧
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«Um homem de gravata, fato escuro. Um escuro quase invisível de tão caro. Estilo inglês, sem marca, alfaiate tradicional. Um desses ultra-selectos, com casa em Londres e uma ligação qualquer à família real, coisa pequena, sem importância, mas que. Sim, exacto. Um “gajo”. Eu, um “gajo”. Palavras que nem precisam de ser ditas. Quase. Su-su-surro. (Pausa, e depois em voz baixa.) “Gajo”, um “gajo”. (Pausa.) Tenho tudo o que é preciso. Desde logo, um rosto… conveniente. Liso, legível, perfumado. Branco. E um modo, uma forma de olhar que sugere a ideia de. Não trevas, não, não propriamente. Tenho de ensaiar isto melhor, talvez. Só uma sombrinha, uma coisinha de nada, miniminha mesmo. Uma penumbra apenas. Uma, sim, “penumbra” —é, aliás, uma palavra de que. Que me faz pele de galinha. No bom sentido. Ou, pelo menos, digamos. Sinto por ela algum respeito, vá lá. É isso e “páuer”. Garra e pinta e força e—“páuer”. (Pausa.) A maior parte das pessoas separa vida e trabalho, dois mundos distintos, eu “non”. Para mim, não há limites, não há barreiras. Chamem-me romântico se quiserem, a verdade é que não há nada a fazer. É como eu sou, e é. “Páuer”, pois. Olhar para a testa de qualquer pessoa, não apenas um inferior hierárquico, quando lhe mais-ou-menos-pergunto “olhe… bardamerda, sim?”. Um homem simples, no fundo, já sei. Gostos bem definidos, um sonho claro. (Pausa.) Na capital, ruas monumentais, praças desertas, zero de vento, zero de árvores a abanar, um sol totalitário. Digo, por exemplo. E, no banco de trás do automóvel cinza, o “gajo” sentindo-se moderno como o raio enquanto consulta os jornais no aparelhinho metálico, marca nipónico- finlandesa, que cabe na sua mão infantil. O amor que há nisto! E, em torno dos punhos brancos, dos dedos feios, das sobrancelhas ligeiramente femininas, algo parecido com uma. Não, algo parecido não. Não, a própria da coisa. Uma tremenda de uma (SANTOS sorri só para si ao pensar na palavra) penumbra.»

Silenciador

de Jacinto Lucas Pires

Propriedade Descrição
ISBN: 9789727952786
Editor: Cotovia
Data de Lançamento: novembro de 2008
Idioma: Português
Dimensões: 129 x 203 x 8 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 86
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Arte > Artes de Palco
Livros em Português > Literatura > Teatro (Obra)
EAN: 9789727952786

SOBRE O AUTOR

Jacinto Lucas Pires

Jacinto Lucas Pires escreve romances, contos, peças de teatro, filmes, música. O seu romance anterior – Oração a que faltam joelhos – ganhou o Prémio John Dos Passos 2021. O verdadeiro ator venceu o Grande Prémio de Literatura DST 2013, tendo sido publicado nos EUA (tradução de Jaime Braz e Dean Thomas Ellis) e na Letónia (tradução de Edvins Raups). Faz diferença, em coautoria com a ilustradora Alice Piaggio, integrou o prestigiado catálogo internacional de recomendações de livros infantojuvenis The White Ravens 2023. Também nesse ano, Jacinto Lucas Pires ganhou o Prémio de Tradução Literária Francisco Magalhães pela tradução de Cristo parou em Eboli, de Carlo Levi. No teatro, trabalha com diferentes grupos e encenadores. É autor da personagem musical Jacinto Manupela. Vento nos olhos é o seu mais recente livro.

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