Paixão e Morte do Infante D. João e D. Maria Teles

de Fernão Lopes
Editor: Edições Asa, abril de 2002 ‧
“Senhor, bem vos diz minha senhora, recebei-a vós, pois aqui estais, ca vos não é pasmo nenhum. Ca bem vedes vós que el-rei vosso irmão tomou sua irmã por mulher, e a fez rainha, e tem dela filhos que entendem de herdar o reino. Pois quem vos há-de ter a mal casardes vós com ela, que está bem manceba e mulher de prol e vem de tal linhagem como todos sabem? Demais que a rainha sua irmã vos fará tanto acrescentar em terras e estado por que podeis viver mui honradamente. E vosso padre el-rei dom Pedro desta guisa tomou dona Inês vossa madre e a recebeu a furto e, depois de sua morte, jurou que era sua mulher por vós ficardes lídimo e vosso irmão. Pois não vejo razão por que o deixeis de fazer, salvo por não haver vontade.”
O infante, preso por imaginação e posto mui firme sob jugo do amor, por conjectura das cousas que via, tinha em grão preço e desejava muito as que não apareciam. Em tanto que o fogo da benquerença, aceso em dobrada quantidade, lhe fazia semelhar aquele pouco de espaço que falavam uma mui prolongada noite.
Então, querendo acabar o azo o que a vontade começara, concordaram seus aprazíveis desejos, outorgando ele que a receberia e havia por sua mulher. E foi assim de feito, que a recebeu logo, presente Álvaro d’Antas e outros de que muito fiavam, os quais se logo foram e ele ficou aí.
E satisfazendo um ao desejo do outro, ele se partiu ledo, sem ela ficar triste, muito cedo ante manhã, o mais afastado de fama que se fazer pôde.

Paixão e Morte do Infante D. João e D. Maria Teles

de Fernão Lopes

Propriedade Descrição
ISBN: 9789724127293
Editor: Edições Asa
Data de Lançamento: abril de 2002
Idioma: Português
Dimensões: 130 x 230 x 5 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 48
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Poesia
EAN: 9789724127293
Idade Mínima Recomendada: Não aplicável

SOBRE O AUTOR

Fernão Lopes

São escassos os dados biográficos conhecidos sobre Fernão Lopes. Os testemunhos documentais de que dispomos informam, sobretudo, sobre os cargos que ocupou ao serviço dos primeiros reis da dinastia de Avis. Por certidões de 1418, sabe-se que exercia as funções de "guardador das escrituras do Tombo" e "escrivão dos livros" de D. João I e D. Duarte. Foi "escrivão da puridade" do infante D. Fernando, a partir de 1422, e, em 1437, lavrou o testamento do infante martirizado em Tânger, já como "tabelião geral" do reino. Em 1457, D. Afonso V substituiu-o nas suas funções por Gomes Eanes de Zurara, sendo de 1459 a última notícia relativa à sua vida. Enquanto cronista oficial sob as cortes de D. João I, D. Duarte e regência de D. Pedro, redigiu as crónicas de D. Pedro, D. Fernando e D. João I. As suas funções simultâneas como guardador das escrituras e cronista-mor do reino acabam por favorecer o seu legado como historiador, visto que a composição das crónicas dependeu do conhecimento e seleção do material a que tinha acesso.
Data de 1434, segundo Damião de Góis, a sua investidura por D. Duarte do cargo de cronista do reino, ao ser-lhe confiada a missão de colocar em crónica "as estórias dos reis que antigamente em Portugal foram", bem como os "grandes feitos e altos do mui virtuoso" rei D. João I, seu pai. Desta crónica geral, além do testemunho do seu sucessor, não havia nenhum vestígio até serem encontrados os manuscritos da Crónica de Portugal de 1419, que têm sido considerados de sua autoria. Com efeito, as alusões de Fernão Lopes, nas suas crónicas, a textos anteriores sobre os primeiros reis, assim como o conteúdo e circunstâncias de composição destes manuscritos, parecem corresponder a esse projeto historiográfico mais amplo de que fora incumbido o cronista. Mas é acima de tudo pelas crónicas de D. Pedro, de D. Fernando e de D. João I (que chegaram até nós por apógrafos do século XVI) que o talento e excecionalidade como historiador e como escritor, relativamente aos cronistas medievais, se afirmou. Não se trata para o cronista de refundir textos historiográficos anteriores, mas de elaborar em novos moldes a narração do devir histórico, individualizando os protagonistas na sua compleição psicológica denunciada em ato, encenando os episódios históricos no mesmo momento da sua ocorrência, emprestando tanto quanto possível verosimilhança ao encadeamento dos factos. É no prólogo da Crónica de D. João I que o cronista expõe o seu objetivo e método de historiar inovador. O seu desejo é "em esta obra escrever verdade sem outra mistura", para o que faz concorrer toda a gama de documentos possível, desde narrativas a documentos oficiais, confrontando-os entre si para assegurar a veracidade dos registos existentes: "Oh com quanto cuidado e diligência vimos grandes volumes de livros, de desvairadas linguagens e terras, e isso mesmo púbricas escrituras de muitos cartários e outros lugares (...). Nem entendais que certificamos cousa, salvo de muitos aprovada, e per escrituras vestidas de fé [...]".
Fernão Lopes. In Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2008.

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