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Editor: Dom Quixote, abril de 2014 ‧
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Romance histórico situado na segunda metade do século XIX, O Leopardo conta a fascinante história de uma aristocracia siciliana decadente e moribunda, ameaçada pela aproximação da revolução e da democracia. O enredo dramático e a riqueza dos comentários, o contínuo entrelaçar de mundos públicos e privados e, sobretudo, a compreensão da fragilidade humana impregnam O Leopardo de uma particular beleza melancólica e de um raro poder lírico, fazendo dele uma das obras-primas da literatura.
Em 1959, foi-lhe atribuído o Prémio Strega e, em 1963, foi imortalizado no cinema por Luchino Visconti, com Burt Lancaster, Alain Delon e Claudia Cardinale nos principais papéis.
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A casa

As casas nos livros têm múltiplos sentidos, e os melhores escritores percorrem-nos todos. Um Lugar ao Sol seguido de Uma Mulher , de Annie Ernaux Na escrita memorialística de Annie Ernaux a casa torna-se palco da mobilidade social e da intimidade autobiográfica. Em Um lugar ao sol (1983) e Uma mulher (1987), textos complementares em que Ernaux narra, respetivamente, a vida do seu pai e da sua mãe, o espaço doméstico está profundamente ligado à classe social, afeto e memória. Annie Ernaux nasceu numa família de origem operária na Normandia; e os seus pais, após anos como trabalhadores braçais, tornaram-se pequenos comerciantes, donos de um café-mercearia em Yvetot. A casa de Ernaux, portanto, era também um estabelecimento comercial, uma mistura de lar e local público, onde a cozinha dividia espaço com o balcão do bar. Neste cenário humilde, a autora situa muitas das suas lembranças de infância: o cheiro de café e do sabão, as prateleiras da mercearia, o balcão onde os clientes (na sua maioria também proletários) iam beber e conversar. O lugar habitado aqui é igualmente um lugar de trabalho e de luta social. Ernaux descreve a transformação desta casa ao longo dos anos: o pai a lutar para manter o negócio e ascender na vida, a mãe a limpar incansavelmente para “viver numa casa melhor do que aquela de onde veio”. O café da família representava, para eles, um “lugar ao sol”, uma conquista de dignidade perante uma sociedade estratificada.
Mas o verdadeiro movimento dramático nestas obras é a distância crescente entre a autora (filha) e o mundo da casa dos seus pais. Ernaux estuda, vai para a universidade, torna-se professora, e assim gradualmente afasta-se do meio social em que cresceu. O espaço da casa familiar passa a ser visto à distância, com amor e estranhamento ao mesmo tempo.
A filha fala e escreve como uma “burguesa” educada, enquanto que o pai mantém a fala simples do trabalhador; há silêncios dolorosos entre gerações, mal-entendidos em torno de um simples livro ou de comportamentos à mesa. Ernaux diz: «Talvez eu escreva porque não tínhamos nada para dizer um ao outro», revelando como a casa que outrora significava união passou a ser marcada por incomunicabilidade, vencida apenas pelo ato da escrita.
Com o tempo, vemos aquela casa esvaziar-se: o pai morre e anos depois a mãe, já viúva, deteriora-se pela doença de Alzheimer e vai para uma casa de repouso. Ernaux, então, volta pela memória e pela linguagem às divisões da sua infância para resgatar a essência dos seus pais. Ela refaz, com detalhes precisos, a topografia do lar: a cozinha acanhada onde a mãe servia refeições modestas, o quarto no andar de cima de onde se avistavam as hortas da vizinhança, o salão do café com as suas mesas gastas. Cada elemento ganha significado retrospetivo: a toalha de mesa plastificada pode evocar tanto as dificuldades financeiras quanto a obstinação em manter tudo limpo e “respeitável” aos olhos dos outros. A casa torna-se um personagem póstumo, onde objetos guardados (fotografias, cadernos, roupas) funcionam como portais para o passado. Ernaux comenta que escreve sobre a mãe para «trazê-la ao mundo» outra vez. Este ato quase mágico de recriar o lar pelos textos demonstra como o espaço vivido persiste, transformado, na memória. O lugar habitado transforma-se em lugar narrado.
Em Annie Ernaux, o lugar da casa é, portanto, afetivo (cheio de saudade e ambivalência), familiar e profundamente político. Político porque encarna a mudança de classe social – os pais que ascenderam de operários a donos do próprio negócio, a filha que ascendeu de filha de donos de café a intelectual burguesa –, e essa ascensão cobra o seu preço em forma de distância emocional. O pai conseguiu que a filha passasse a pertencer ao mundo que o rejeitou ou seja, ele deu-lhe a educação para entrar num meio burguês que sempre desprezou pessoas como ele. Esta ironia dolorosa atravessa a casa: Ernaux sente orgulho e estranhamento pelas suas origens humildes, e carrega até uma certa vergonha. Ao esmiuçar o lar, ela pratica o que chama de «exercício de memória e sociologia» – o íntimo e o social interligados. A casa dos pais é descrita como modesta, mas limpa; simples, mas repleta de dignidade e de amor bruto de quem providencia o melhor que pode. Com o passar dos anos, a casa esvazia-se, e transforma-se em memória. No fim de Uma mulher, Ernaux olha para a fotografia da mãe e sente a estranheza de já não ter a sua casa materna no mundo: resta-lhe a escrita como morada da memória. Assim, na sua prosa despida e contundente, Ernaux transforma a casa real em texto, o lugar habitado em lugar narrado, garantindo que, pela literatura, aquelas vidas simples continuam a habitar o mundo. COMPRO NA WOOK! » Rumo ao Farol, de Virginia Woolf Em Rumo ao Farol (1927), Virginia Woolf ergue a casa de Verão da família Ramsay, situada numa ilha fictícia inspirada na Isle of Skye, como o epicentro afetivo do seu romance modernista. Mais do que um cenário, a casa é um espelho do estado interior das personagens e um recetáculo do tempo.
Na primeira parte (A Janela), sob a perspetiva fragmentada dos vários convidados e familiares, vemos a casa vibrar com vida: salas desordenadas cheias de crianças, jantares à luz de velas em que Mrs. Ramsay tenta, com as suas flores e tapeçarias, disfarçar as imperfeições e o desgaste do mobiliário. Woolf sugere que a casa “exibe as noções íntimas de desmazelo e a incapacidade de preservar a beleza” que a Sra. Ramsay sente dentro de si. As divisões e objetos refletem as mentes: o arranjo da sala de jantar ou a janela aberta ao entardecer deixam transparecer anseios, frustrações e ternuras dos moradores. A casa torna-se um palco da consciência coletiva, onde ora os personagens buscam refúgio, ora desejam escapar.
É na parte central, O Tempo Passa, que Woolf realiza uma experiência narrativa brilhante: transmite a passagem de uma década: com guerra, morte e mudanças, por meio da lenta deterioração da casa. Neste interlúdio quase sem figuras humanas, as paredes descascam-se, o vento entra pelas frestas, a ferrugem corrói as trancas. As ausências falam alto: o relógio que marca as perdas é a própria morada, com móveis mudos e paredes inertes que resistem às correntes de ar – uma batalha entre duas forças vivas: a casa e o tempo. Em vez de vermos diretamente os personagens envelhecerem ou sofrerem, vemos a casa que envelhece no seu lugar. Quando, na terceira parte, os sobreviventes Ramsay regressam àquele lar costeiro, encontram um espaço familiar e, ao mesmo tempo, transfigurado pela ação impiedosa dos anos e da natureza. A poeira acumulada e os cantos silenciosos acionam as memórias: cada quarto evoca fantasmas do passado, especialmente da falecida Mrs. Ramsay, cuja presença ainda parece impregnar as paredes. Ao arrumar a casa para torná-la habitável outra vez, Lily Briscoe e os demais estão, simbolicamente, a reconstruir o passado nas suas consciências, e a pôr ordem nas lembranças. Rumo ao Farol mostra, assim, a casa como arquivo vivo do tempo. A casa é um lugar afetivo (repleto das projeções emocionais dos Ramsay) e também quase espiritual: um local ao qual se volta pela linguagem e pela memória em busca de sentido, tal como o farol distante que dá título ao romance. Woolf faz da casa um símbolo da impermanência, ora abrigo de instantes eternos, ora espaço vazio corroído pela mudança inevitável. COMPRO NA WOOK! » O Leopardo, de Giuseppe Tomasi de Lampedusa No romance histórico O Leopardo (1958), Lampedusa retrata a residência do príncipe Fabrizio Salina, um palácio aristocrático na Sicília do século XIX, como um microcosmo de uma era em declínio. A casa da família Salina tem uma dimensão simbólica e política evidente: encarna a velha aristocracia feudal confrontada pelas mudanças do Risorgimento italiano. Logo no início da narrativa, vemos o palácio envolto em rituais tradicionais (a família a rezar nos salões opulentos), mas no fim a mesma casa assiste à destruição das suas relíquias sagradas e profanas. Em poucas décadas, do florescer à ruína, o lar dos Salina reflete o destino de uma classe social. A transformação do espaço doméstico: de cenário de esplendor a depósito de quinquilharias descartadas, marca a passagem do tempo histórico.
Mas não é apenas no conteúdo que o palácio se transforma; a linguagem nostálgica e irónica do narrador também edifica essa mudança. Lampedusa escreve décadas depois dos eventos narrados, intercalando descrições sensoriais com comentários melancólicos sobre o futuro daquelas divisões e jardins. O jardim do palácio é descrito com perfumes voluptuosos e levemente pútridos, antecipando a decadência que viria. A prosa sugere que já havia «no odor da decadência uma infinita saudade, um arreigado amor», evidenciando como a memória afetiva do autor impregna a representação da casa. O palácio de Donnafugata, residência de verão do príncipe, emerge quase como uma personagem: os seus salões e corredores silenciosos observam, imperturbáveis, as intrigas familiares e as mudanças políticas que ocorrem ao redor. Com o passar dos anos e a morte do príncipe, esses espaços outrora vibrantes mergulham em pó e silêncio: as paredes agora guardam memórias de um tempo perdido, enquanto novas gerações remodelam a Sicília. Assim, em O Leopardo, a casa aristocrática é símbolo de tradição e poder, mas também um túmulo de lembranças, mostrando que manter tudo como sempre foi acaba por ser impossível quando a história abre caminho. O mundo de dentro (a família Salina e a sua casa) e o mundo de fora (a Itália em convulsão) espelham-se: a decadência do palácio anuncia a decadência de uma classe. E cada objeto doméstico torna-se relicário de saudade e testemunha silenciosa de tempos que passaram. COMPRO NA WOOK! » Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar Poucos romances exploram a casa da família de forma tão visceral quanto Lavoura Arcaica (1975), de Raduan Nassar. Aqui, a casa rural de uma família libanesa-brasileira é apresentada como um mundo fechado, de ordem patriarcal quase bíblica, onde cada objeto e ritual quotidiano carregam um peso sagrado (e sufocante). A fazenda da família: isolada, cercada de campos arados (a “lavoura”), funciona como espaço familiar e simbólico: é ao mesmo tempo ventre acolhedor e cárcere da alma rebelde do jovem André, o protagonista. Assim como na parábola do filho pródigo, André abandona o lar em busca de liberdade, e foge da «severa lei paterna» e do «sufocamento da ternura materna». No entanto, Nassar não nos dá a volta redentora do filho arrependido; oferece, em vez disso, um retorno trágico e subversivo. André acaba por ceder aos apelos emocionais do irmão e regressa à casa de origem, mas esse regresso desencadeia conflitos intensos e desejos incestuosos que estavam latentes. A fazenda paterna revela-se um barril de pólvora emocional, onde tradição e transgressão se enfrentam.
Dentro da casa, o pai é a lei. Esta descrição crítica capta o núcleo patriarcal da família de Lavoura Arcaica: muitos filhos presos à obediência cega, a «união da família acima de qualquer mandamento». André, o filho fugitivo, encarna a resistência contra esse sistema, mas ao voltar vê-se movido pelos mesmos rituais agrários e religiosos de outrora: refeições conjuntas silenciosas, provérbios do pai entoados como salmos. A linguagem do romance é essencial para transformar a casa em mito: Nassar cria uma prosa altamente poética, ritmada por repetições e imagens do Antigo Testamento. Com isso, a casa rural banal ganha ares de cenário bíblico ou de tragédia grega. O espaço físico é transfigurado pela linguagem, ora calorento e sensorial, cheio de cheiros da cozinha e da terra, ora onírico e asfixiante como um templo antigo.
A memória fragmentada de André também remodela o lugar. Enquanto narra, ele mistura passado e presente, lembranças de infância surgem em desordem. O protagonista vai e volta fisicamente à casa paterna, mas também a sua mente oscila entre o antes e depois, revivendo cenas familiares enquanto as confronta com o agora. Esta estrutura cíclica significa que a casa, em Lavoura Arcaica, não é apenas um local geográfico: é uma construção da memória, um labirinto interior onde André se perde e se encontra. Ao regressar, ele tenta libertar-se pela palavra, questionando abertamente o pai, mas até as suas falas são apropriações das palavras do pai, mostrando como a casa vive dentro dele através da linguagem assimilada. O espaço doméstico transforma-se, no fim, em cenário de violência: um jantar em família explode em confrontação e tragédia, e aquilo que deveria ser o núcleo seguro (a casa do pai) converte-se num palco de destruição do próprio pai (numa inversão sombria da parábola bíblica). Lavoura Arcaica faz-nos sentir que cada parede da casa rural está impregnada de gerações de costumes, fé e opressão, e que romper com essa estrutura é como dinamitar os alicerces da própria identidade. É um estudo poderoso de como o lugar familiar pode ser ao mesmo tempo sagrado e sufocante, e de como o tempo (histórico e psicológico) não passa ali da mesma forma: entorta-se e regressa sobre si, em ritual e repetição, até que a rutura se torne inevitável. COMPRO NA WOOK! »

O Leopardo

de Giuseppe Tomasi di Lampedusa

Propriedade Descrição
ISBN: 9789722054676
Editor: Dom Quixote
Data de Lançamento: abril de 2014
Idioma: Português
Dimensões: 155 x 236 x 21 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 336
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789722054676

Uma lição

DC

Obra filosófica, que retrata que a efemeridade da vida não justifica a perda de tempo com questíunculas políticas. Tudo acaba por ser uma questão de forma, já que a natureza humana levará normalmente a que “tudo fique exatamente como está”.

Um livro excepcional

Rui P.

A obra de Lampedusa é imortal, "tudo tem que mudar para que tudo fique na mesma" é a máxima que nos trouxe e que tantas vezes repetimos. Um belissimo livro. Uma belíssima história. Tal como Os Noivos, um grande clássico italiano, mundial.

Lição de política

Matias

Acho que, cada vez mais, este livro deveria ser de leitura obrigatória. Camufladas pelo romance, estão patentes narrativas políticas utilizadas atualmente para iludir e manipular a opinião pública, utilizando preconceitos sociais e ideias anárquicas como propaganda para ganhar influência e poder, mas que, em verdade, não apresentam soluções viáveis ou estratégias de governação com vista à igualdade e prosperidade.

Um diamante em bruto

Mary

Aconselho vivamente a leitura de um dos melhores romances do século XX. É um clássico da literatura italiana, que transporta o leitor para a época do Risorgimento e que cativa desde o primeiro parágrafo. Um diamante em bruto para os amantes de literatura!

Clássico

JNB

Um bom clássico, se estiver na estante da livraria e não se souber o que levar, pode se levar este livro sem receios.

o leopardo

Manuela

Um livro intemporal. Não se limita a constatações de época mas as suas preocupações são sempre atuais. Muito bom.

SOBRE O AUTOR

Giuseppe Tomasi di Lampedusa

Giuseppe Tomasi di Lampedusa, duque de Palma e príncipe de Lampedusa, nasceu em Palermo, em dezembro de 1896, e faleceu em Roma, em julho de 1957. Dedicou-se à escrita apenas nos últimos anos da sua vida, no tranquilo isolamento da sua propriedade, sem contacto com o meio literário. O Leopardo, a sua obra-prima, foi o único romance que escreveu. Inicialmente recusado por duas grandes casas editoriais italianas, viria a ser publicado um ano e meio após a morte de Lampedusa, tendo um sucesso imediato junto do público e da crítica, que o considerou uma das maiores obras literárias do século XX.

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