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O Lavrador da Boémia

de Johannes Von Saaz
Editor: Companhia das Ilhas, abril de 2021 ‧
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Em O Lavrador da Boémia temos combate que identifica o amor perdido com tudo o que na natureza possa simbolizá-lo, as coisas boas, a Primavera e o Verão, as flores, tudo o que vive, a própria perfeição do corpo humano, os seus sentidos, a vista, o ouvido, o tacto, o cheiro e o paladar, tão perfeitos — como pode o Deus que tal criatura fez, o humano, ser o mesmo que inventou a figura da Morte como poder celeste instalado, fronteira obrigatória. Quem concebeu esta perfeição não poderá ser a mesma criatura que a impede de viver o que será o seu ciclo natural. É contra isso que o Lavrador guerreia e dirige as suas armas argumentativas.

O que Saaz realiza no Lavrador é, não só a denúncia de uma morte injusta, portanto, sem o fazer directamente, de um erro divino, mas também, pela qualidade da criação poética, fazer permanecer para além dos tempos uma notícia que ganha a dimensão perene de um texto clássico — a vida do texto ganha corpo, de facto, na tenção psíquica, real e não apenas retórica, de um confronto entre duas vozes cénicas, o Lavrador Saaz, e a Morte, instrumento de Deus munido de ciência teológica.


O Lavrador
Destruidora encarniçada dos povos, vós que desprezais tudo o que vive, assassina de to-dos os homens, vós Morte, maldita sejais. Meus Deus, que o Deus vosso criador vos odeie, que a má sorte vos assombre, que sejais amaldiçoada para todo o sempre. Que o medo, o infortúnio, as lamentações vos persigam para onde quer que fordes. Que o céu, a terra, o Sol, a Lua, as estrelas, o mar, os lagos, as montanhas e os prados, os vales, os abismos do Inferno, tudo o que vive, tudo o que se mexe vos seja hostil, adverso, vos maldiga para sempre. Que sejais para sempre desterrado, ó mais grave dos Deuses, por todos os homens e todas as criaturas. Demónio obsceno! Que a vossa má memória viva e perdure até ao fim dos tempos. Que a verdade da minha queixa seja gritada por mim e por toda a humanidade contorcendo as mãos, que seja gritada a minha acusação.

O Lavrador
Ouvi, ouvi as novas maravilhas. Estas acusações cruéis donde vêm? Não o sabemos ao certo. Mas ameaças, acusações, mãos que se contorcem, nunca nos fizeram dano. Todavia, meu filho, quem quer que sejas, mostra-te e diz-nos qual é o agravo que te fizemos, porque nos tratas de forma tão inconveniente? Não estamos habituados a isto, apesar de já termos empurrado para lá da borda do prado numerosos homens inteligentes, nobres, belos, poderosos, honestos. A viúva como o órfão, as nações como os povos, tiveram o seu quinhão de sofrimento. Tu, que pareces sério, vê-se que o infortúnio te oprime. Mas a tua queixa só no som tem rima. Se estás enraivecido, colérico, perturbado ou demente, detém-te, vai-te. Não penses que poderás enfraquecer o nosso poder magnífico e alto. No entanto, diz-nos o teu nome. Não fiques silencioso. Diz-nos em que te agravámos. Justos gostaríamos de ser a teus olhos pois justa é a nossa causa. Não sabemos do que malvadamente nos acusas.

O Lavrador da Boémia

de Johannes Von Saaz

Propriedade Descrição
ISBN: 9789899007369
Editor: Companhia das Ilhas
Data de Lançamento: abril de 2021
Idioma: Português
Dimensões: 141 x 223 x 6 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 52
Tipo de produto: Livro
Coleção: Azulcobalto | Teatro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Teatro (Obra)
EAN: 9789899007369

SOBRE O AUTOR

Johannes Von Saaz

Johannes von Saaz: autor medieval de língua alemã, nascido provavelmente na vila de Schuttwa nos sudetas, entre 1342 e 1350, bem no meio de uma epidemia de peste que varreu a Europa, no início do reinado de Carlos IV. Entre 1358 e 1368 frequenta a escola do mosteiro de Tepl. Parte depois para fazer estudos universitários em Praga, Bolonha e Pádua, eventualmente em Paris. Trabalha na chancelaria de Praga e obtém o cargo de notário municipal e de reitor da Escola da vila de Saaz, daí o seu nome. Na altura da morte da esposa Margaretha escreve O Lavrador da Boémia, que o tornará célebre. Não existe traço algum de outros escritos literários. Saaz é considerado precursor de grandes humanistas, tais como Erasmo, Thomas More e Rabelais.

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