O Lavrador da Boémia
SINOPSE
O que Saaz realiza no Lavrador é, não só a denúncia de uma morte injusta, portanto, sem o fazer directamente, de um erro divino, mas também, pela qualidade da criação poética, fazer permanecer para além dos tempos uma notícia que ganha a dimensão perene de um texto clássico — a vida do texto ganha corpo, de facto, na tenção psíquica, real e não apenas retórica, de um confronto entre duas vozes cénicas, o Lavrador Saaz, e a Morte, instrumento de Deus munido de ciência teológica.
EXCERTOS
O Lavrador
Destruidora encarniçada dos povos, vós que desprezais tudo o que vive, assassina de to-dos os homens, vós Morte, maldita sejais. Meus Deus, que o Deus vosso criador vos odeie, que a má sorte vos assombre, que sejais amaldiçoada para todo o sempre. Que o medo, o infortúnio, as lamentações vos persigam para onde quer que fordes. Que o céu, a terra, o Sol, a Lua, as estrelas, o mar, os lagos, as montanhas e os prados, os vales, os abismos do Inferno, tudo o que vive, tudo o que se mexe vos seja hostil, adverso, vos maldiga para sempre. Que sejais para sempre desterrado, ó mais grave dos Deuses, por todos os homens e todas as criaturas. Demónio obsceno! Que a vossa má memória viva e perdure até ao fim dos tempos. Que a verdade da minha queixa seja gritada por mim e por toda a humanidade contorcendo as mãos, que seja gritada a minha acusação.
O Lavrador
Ouvi, ouvi as novas maravilhas. Estas acusações cruéis donde vêm? Não o sabemos ao certo. Mas ameaças, acusações, mãos que se contorcem, nunca nos fizeram dano. Todavia, meu filho, quem quer que sejas, mostra-te e diz-nos qual é o agravo que te fizemos, porque nos tratas de forma tão inconveniente? Não estamos habituados a isto, apesar de já termos empurrado para lá da borda do prado numerosos homens inteligentes, nobres, belos, poderosos, honestos. A viúva como o órfão, as nações como os povos, tiveram o seu quinhão de sofrimento. Tu, que pareces sério, vê-se que o infortúnio te oprime. Mas a tua queixa só no som tem rima. Se estás enraivecido, colérico, perturbado ou demente, detém-te, vai-te. Não penses que poderás enfraquecer o nosso poder magnífico e alto. No entanto, diz-nos o teu nome. Não fiques silencioso. Diz-nos em que te agravámos. Justos gostaríamos de ser a teus olhos pois justa é a nossa causa. Não sabemos do que malvadamente nos acusas.
DETALHES
| Propriedade | Descrição |
|---|---|
| ISBN: | 9789899007369 |
| Editor: | Companhia das Ilhas |
| Data de Lançamento: | abril de 2021 |
| Idioma: | Português |
| Dimensões: | 141 x 223 x 6 mm |
| Encadernação: | Capa mole |
| Páginas: | 52 |
| Tipo de produto: | Livro |
| Coleção: | Azulcobalto | Teatro |
| Classificação Temática: |
Livros em Português
>
Literatura
>
Teatro (Obra)
|
| EAN: | 9789899007369 |
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