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Na Água do Tempo

Diário

de Luísa Dacosta
Editor: Quimera, abril de 1992 ‧
14,50€
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Agosto, Porto, 1953
Conheci o Régio. Um bichinho da terra, quase triste, se não fossem os olhos – contas inquietas, vivas, observadoras, movendo-se rápidas e fundas por detrás dos óculos. Ah! os óculos! Negros, listrados de incrível amarelo – qualquer coisa de sonho que, não sei como, pôde trazer para a realidade. Penso que viajou fora do tempo até àquele em que os animais falavam e aí conheceu um lagarto míope. Foi o bichinho – disso não tenho dúvidas – que lhos ofereceu. Muito gostaria de pô-los!

Abril, 1957
A chuva parou. Bamboleante um assobio sobe a rua e chega aqui ao quarto. Para os lados de S. Francisco as cornetas do quartel – iguais às que vinham outrora dos lados do jardim da Carreira – tocam o recolher. Trazem-me uma saudade de coisas perdidas, da infância: o perfume das maçãs que as brasas tisnavam lentamente, enquanto a tia rezava o terço e eu olhava já sonolenta o retrato de vovó Ana. Aquele retrato! Dava-me sempre a estranha sensação de que eu não podia deixar de ser a ressurreição daquela avó, que se reduzia a um retrato – e de quem eu tinha a voz, as mãos, a boca, o desenho das sobrancelhas.

O som esvaiu-se de todo para os lados de S. Francisco. E com ele as memórias de outrora abandonaram o quarto, alugado e frio da pensão.

Na Água do Tempo

Diário

de Luísa Dacosta

Propriedade Descrição
ISBN: 9789725890301
Editor: Quimera
Data de Lançamento: abril de 1992
Idioma: Português
Dimensões: 159 x 231 x 21 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 372
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Outras Formas Literárias
EAN: 9789725890301
Idade Mínima Recomendada: Não aplicável

Intemporal

Joana Pinto

Livro intemporal, com passagens sinceras e inspiradoras dos momentos professora/alunos.

SOBRE O AUTOR

Luísa Dacosta

Luísa Dacosta nasceu em 1927, em Vila Real de Trás-os-Montes. Formou-se na Faculdade de Letras de Lisboa, em Histórico-Filosóficas. Mas as suas "Universidades" foram as mulheres de A-Ver-O-Mar, que murcham aos trinta anos, vivem e morrem na resignação de ter filhos e de os perder, na rotina de um trabalho escravo, sem remuneração, espancadas como animais de carga (-Ele não me bate muito, só o preciso) e que, mesmo afeitas, num treino de gerações,às vezes não aguentam e se suicidam (oh! Senhora das Neves! E tu permites!) depois de um parto, quando o mundo recomeça num vagido de criança! Às mulheres de A-Ver-O-Mar "Deve" a língua ao rés do coloquial. Foi professora do ciclo preparatório e alguma coisa deve também aos alunos: o ter ficado do lado do sonho. Isso a motivou a escrever para crianças. Faleceu a 15 de fevereiro de 2015.

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